Resenha e opinião: “JFK: A Pergunta que não quer calar”

 

Por: Marco Gavião

 

O filme estadunidense JFK (no Brasil JFK: A Pergunta que não quer calar), lançado em 1991, dirigido por Oliver Stone, baseado nos livros Crossfire, de Jim Marrs e Na Trilha dos Assassinos de Jim Garrison, personagem principal da história, interpretado no filme por Kevin Costner, mostra a sua batalha contra o governo americano para provar que a morte de John Fitzgerald Kennedy em 1963 havia sido uma conspiração de organizações estatais como CIA, FBI e a própria Casa Branca. Após a morte de Kennedy, foi criada a Comissão Warren, nomeada em homenagem a Earl Warren, presidente da Suprema Corte e líder da comissão criada para investigar as circunstâncias do caso. A mesma atestou que a morte de JFK havia sido realizada por Lee Harvey Oswald, em três disparos efetuados no sexto andar do Texas School Book Depository, tendo em seguida assassinado outro policial e sendo preso na sequência. Oswald seria assassinado no dia seguinte por Jack Ruby. De acordo com a comissão, nenhum agente do governo, nem Oswald e Ruby, haviam agido sob conspiração, apesar de constatados erros na segurança do presidente durante o ato oficial em que estava ao momento de sua morte.

Contradições visíveis foram vistas pelo promotor de Nova Orleans Jim Garrison e sua equipe, que três anos depois da morte, voltaram a investigar o caso. Após investigar a vida de Oswald, a equipe descobre que ele fazia parte de uma guerrilha formada por dissidentes cubanos e apoiadores com o objetivo de voltar a atacar Cuba, sendo financiados pelo FBI, à revelia de Kennedy, que havia recuado em invadir novamente a ilha. Indo mais a fundo, Garrison descobre a segurança de JFK havia sido sabotada pelo Estado, com uma quantidade reduzida de seguranças, seguindo por uma rua plana e com diversas janelas abertas, atitudes fora do protocolo do Serviço Secreto. Ao longo que a investigação avança e Garrison fica cada vez mais próximo de achar suas respostas, começa a ser proibido de ter acesso a dados públicos, além dos dados já negados ao próprio, como a Comissão Warren e a autópsia de Kennedy. Ao indiciar Clay Shaw, interpretado no filme por Tommy Lee Jones, um empresário que tinha ligações com o FBI e havia ajudado a confabular a morte de JFK, Jim consegue trazer a júri diversas provas que mostravam como era infundada a possibilidade de Oswald ter matado Kennedy sozinho, como a trajetória das balas, a qual o governo atribuía diversas curvas impossíveis de realizar-se como explicação para os múltiplos ferimentos; e a autópsia incompleta, devido às ordens de agentes e membros do exército, que impediram os legistas de ter uma análise mais completa do corpo. Apesar de todas as provas apresentadas, Shaw foi considerado inocente e Garrison foi ridicularizado pela mídia e por parte da sociedade norte-americana.

Apenas em 2017, o atual presidente Donald Trump liberou a público os dados da Comissão Warren, a qual mostrou parte do processo investigativo do caso. Porém ainda há várias coisas que não foram explicadas acerca do caso e que talvez nunca venham à tona. É dever de qualquer Estado democrático mostrar todos os processos que a constituem, ainda mais de um caso tão importante quanto a morte de um presidente americano. Realizar testes balísticos e autópsias sob portas fechadas, sem acesso posterior da população, além de desrespeitoso a memória de John, sua viúva Jackie Kennedy, é um desrespeito à população estadunidense, que sentiu sua morte e tinha direito de saber o que realmente havia acontecido. A medida que o Estado deixa informações de um caso tão relevante às escuras, fere um princípio básico da democracia, a qual o Estado jura defender. Enquanto o mesmo tiver poder suficiente para esconder questões fundamentais para a população, ele só perpetuará o seu poder, às custas da alienação da sociedade.

“Todos esses documentos são seus. A propriedade do povo, vocês pagam por isso! Mas porque o governo considera vocês crianças que podem considerar muito perturbador ou angustiante enfrentar essa realidade, ou porque vocês podem linchar os envolvidos, vocês não poderão ver esses documentos por mais setenta e cinco anos.” – Jim Garrison