Patriotismo como forma de mudança social

Por João Lucas Castro Alves 

O que significa patriotismo? Não é comprar o Brasil, uma ideologia com cheque em branco, como queria o regime militar quando dizia “Brasil: ame-o ou deixe-o”. Se você não amasse o regime militar, não era patriota. Não! Patriotismo significa desejar um país melhor e ser contra a corrupção, a desonestidade e a índole autoritária.

É isso que é ser patriota, não é comprar o Brasil de um ditador ou de uma ideologia de esquerda, que também distorce do outro lado. É ter um espirito crítico e perceber as virtudes e os defeitos, tal como um processo de psicanálise, e aceitar que nós somos assim mesmo. Quando você vai para o divã, não vê só coisas boas e ruins: enxerga traumas e dificuldades, contudo, há coisas maravilhosas, recursos emocionais e coragem. Quando se compreende perfeitamente essas duas coisas, você leva a vida adiante de uma forma muito mais alegre e forte. E é assim também com uma sociedade nacional. Se você demonizar excessivamente o passado, terá um problema permanente de autoestima; se você achar que seu passado é épico demais, vai se iludir. O passado é uma mistura das duas coisas, porque nada mais é do que a grande aventura dos seres humanos. É um erro achar que a história do Brasil é pior do que a dos outros povos, como se os portugueses nos tivessem feito mais corruptos e mais ineficiente do que somos. Existem conquistas que precisam ser reconhecidas. Por exemplo: nossa capacidade de manter a integridade territorial, coisa que os outros países não conseguiram. Isso é um mérito da colonização portuguesa que nos legou uma cultura relativamente tolerante do ponto de vista racial, político e religioso. São virtudes que, se aceitarmos e entendermos adequadamente poderão ser utilizadas no futuro.

Por isso é preciso ser otimista. O grande perigo do Brasil, hoje, é uma mistura de desânimo com cinismo. O desânimo é achar que o Brasil não tem conserto e o cinismo é acreditar que, sendo país corrupto e violento, eu também vou ser corrupto e violento nas minhas relações pessoais. Essa mistura pode levar a uma acomodação geral ou a uma via golpista. Já que não conseguimos resolver coletivamente nossos problemas, vamos chamar o general, o imperador ou o ditador para resolvê-los. As duas tentações permanecem no horizonte brasileiro, mas precisamos ser otimistas. Isso não significa achar que o Brasil vai virar um país de primeiro mundo amanhã, mas calibrar as expectativas e perceber que existem grandes problemas estruturais históricos e que demoram para serem resolvidos. Mas que podem ser resolvidos!

Temos que começar resolvendo nosso problema de cidadania. O brasileiro acha que o país é um grande provedor, não uma sociedade ou um pacto nacional, no qual todos têm que contribuir de forma igual. O cidadão se sente credor: ele paga impostos então o Brasil tem que dar tudo, sem que ele participe. Fomentado ainda mais essa visão monárquica do poder. Ele não participa nem de sindicatos, nem de partidos políticos, nem de assembleias de condomínio, nem de reunião dos pais. Mas ele cobra muito do Estado, que tem de ser um bom provedor de educação, de saúde, de segurança, de saneamento e de cidadania.

Cobrando do Estado padrões de ética, de cidadania e de eficiência que não cultiva nas suas relações privadas. Ele fura fila, ultrapassa sinal vermelho e corrompe o agente público quando lhe é conveniente. Precisamos melhorar isso qualificando a sociedade brasileira pela educação, pelo debate e pela leitura.

Precisamos parar de apostar em alguns “salvadores da pátria”: Fernando Collor, que era o pai dos descamisados; Fernando Henrique, que ia dar um tiro na inflação e resolver tudo; Lula o pai dos pobres; e Dilma, a mãe do bolsa família. Esgotamos o nosso arsenal de possíveis “salvadores da pátria”. Hoje é como se o brasileiro estivesse se olhando nu diante do espelho e dizendo, “É isso que nós somos”. Não é o rei que está nu, é o povo.

É necessário o cidadão ser protagonista da mudança. É uma grande ilusão achar que o Brasil, no ano que vem vai virar o Japão, a suíça ou a Inglaterra. Vai demorar muito, eu tenho certeza que meus filhos e meus netos não verão o Brasil dos meus sonhos, mas terão claramente um país melhor que o de hoje. Por exemplo: o hábito da leitura, que é uma mudança de natureza cultural demorada. A escola não resolve essa questão sozinha. São várias gerações formando leitores, para que daqui a cem anos tenhamos um país de pessoas capazes de eleger políticos melhores do que os que temos atualmente –  ou porque se educaram ou porque participaram de uma sociedade que conseguiu qualifica-los como cidadãos.