O problema em defender a liberdade pela metade

Um dia desses me perguntaram, “Luan, se defende legalização das drogas, o feminismo e casamento homossexual, o que faz você diferente da esquerda? ”. Percebi que era uma pergunta sincera, de alguém com curiosidade e uma vontade inocente de aprender. Contudo, confesso que não foi uma pergunta fácil de responder. Não porque a pergunta fosse complexa. Mas porque era capciosa. Decidi que responder que era um liberal e que rejeitava os termos esquerda e direita como posição política era o jeito mais simples para se fazer entender.

Seria fácil dizer que não sou de esquerda porque a esquerda rejeita o livre-mercado e abraça o intervencionismo econômico. Mas isso seria me colocar diretamente no grande guarda-chuva retórico que se transformou o termo direita. Não me encaixo junto com conservadores, militaristas ou fundamentalistas (apesar de haver alas à esquerda com as mesmas posturas) que proclamam o termo para si. Além disso, basear o espectro político apenas no modelo econômico que se defende é rejeitar toda a ciência política. É realmente menos reducionista e mais correto me considerar liberal. Mas o que é um liberal de fato?

As duas liberdades.

É comum encontrar na internet, livros ou jornais duas divisões da liberdade que soam como blasfêmias aos meus ouvidos. E geralmente a liberdade é dividida entre liberdade econômica e a liberdade individual.

A liberdade econômica geralmente se refere ao modelo econômico de um país, se ele é intervencionista ou aberto ao livre-mercado. Na ciência econômica atual não existe binarismo entre intervencionismo ou livre-mercado. Hoje os países se localizam em um longo espectro de regimes comerciais, que variam em intensidade e grau. [1]

Para os defensores da liberdade econômica, quanto mais livre é um país, mais próspero ele é. E há bons motivos para se acreditar nisso.  Dados não faltam. Realmente todo país desenvolvido teve em seu passado e ainda tem um alto grau de liberdade econômica, mesmo aqueles com alta carga tributária.

Já a liberdade individual se refere geralmente às características mais comum que a sociedade atribui à palavra liberdade: liberdade de expressão, liberdade de ir e vir, liberdade religiosa, liberdade de fazer o que quiser sem prejudicar terceiros, etc. Essa liberdade é muito mais notada pelo senso comum, a que mais desperta paixões e a que mais dói se retirada. Contudo, tanto a liberdade individual quanto a liberdade econômica fazem parte da mesma categoria de fenômeno: a liberdade humana.

O grande erro aqui é rejeitar a liberdade econômica como uma liberdade individual essencial. E isso não acontece por causa do senso comum. O camelô, todo dia perseguido pelo rapa, o vendedor de marmita, que teme a fiscalização já que vende seu produto na própria casa, o motorista de vã clandestina e o trabalhador comum, que usufrui de todos esses bens e serviços, sabem muito bem da importância da liberdade econômica para nossas vidas. Eles sabem que teriam uma vida muito melhor se tivessem a liberdade de empreender sem medo. Quem rejeita a liberdade econômica como essencial é o acadêmico sem experiência no mercado, o político que nunca teve que satisfazer clientes para prosperar e o Juiz que acha que propriedade privada é um negócio que só rico pode ter.

Nesse sentido, tanto a esquerda quanto a direita já rejeitaram uma ou outra liberdade individual. A direita já rejeitou a liberdade de expressão em favor do fundamentalismo religioso como a esquerda já foi a favor do planejamento econômico e burocrático em detrimento da liberdade econômica. E é aí que entra o liberal.

O liberalismo

Inúmeros autores e teorias tentaram se definir como a terceira via política, a salvadora das nações, o meio-termo de ouro. Todos falharam. O liberalismo, contudo, não possui essa vontade ou designação. Ele está tanto na direita como na esquerda, no centro e no libertário. Não é uma doutrina rígida e fechada, é na verdade uma metamorfose de pensamento, que evolui e se desenvolve de acordo com os autores que abraçam seus princípios. Que princípios são esses? A liberdade humana.

Para o liberal, a defesa tanto da liberdade econômica e liberdade individual são uma só. Você não pode ser meio-liberal ou defender a liberdade pela metade. Se é a favor do comércio, por que seria contra o comércio de drogas? As guerras as drogas matam mais que as drogas em si. Separar o problema das drogas do problema das guerras às drogas é o primeiro passo para se pensar em uma solução.

Além disso, reconhecer o machismo na sociedade também é outro passo para pensar em soluções que ajudem as mulheres a serem mais livres e independentes em um mundo que precisa cada vez mais de capital humano. O feminismo nasceu como movimento liberal e há muito de liberalismo no movimento feminista atual.

E o que é mais liberal do que defender que duas pessoas que se amam formem uma família? O casamento homossexual hoje está em pauta por causa de princípios que nasceram com o liberalismo: a democracia, o estado de direito e a tolerância.

No fim das contas, há muita gente que se define de esquerda ou direita mas defende em certo grau a liberdade humana. Faz parte do jogo político. Mas a coerência pede que se defenda de maneira correta aquilo que acreditamos ser o pilar do progresso humano. O liberal não pode esperar que o conservador ou o socialista defenda a liberdade por ele. Contudo, isso não faz com que essas vertentes sejam inimigas inconciliáveis. Apenas define quem é o verdadeiro protagonista da liberdade.

[1] STIGLITZ, Joseph E., CHARLTON, Andrew. Livre mercado para todos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.