Resenha: “The Logical Song” (Supertramp) e o sistema educacional inquisidor

Por João Pedro Lauand

 

O período entre os meses de novembro a meados de fevereiro são normalmente marcados no calendário acadêmico das universidades brasileiras pela realização de vestibulares e pela divulgação dos aprovados nos mesmos. Entre aqueles que são estudantes dos ensinos médio ou superior ou que são adultos graduados que prestam exames somente para averiguarem seus conhecimentos ou para avaliarem os exames em si, críticas relacionadas ao método de avaliação de tais vestibulares, e até mesmo ao próprio sistema educacional brasileiro não são incomuns.

Não são incomuns pelo fato de a estrutura do ensino público brasileiro se basear em um modelo essencialmente conteudista, ou seja, um que preza não pelo ensino personalizado baseado nas preferências de cada aluno e pelo ensino de conhecimentos práticos da vida em sociedade (aqui podemos citar empreendedorismo, retórica, política, dentre outros), mas sim pela obrigatoriedade de “ensino” de uma carga curricular extensa, desinteressante e que pouco reflete nas posteriores vidas acadêmica e profissional dos estudantes, e somente prepara para exames que não refletem a realidade, que exigem uma única resposta em questões de interpretação (não são raras as questões que pedem a alternativa “mais correta”) e que são passíveis de manipulação ideológica de burocratas, políticos e reitores de universidades.

Engana-se, todavia, que tal realidade seja recente e exclusiva ao Brasil. Nações desenvolvidas passaram por críticas semelhantes quanto à rigidez do modelo de ensino principalmente durante as décadas de 1970 e 1980. A maioria, em maior ou menor grau conseguiu solucionar parte dos problemas e hoje, mais do que há 40 anos, se tornaram centros de referência de ensino no mundo. Mas isto não significa que as críticas tenham sido menos brandas em 1979.

Afinal, com os anos 1970 chegando aos seus últimos suspiros, época em que boa parte da população mundial repousava suas esperanças em um futuro menos conflituoso e menos impactante para a economia global, depois de um retrospecto recente de ascensões e quedas de regimes autoritários, ditatoriais de esquerda e de direita na Europa, África e América Latina, revoluções islâmicas no Oriente Médio e crises internacionais decorrentes do aumento do preço do barril de petróleo, é natural que a paciência da maioria dos setores destas sociedades não estivesse em alta com seus governantes (não é mesmo Nixon?) acerca de quase qualquer matéria.

E era na arte popular e na cultura de massa aonde a sociedade encontrava um terreno fértil para questionar os modelos educacionais vigentes, com críticas ácidas quanto à hipocrisia da disciplina rígida e da padronização do pensamento sem a abertura de liberdade de expressão para os alunos. E o ano de 1979 trazia cada vez mais álbuns com forte teor contestador de tal realidade, geralmente relacionadas aos estilos do “folk” e do rock progressivo, este o qual estava próximo de alcançar seu auge na história do rock. Em virtude do segundo estilo musical, muitos associam a rejeição ao que se tinha como suprassumo da educação do “futuro da nação” ao lançamento mais importante daquele ano, “The Wall” da banda britânica Pink Floyd lançado em novembro, que continha a clássica “Another Brick in the Wall”.

Entretanto, outro álbum importante para a história da música, lançado em março do mesmo ano, trazia uma música que embora tratasse do mesmo assunto com outra ênfase, foi tão importante quanto à canção do Pink Floyd para a contestação do modelo de educação dos países de língua inglesa. Trata-se do álbum “Breakfast in America” da banda Supertramp, liderada por Roger Hodgson e Rick Davies, que trazia o maior sucesso comercial da banda, a famosa música lógica ou “The Logical Song”.

O nome desta canção se deve por ela se tratar de uma história que poderia ser associada com a de boa parte dos jovens britânicos, em que aos poucos perdem a inocência e liberdade da infância e conforme os anos de escola se passam acabam se tornando mais conformados com o sistema em que estudaram e menos estimulados a pensar e questionar por conta própria, abandonando ideais próprios em favor do que burocratas e professores queriam que aqueles pensassem, algo que ainda é mais forte, porém não exclusivo, de ditaduras autoproclamadas.

Ao começar a música com “When I was young it seemed that life was so wonderful, a miracle, oh it was beautiful, magical. And all the birds in the trees, well they’d be singing so happily, oh joyfully, oh playfully, watching me”, Hodgson se refere ao período antes de ser matriculado na escola, em que tudo, na visão de uma criança despreocupada, era belo, mágico, e alegre. Tal realidade muda logo em seguida, no trecho “But then they send me away, to teach me how to be sensible, logical, oh responsible, practical. And then they show me a world where I could be so dependable, oh clinical, oh intellectual, cynical”, em que após o período feliz inocente e livre da infância, a maioria dos estudantes entra em um ambiente mais preocupado com resultados do que com a qualidade de ensino, mais preocupado em padronizar os alunos de forma que todos ajam sob uma mesma lógica; a de serem práticos, “confiáveis, clínicos, intelectuais e cínicos”.

Por mais que a maioria destes adjetivos, ao analisa-los separadamente, demonstrem boas características, no sentido da música ao serem expressos no mesmo trecho reforçam um contraste (o qual se pode adaptar à realidade brasileira) entre o anterior ao ingresso escolar, em que havia a plena liberdade de expressão individual da criança e do jovem; e o posterior, no qual ao se matricularem na maioria das escolas mais bem classificadas nos índices nacionais, sejam elas privadas, públicas ou militares, perdem esta liberdade e precisam ser adequados de uma forma que pouco questionem o sistema em que estão inseridos e que ajam de forma fria e “cínica” em busca dos melhores resultados em vestibulares que por sua vez também não abrem margem para livre interpretação ou exercício de crítica aos mesmos, nem admitem outras conclusões que fogem da cartilha ideológica de reitores e burocratas.

O ápice deste contraste é perceptível a partir do momento em que, apesar das eventuais pressões institucionais, conforme os alguns alunos vão ganhando maturidade suficiente para se questionarem sobre sua própria identidade e para questionarem seus professores se o modelo de educação que recebem é o mais adequado e por que o mesmo não poderia ser diferente, conforme explícito no trecho: “Won’t you please, plase tell me what we’ve learned? I know it sounds absurd. But please tell me who I am.”.

O corpo docente então, se divide em quatro grupos: os que simplesmente não se importam; os professores mais associados com a esquerda autoritária, os quais possuem mais influência nas universidades e no MEC que estimulam seus alunos a se “rebelarem contra o sistema” apenas para reforçarem seus vícios contra a liberdade de pensamento; os mais associados à direita autoritária, que tentam por meio da rigidez extrema, em alguns colégios militares, a criar um sentimento saudosista ao regime militar em seus alunos; e por fim os que estão cientes do problema, mas que por causa das dificuldades ideológicas e burocráticas pouco pode fazer para melhorar a situação.

Desta forma, principalmente se você possui uma opinião contrária ao status quo educacional, seja na Inglaterra de 1979 seja no Brasil de 2018, muitas vezes a recomendação tomada infelizmente é “Now watch what you say or they’ll be calling you a radical, a liberal, oh fanatical, criminal”, ou seja, para que o estudante não discuta, senão será chamado de liberal no caso inglês, ou “fascista” ou neoliberal no caso brasileiro, e será demonizado seja diretamente nas universidades, o qual será taxado por professores autoritários de um radical extremista contra os pobres, e todos aqueles clichês de sempre; ou indiretamente pelo viés ideológico velado de boa parte dos vestibulares.

Por fim, a música traz de forma irônica o objetivo final de todo governo agigantado: o de ter cidadãos incapazes de questionarem as ações do mesmo seja pelo sistema de educação que padroniza os alunos ao invés de exaltar e fazer valer a individualidade dos mesmos, seja pela censura de quem percebe essa padronização e possui ideologia contrária aos burocratas do sistema. Como traz o trecho mais importante da música: “Oh, won´t you sign up your name? We´d like to feel you´re acceptable, respectable, oh presentable, a vegetable”, o que o governo mais quer é que você não o questione, mas sim seja um aceitável, respeitável e apresentável vegetal diante das ações do mesmo.

Assim sendo, como todo bom clássico do rock, a obra prima de Roger Hodgson traz consigo uma mensagem crítica atemporal seja qual for o país que passe por uma crise em seu sistema educacional. E tal mensagem, nada mais nada menos, é de jamais nos calarmos diante da padronização do pensamento, e defendermos sempre o nosso direito mais sagrado, assegurando assim a liberdade de expressão de todo estudante, por mais que a esquerda autoritária o chame injustamente de fascista, por mais que o desejo velado do MEC seja que todos sejamos vegetais adestrados, pois não existe atentado maior a individualidade de um estudante que a supressão de suas ideias.