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Resenha: Monumento às vítimas do comunismo – Praga e suas obras anticomunistas

Por Alexandre Neves Solórzano

 

O Comunismo, como todos aqueles que acompanham as atividades do Clube Ajuricaba já sabem, devastou partes do continente europeu de uma forma que respinga até os dias atuais. Pode ser visto nos países que ficam ao leste da Europa, por exemplo, uma maior incidência de pobreza e atraso no que tange a economia e o próprio IDH do país. Na Tchecoslováquia não fora diferente. Quando o Partido Comunista venceu as eleições parlamentares no país em 1946, muitos já suspeitavam do provável dano que tal acontecido poderia vir a causar. E em 1948, não para uma surpresa tão grande, houve um golpe e os comunistas tomaram o poder total na Tchecoslováquia.

Os quase cinquenta anos de domínio comunista na região europeia contaram com expulsões de liberais e invasões de países da URSS que contemplavam o Pacto de Varsóvia: o governante Alexander Dubcek, que buscava dar uma abertura econômica no país, foi imediatamente deposto no final dos anos de 1960 e todos os seus apoiadores exilados após a entrada de Gustáv Husák, que se tornou líder do Partido Comunista e fez questão de tal ação. Ou seja, desde os primórdios do período da pós-II Guerra Mundial a cidade de Praga, assim como o que hoje é a Eslováquia e a República Checa, não teve um século XX recheado dos benefícios sociais apresentados pela liberdade.

Por consequência lógica, o salto temporal do fim do período comunista do país até os dias atuais ressaltam uma Praga exacerbadamente anticomunista, contando com a existência de obras de artes que não dispensam a visita dos turistas. Além do gigante dedo do meio roxo direcionado ao Castelo de Praga, no meio do Rio Moldava, e das gigantes nádegas em que você pode pôr a cabeça e assistir políticos do século XX comendo ao som de “We Are The Champions”, da banda inglesa Queen, há também uma das esculturas mais marcantes de toda a Europa: o monumento que retrata as vítimas do comunismo foi inaugurado no dia 22 de março de 2002, pelo artista Olbram Zolbek, e choca até os dias atuais.

As estátuas representam indivíduos caminhando com uma aparência ofegante, estão macérrimos e demonstram uma constante decomposição. A crítica central recai sobre como a ideologia comunista tende a deteriorar o caráter humano e, também, destruir fisicamente toda uma população. Basta compararmos tudo isso ao que conhecemos atualmente na Venezuela, na Coréia do Norte ou em outras nações praticantes de vertentes socialistas. A obra choca não somente pela aparência das esculturas, mas principalmente pela carga histórica depositada na criação. Olbram, autor da obra, dedicou sua produção à todas as vítimas do comunismo e à todos aqueles que amam a liberdade. O artista, que nasceu em 1926, pode presenciar bem o que fora a destruição comunista em seu país, o que impediria qualquer inclinação sua ao lado mais à esquerda do espectro político, diferentemente de grande parte dos artistas que nunca presenciaram um regime socialista ou foram censurados pelo mesmo. Vale ressaltar que a decomposição retratada é representada por estátuas realmente pela metade, onde vemos um indivíduo sem metade de cima do corpo, com um buraco aberto no peito ou com pequenos furos ao longo do corpo.

É pela noite que o cenário torna-se mais amedrontador e nostálgico, que quando recheado pela neve remonta, talvez, cenas comuns de pobres trabalhadores corroendo-se com o frio da região, acompanhados pela precária situação econômica do país e a repressão do governo comunista. O monumento encontra-se numa escada em meio a uma ambiente florestal, e nele consta uma placa explicativa: 205,486 prisões, 170,938 exilados, 4,500 mortos nas prisões, 327 abatidos enquanto tentavam fugir, 248 executados. Além dos dados apresentados, na placa há a seguinte frase: “Este memorial é dedicado a todas as vítimas: não apenas aos que foram emprisionados e perderam a vida, mas também aos que viram a sua existência arruinada pelo despotismo totalitarista”.

Hoje Praga goza de obras de arte demasiadamente interessantes àqueles que são contrários à ideologia comunista, e vale a pena estudar sobre tais obras para poder compartilhar um pouco mais dos sentimentos de outros adoradores da liberdade de expressão e econômica. Hoje, a República Checa pode se mostrar como uma das nações mais desenvolvidas do período pós-comunista. Com um IDH invejável até para aqueles que não tiveram uma ditadura sanguinária em sua história, o país cresce cada vez mais com o turismo, tendo a cidade de Praga, país em que residem grandes obras de arte do período gótico e barroco, assim como as citadas por aqui, o foco central da procura turística.

Feliz aniversário, Ludwig von Mises

Por Roberto Alves Neto

Uma singela homenagem a Ludwig Heinrich Edler von Mises que no dia 29/09/2017  comemorou seu 136° aniversário.

Mises foi um dos fundadores da Escola Austríaca de Economia, em suas obras, aulas e palestras sempre foi um defensor fervoroso do capitalismo de livre mercado, para ele políticas intervencionistas, controles de preços e inflação (expansão da base monetária) era o caminho perfeito para a miséria e escassez.

Ação Humana:

Ação Humana foi com certeza a sua principal obra, onde através da praxeologia (ciência da ação) Mises busca provar que os seres humanos agem em busca de atingir um grau de satisfação maior do que ele se encontrava antes de iniciar sua ação, assim cada pessoa existe uma ‘escala’ de necessidades o que faz elas atribuírem diferentes valores as mesas coisas dependendo de sua necessidade, um sanduíche vale mais para você quando você está com fome do que quando está satisfeito.

Liberdade Econômica:

Para Mises a liberdade econômica está diretamente ligada a qualquer outra liberdade: “Nada há na natureza que possa ser chamado de liberdade; há apenas a regularidade das leis naturais, a que o homem é obrigado a obedecer para alcançar qualquer coisa”[1]. Esse trecho merece destaque pois há pessoas que afirmam que o capitalista dá mais valor à liberdade econômica do que as outras liberdades, porem esquecem que o dinheiro não é o objetivo final e sim o meio para obter os bens necessários.

Mentalidade Anticapitalista:

Outra obra importante que merece destaque nessa homenagem é A Mentalidade Anticapitalista, nessa obra ele apresenta os principais pontos que levam a pessoas a achar o capitalismo injusto. Uma crítica que ele ataca e que é usada até hoje é afirmar que o empresário reina sobre as pessoas, as escraviza e as força a viver apenas com o necessário, contudo Mises responde: “O sistema de lucro torna prósperos aqueles que foram bem-sucedidos em atender as necessidades das pessoas, da maneira melhor e mais barata possível”[2], “Os empresários e capitalistas devem sua fortuna às pessoas que, enquanto fregueses, sustentam os seus negócios. Eles a perdem, inevitavelmente, assim que outras pessoas os superam num atendimento aos consumidores de forma melhor e mais barata”[3].

 

Considerações finais:

Durante muito tempo as obras de Mises foram esquecidas, nossa sociedade ocidental já acostumada com aquilo que o capitalismo nos proporcionou achava tudo isso normal e esqueceu como defendê-lo, enquanto aqueles que o odiavam simplesmente aproveitaram para ignorar sua linha de pensamento. Assim tornou-se fácil ‘converter’ as pessoas, mostrá-las como o capitalismo é injusto e predatório e como ele está fadado a crises.

Contudo suas obras ainda vivem e em meio a dificuldades e incertezas as pessoas passaram a buscar entender o outro lado assim se deparando com obras e autores tão importantes quanto foi Ludwig von Mises.

 

“Ideias e somente ideias podem iluminar a escuridão. ” – Ludwig von Mises

Referências:

[1]As seis lições, pagina, página 24.

[2]A Mentalidade Anticapitalista, página 13.

[3]A Mentalidade Anticapitalista, página 16.

Resenha: Metal Contra As Nuvens – um registro libertário

Por Alexandre Neves Solórzano

Quem diria que a maior banda de Rock da história do Brasil, Legião Urbana, seria um grupo musical liderado por um autoproclamado capitalista? O paí­s que possui em sua carga cultural o marxismo como aperitivo apresenta, dentro de seus registros, uma década de 1980 marcada por bandas de vieses abertamente esquerdistas, e a trupe de Renato Russo passara com um nado contra a corrente rumo ao reconhecimento nacional. As mensagens transmitidas por Russo, Dado e Bonfá tinham em seus respectivos códigos a marca de um espí­rito independente, livre e, principalmente, sincero. A liberdade era uma temática constante na banda.

Para evitar alongamentos a respeito da totalidade da Legião Urbana, alguma resenha futura apontará mais caracterí­sticas do célebre grupo. Nesta resenha em questão, trataremos de uma canção densa e que divide opiniões dentre os ouvintes da banda: Metal Contra As Nuvens, do Álbum V (1991).

Para analisar mais claramente o resumo do que tenta ser dito na obra em questão, é preciso retomarmos à mente a perspectiva individualista já citada em outras resenhas: um indivíduo em busca de alguma verdade, preso não somente pelos limites da sociedade mas também em sua própria existência. Além disso, é preciso lembrar da recorrente busca por liberdade nas letras existencialistas de Renato Russo. O que seria tal liberdade num âmbito crítico do ponto de vista libertário ou de um ponto de vista contrário ao Estado forte convencional da história brasileira? Quiçá uma simples confirmação de nossas tão almejadas ilimitações de pensamento e produção? Renato cantava o apelo por autonomia, acima de tudo, nos primeiros versos da canção:
“Não sou escravo de ninguém
Ninguém é senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E por valor eu tenho e temo o que agora se desfaz”
A provável arbitrariedade de qualquer análise ideológica pode desvirtuar a real intenção de Russo ao escrever a letra da canção. Entretanto, suas alegações a respeito de algumas questões como valores tradicionais, família e propriedade não deixam dúvida de qual lado o letrista se identificava mais. Autodenominando-se “capitalista” em entrevistas antológicas, Renato confirmava a Legião Urbana no patamar de defensores da liberdade econômica. Enquanto Plebe Rude pedia por uma distribuição de renda igualitária, a Legião Urbana recitava em suas canções o preço de um Estado gordo sobre a cabeça do povo.
Metal Contra As Nuvens não é tão difícil de ser compreendida quando se analisa e compara os versos da canção com a realidade brasileira da época em que fora escrita e a realidade atual. Alta taxa de impostos, uma corrupção institucionalizada e o Estado, como conhecemos, apropriador de quase tudo e propagador de chagas nacionais persistentes como a miséria e a falta de oportunidades para os mais pobres. O trecho que segue demonstra a revolta de se crer em promessas populistas que, no fim, acabam por não vingar, exibindo a falsa lábia da classe política:
“Eu quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa”
Para gerar mais um pouco de identificação com a obra, o seguinte trecho deixa claro a revolta que condiz com problemas inflacionários e relacionados à alta cobrança de impostos por parte do governo. Renato Russo, mentor principal do grupo, em entrevistas diversas relatou as dificuldades de se trabalhar e de se ascender num país em que os impostos atrapalham diretamente a renda individual de um trabalhador comum – este que o Estado diz tanto proteger:
“E por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Mas vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo
Olha o sopro do dragão”
Após o término da canção é possível traçar uma linha histórica em busca de cada angústia representada pela banda nesse trabalho. O ar medieval nos leva a um cenário em que há um rei absolutista, que tudo pode. Isso torna possível uma comparação entre o nosso Estado atual e aqueles tempos da Idade Média, evidenciando a persistência da angústia por parte das civilizações. O sopro do dragão é praticado até os dias atuais.
Para finalizar a canção fora utilizada a esperança como musa central. Os versos exaltando um novo começo e almejando um ar otimista chegam a emocionar, fazendo-nos pensar em como seria um mundo minimamente justo. Toma o clima de um convite à luta ou à resistência, que para os críticos do sistema compõe o caminhar para uma sociedade livre:
“E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer.
Não olhe para trás,
Apenas começamos,
O mundo começa agora.
Apenas começamos.”

Resenha: The Wall – uma perspectiva liberal

Por Alexandre Solórzano, do projeto Versos de Cascavel.

A sede por liberdade costuma vir atrelada a uma série de crises existenciais comuns ao ser humano e, levando isso ao campo artístico-musical, não pode ser esquecido o icônico álbum de Rock Progressivo The Wal, da lendária banda inglesa Pink Floyd. O álbum teve a pesada responsabilidade de reproduzir o grito de uma geração aprisionada dentro um status quo do campo educacional, executando tal tarefa com exímia perfeição.

Fechando o ciclo musical do grupo britânico na década de 1970, o álbum lançado em 1979 satisfez àqueles que sentiram, dentro das homogeneidades propostas pelos seus respectivos sistemas educacionais, o desconforto resultante das limitações que lhes eram impostas de forma cotidiana. No caso da educação brasileira nas décadas de 1960 e 1970, há a influência militar nos meios educativos, o que não aproximou o que poderíamos chamar de liberdade de pensamento, tal como não havia nos demais países latino-americanos, como a Argentina sob regime militar, o Chile com o governo ditatorial de Pinochet e Cuba, com Fidel e cia.

A obra pode ser utilizada pelas mais diversas ideologias ou posicionamentos políticos, o que demonstra como certas iniciativas artísticas desvirtuam-se de seu foco ideológico “original”. É necessário ressaltar tal ponto, pois Roger Waters, responsável principal pela temática do álbum, possui tendências não muito liberais e, para evitar rótulos, pode-se dizer que sua apatia pelo Estado de Israel e suas constantes críticas ao sistema capitalista já demonstram alguma coisa sobre sua inclinação política. Deixando de lado a real intenção do grupo e focando na análise a partir de um ponto de vista liberal, vejamos o que nossos ideais podem concordar com um dos álbuns mais famosos do século XX.

 

1 – Liberdade, sistema educacional e Another Brick in the Wall

 

Tentar soltar-se de um sistema vigente ou simplesmente sentir-se alienado por um conjunto de normas sociais são coisas comuns na vida de qualquer liberal, libertário ou conservador. Falando pelo nosso lado (a dita “direita” política), temos traumas cotidianos com a forte interferência do Estado na economia, uma marcante privação de liberdades individuais e, por fim, distorções histórico-culturais demasiadamente fomentados pelo currículo escolar. Pode-se observar que o campo educacional, um dos principais temas abordados pela obra, é algo que faz despertar muita coisa naquele “liberaleco” do 1º ano do ensino médio – os três anos que um liberal passa nessa específica etapa escolar serve para revolta-lo tanto quanto as feministas servem para revoltar ao ilustre youtuber anarcocapitalista Paulo Kogos. Na faculdade, então…

Todas essas situações deixam de ser mero detalhe pois já se encontram normalizadas, o que torna a vontade por mais liberdade um sacrifício diário. Another Brick in the Wall, faixa dividida em três partes, resumiu e ainda resume os problemas intrínsecos do ensino convencional: a acomodação intelectual e a homogeneidade de ideias imposta dentro da sala de aula. Hoje, a velha imposição do professor para com o aluno foi trocada pela persistência de uma rotina que, além de ser desgastante, é limitante e voltada unicamente para o vestibular. Nascer, crescer e passar num concurso público, eles dizem.

 

2 – O caos individual de Hey You

 

Ei, você, aí fora na estrada, sempre fazendo o que te mandam, você pode me ajudar? – Eis uma das frases da canção Hey You, faixa que abra segunda parte do álbum. É perceptível o desespero presente na canção e como isso pode ser aplicado às realidades totalitárias mundo afora. No Brasil, desesperamo-nos por não conseguirmos abrir uma empresa pelo excesso de burocracia ou por não conseguirmos manter uma vida sadia devido ao alto estresse causado pela pressa da rotina, o preço exorbitante dos produtos e a corrupção ativa do governo. Isso cabe como um grau caótico gigantesco se atribuirmos a isso uma concretização logística – o problema não é o governo atual, nem o anterior e, tampouco, o próximo. O problema está no corpo do Estado, na maneira que ele está posto. Para quem possui tal percepção, isso gera dores de cabeça diárias, ainda mais tendo isso somado aos problemas pessoais oriundos das relações que fazemos no dia a dia, com nossos familiares, amigos e namoradas. Zygmunt Bauman, cientista social polonês, não errou ao apontar um dos grandes males do mundo pós-moderno: a solubilidade das relações humanas perante os caóticos cenários ocasionados pelos problemas sócio-econômicos de nossa atualidade. É um fato que Bauman não vai pela linha liberal, mas negar que o ex-membro do Partido Operário Unificado Polaco estava correto ao demonstrar que o ser humano criou certa necessidade de obter suas liberdades individuais pode desvirtuar toda a obra por causa de um mero detalhe ideológico. Bauman, assim como Pink Floyd, utilizou de seu pensamento socialista para alegar coisas que, num ponto de vista liberal, podem ser facilmente adequadas e concordadas, mas com um ponto de partida e uma resultante amplamente diferente. Ambos veem o sistema capitalista como um meio opressivo para com as liberdades humanas, o que, para nós, seria um Estado interventor e de viés, mesmo que velado, anticapitalista.

Com a pegada ativista contra as guerras e contra o autoritarismo, The Wall trabalha questão do indivíduo numa sociedade monstruosa capaz de sugar todo e qualquer tipo de pluralidade de ideias possíveis. Isso resumiria porcamente o foco do álbum e como ele foi entendido por mim, mas, ainda assim, resumiria. A faixa em questão é notória por forte apelo emocional demonstrado pela combinação letra – melodia. Os gritos de Waters, os solos de Gilmour, o teclado constante de Wright e a bateria inconfundível de Mason tornam a canção um símbolo para as questões existenciais de qualquer jovem-adulto cansado e molestado pelo que ele mais detesta: limitação normalizada, espoliação legal (buscar A Lei, de Bastiat) e os problemas sociais de sua era.

 

3 – Por que, enfim, escutar The Wall e entender o que está sendo dito

 

A obra sempre terá a sua importância, graças às poucas mudanças efetuadas no que criticava o álbum e graças à eterna angústia humana de buscar a liberdade e, quase sempre, não alcança-la efetivamente. Dispenso aqui as definições subjetivas de o que seria a tal liberdade, mas demonstro-a exemplificando o que nos deixa mais distante de uma liberdade, pelo menos, possível: nossas leis que favorecem aos que gozam do poder; nossa carga tributária abusiva que, por mais que tentem negar, prejudica a população carente e favorece o aumento da desigualdade social; a privação de liberdades individuais, dentre outros pontos que valem ser abordados no seu cotidiano, com aquele seu amigo que acha interessante taxar os ricos ou com o seu professor de sociologia que persiste em te dizer que deturparam Marx.

The Wall possui riqueza temática e artística. Dificilmente alguém irá produzir o que conseguiu o grupo do Pink Floyd, com uma tremenda postura libertária perante os problemas autoritários dos nossos tempos e uma inteligência musical reunida em quatro integrantes que demonstraram, em seus mais de vinte anos de trabalho, o potencial de uma banda que, mesmo com vieses ideológicos diferentes, apreciavam o mínimo necessário para se ter uma sociedade livre.

Ensaio: O Político de Platão

Platão: defensor ou crítico dos totalitarismos? – Uma leitura de O Político de Platão (1)

Por: Eduardo Silva Gomes

O texto O Político, que é um diálogo entre o Estrangeiro de Eléia e Sócrates, o Jovem, tenta estabelecer quem seria esse político a que se refere o título por meio de recursos dialéticos, míticos e do paradigma. Conforme salienta o Prof. Richard Romeiro de Oliveira em seu ensaio científico Tempo dos homens, tempo dos deuses: Mito e história no Político de Platão:

Autor de extraordinário talento literário e dotado de uma prodigiosa capacidade criativa, Platão, não se limita a explorar os problemas filosóficos a partir do método estritamente dialético e conceitual herdado de seu mestre Sócrates, mas, em conluio com os procedimentos próprios da argumentação racional, quase sempre nos brinda com mitos de rara beleza poética e simbólica.“

Esse, sem dúvida alguma, é um dos elementos mais característicos e fascinantes da filosofia de Platão. Trata-se de um diálogo desafiador para quem lê, já que há vários elementos metafóricos presentes. É a continuação do diálogo O Sofista, mas é possível compreender O Político sem ler O Sofista. 

Ambos os personagens desse diálogo, estabelecem logo no início do diálogo a forma como este será¡ conduzido: consistirá¡ em uma série de subdivisões sucessivas dos conceitos a serem estudados, ou seja, esses conceitos, que serão os objetos de estudo do diálogo, serão divididos em partes, e a parte que for estudada será dividida em quantas partes forem necessárias até encontrarem um conceito uno que satisfaça todas as questões propostas. Se utilizando de duas proposições, sendo que uma não resultaria em uma verdade, três grandes digressões e oito digressões ou incidentes menos longos, onde vemos o pensamento fluir livremente e ativamente. Desse modo, Platão nos demonstra a forma de pensar não só da Grécia Antiga, mas de toda a Antiguidade. A estrutura do Político fica assim:

  1. 257a Preâmbulo

  2. 258b Primeira definição: O pastor divino

  3. 262a Incidente 1: Distinção espécie-parte

  4. 263c Incidente 2: Divisão Subjetiva

  5. 268d Digressão 1: O mito do reino de Cronos

  6. 277d Incidente 3: O paradigma e os elementos

  7. 279b Segunda definição: O tecelão real

  8. 281d Incidente 4: Causa própria/causa comitante

  9. 283c Incidente 5: Medida própria/medida relativa

  10. 285d Incidente 6: O exercício dialético como objeto do diálogo

  11. 291d Digressão 2: A forma dos regimes

  12. 292a Digressão 3: A ciência, Única base do político

  13. 300d Digressão 2: As formas dos regimes

  14. 304b Incidente 7: As artes servidoras de outras artes

  15. 306a Incidente 8: A diversidade das virtudes

Primeiramente, após uma pequena introdução, Platão faz uma tentativa de inserir o político em uma série de definições, até chegar à ideia do político como um pastor, que aparentemente ele leva muito a sério. Essas divisões conceituais começam com a repartição das ciências em diretivas e autodiretivas, onde se enquadrariam as atividades de criação de animais realizada pelo pastor. Daí, ele parte para outras divisões, como animais domesticados e os que vivem em rebanhos, os que andam e os que não voam, com chifres e sem chifres até chegar aos homens, neste ponto o filósofo insere a assertiva de que a ocupação da política como ciência é a análise dos agrupamentos humanos (ou seriam rebanhos de seres humanos?). Aonde chega a conclusão de que a ciência política se ocupa de nutrir e alimentar os homens, a fim de contribuir para a educação comum desses homens. Mas aí surgem problemas apontados pelo próprio por meio de três críticas que faz a esta definição. Platão explica que primeiramente, há outros além do político que se preocupam em nutrir os seres humanos como os médicos, por exemplo; segundo, que o se o político fosse mesmo um pastor, ele teria de decidir sobre absolutamente tudo o que é relacionado ao seu rebanho, e esse papel não é o papel do político. E por último, ele afirma que sempre haverá diferenças de natureza entre o pastor e seu rebanho, ou seja, esse pastor deve ter um conhecimento superior ao restante de seu rebanho. Não é difícil de entender essa ideia e de como se chegou a tal conclusão, pois num rebanho de ovelhas não é a ovelha que conduz as outras ovelhas, mas sim o ser humano. Dessa forma, para dirigir o rebanho de homens, o pastor deveria ser de natureza diversa da espécie humana.

Nesse ponto, pode-se perguntar por que Platão teria feito toda essa divagação sobre animais que voam e que não voam ou animais que tem chifres ou não? Primeiramente poderíamos pensar que seria para introduzir o mito de Cronos (fundamental nesta análise) com o intuito de tornar inválida a primeira definição, mas isto poderia ter sido feito de maneira lógica, afirmando que se o pastor humano existisse ele seria sobre-humano (seria o Übermensch de Nietzsche?). Mas ele acaba fazendo um grande desvio narrativo para introduzir o mito de Cronos, a fim de introduzi-lo retoricamente, e isto leva-nos a concluir inversamente que não é o mito que é introduzido para eliminar a primeira definição, mas que a primeira definição é proposta falsamente, retoricamente para se introduzir o mito de Cronos. E isto somente para demonstrar as conhecidas popularmente como “as voltas que o mundo dá”, ou seja, a extraordinária ficção existente nas mudanças contínuas que ocorrem e que fazem o nosso mundo “girar”, e que o “invertem”, colocando-o ora de um lado, ora de outro. Vale lembrar que a filosofia é o mundo ao contrário, pois a verdade da filosofia é aquilo que os homens não veem, o que veem não é senão ilusão; a filosofia dá o mundo verdadeiro o que, para o homem comum é o mundo invertido. Em outras palavras, o que é verdade é aparência e o que é aparência é verdade.

Pois bem, o mito apresentado pelo Estrangeiro fala de Cronos e de seu reinado, uma época de ouro onde não havia fome, doenças, miséria, os animais eram dóceis e amigos dos homens, não havia posses de mulheres ou crianças, não havia partos, e tudo isso proporcionado por Deus e seus assistentes, os demiurgos, ou seja, o mito do comunismo primitivo. E após certo período, Deus e os demiurgos abandonam os homens, e surge a época de Zeus, onde os homens são abandonados à própria sorte, e esse universo entregue à humanidade mergulha no caos e no esquecimento. Define o mito de Cronos, assim Eric Voegelin:

A alternância de movimento afeta não só o domínio da natureza, mas também o domínio do homem na sociedade. No primeiro ciclo, o próprio deus supervisiona o Cosmos, enquanto as várias partes do Cosmos eram colocadas sob a supervisão de divindades exteriores.”2

Nesse período, diz ainda Voegelin, “o próprio Deus era o pastor dos homens; nessa época não havia governo (politeia).”3 Os homens tudo possuíam nessa era de Cronos. Porém a princípio, o Estrangeiro observa que os homens não sentiram tanto assim a ausência do deus no mundo:

O universo, embora se movendo por sua própria conta e sem o auxílio da divindade, conseguiu se manter dentro de certa harmonia e regularidade, rememorando, quando possível, as lições recebidas de seu pai, o demiurgo divino. Mas tal situação não se manteve por muito tempo e, em virtude do caráter corpóreo de sua composição primitiva, avançou ele para um estado de desorganização e entropia gradativamente maiores, esquecendo as lições do demiurgo”.

 Como escreve Voegelin, Platão rejeita como mito as fábulas dos deuses como Prometeu que teriam ajudado os homens em invenções que fariam avançar a civilização. Enquanto o timoneiro governava, ele produziu poucos males e grandes bens, diz o Estrangeiro. Nesse momento o mito é encerrado pelo fato do Estrangeiro dizer que é suficiente a apresentação do governante régio. O mito da Idade do Ouro é rejeitado porque implica uma renúncia à consciência filosófica, diz Voegelin. Em síntese, o Mito de Cronos visa demonstrar que vivemos em uma época onde o mundo é deixado à própria sorte, onde existem cidades e a problemática da política e do político estão presentes. Dessa forma, o Estrangeiro mostra que a principal lição desse mito é a de que a concepção do político como um “pastor de homens” incorre no grave erro de confundir os governantes da época de Zeus com os da época de Cronos, pois definindo os reis atuais como pastores comete uma grave falha ao fazer uma associação incorreta do político como um deus, conforme relatado nesse diálogo. Dessa forma, fica subentendido que a definição do político como pastor visa apresentar a história do reino de Cronos, com o objetivo de fazer perdurar o mito. E porque razão Platão faria isso? Segundo alguns estudiosos, isso seria para destruir a concepção existente a época (século V A.C.), de que sobrevivemos à era de Zeus por uma criação humana (a ideia da auto constituição da espécie humana), introduzindo a ideia de que sobrevivemos a tal período de nossa história imerso em corrupção por dotação divina. E é nessa repetição de ciclos em que consiste a ideia platônica da imortalidade da alma e de outra vida.

A partir de 291d até 300c, Platão nos apresenta as diversas formas de governo mostradas por vários estudiosos, caso de Heródoto, depois Xenofonte e o próprio Platão em A República. Mas o que nos interessa de verdade aqui é a ideia de que é a ciência, e não a lei que deve prevalecer na cidade. E essa ciência seria possuída pelo político e que jamais seria representada adequadamente pelas leis. Fica evidente o conceito de que a boa política é uma ciência, gerada pelo conhecimento (epistéme). Aqui se mostra uma tendência platônica, que é esse certo deslize da norma para o ser: a boa política é a política e a má política não é política. Então o Estrangeiro interroga Jovem Sócrates, dizendo: “Sobre isso, a multidão é capaz de adquirir a ciência política?”, onde apressadamente ele conclui que isso seria impossível. O Estrangeiro leva o diálogo à ideia de que somente ao cidadão detentor da ciência política seria dado o orthè arché, o bom comando. E prossegue:

… parece que entre todas as constituições, esta será absoluta e unicamente a exata, na qual os chefes seriam possuidores da ciência verdadeira e não de um simulacro de ciência: e esses chefes, quer se apoiem ou não em leis, quer sejam desejados ou apenas suportados, pobres ou ricos, nada disso assume a menor importância na apreciação dessa norma exata”.

E mais a frente:

É indiferente também que eles sejam obrigados a matar ou exilar alguém a fim de purificar e sanear a cidade; que exportem emigrantes como enxames de abelhas, para tornar melhor a população, ou importem pessoas do estrangeiro, concedendo-lhes cidadania, a fim de torná-la maior. Enquanto se valem da ciência e da justiça, a fim de conservá-la, tornando-a melhor possível, e por semelhantes termos definida, uma constituição deve ser, para nós, a única constituição correta”.

E a respeito das dúvidas e questionamentos do Jovem Sócrates, sobre governar sem o auxílio das leis, o que para os gregos, seria algo inaceitável, Platão começa, usando de uma retórica na qual ele é especialista, a criticar as leis:

É que a lei jamais seria capaz de estabelecer, ao mesmo tempo, o melhor e o mais justo para todos, de modo a ordenar as prescrições mais convenientes. A diversidade que há entre os homens e as ações e, por assim dizer, a permanente instabilidade das coisas humanas, não admitem em nenhuma arte, e em assunto algum, um absoluto que valha para todos os casos e para todos os tempos”.

E mais adiante:

… é precisamente esse absoluto que a lei procura, semelhante a um homem obstinado e ignorante que não permite que ninguém faça alguma coisa contra a sua ordem, e não admite pergunta alguma, mesmo em presença de uma situação nova que as suas próprias prescrições não haviam previsto, e para a qual esse ou aquele caso seria melhor”.

Nesse momento, pode-se concluir que Platão apoiava os regimes totalitários, já que é inevitável aqui neste ponto traçar paralelos e comparações com países que foram ou ainda estão sob a égide de totalitarismos. Podemos dar como exemplos Hitler, Mussolini, Napoleão Bonaparte, Mao-Tsé-Tung, Fidel Castro, Getúlio Vargas, e tantos outros que utilizaram o que tinham de melhor, o poder da retórica, a fim de angariar multidões para apoiá-los em seus objetivos de poder. Parafraseando Castoriadis, Platão sempre afirmou que a verdade está do lado do sujeito vivente e falante e não do lado do que o sujeito produziu. A verdade está no discurso e não nas leis. Não é muito difícil de imaginar isso: de repente aparece alguém que se diz ser a solução de todos os problemas da população e que infla o ego desta para recuperar sua autoestima usando de conceitos pré-concebidos, aliviando então o processo corrente na direção contrária, ou seja, de baixa estima, que se desenrolava. Pode ser que inicialmente a maioria da população não irá aderir ao regime, mas uma parcela suficiente para impô-lo pela força ao restante. Algo semelhante à análise Aristotélica do aparecimento dos tiranos: o povo vivia uma crise, uma decomposição da oligarquia dominante e aquele que conseguia seduzir o povo se impunha. Como numa espécie de nostalgia em relação à era de Cronos (seria algo semelhante ao saudosismo à época do regime militar no Brasil?), quando havia um deus para cuidar de tudo, a população passaria por um momento onde surgiria um líder que os aliviasse de suas responsabilidades como cidadãos (Lula?). Surgiria aí uma manipulação de massas porque há “manipulabilidade”.

Voltemos a Hitler, que manipulou o ego coletivo dos alemães, “esclerosando-o”, ou seja, tornando-o megalômano a fim de implantar sua ideia de uma raça ariana pura. Os alemães viviam num antissemitismo crescente onde o Führer teve solo fértil para a sua retórica. E foi com o consentimento do povo alemão que ele exterminou judeus, homossexuais e deficientes com a desculpa de em nome da ciência, estudar e analisar o homem e purificar a raça. Repetindo o que foi citado acima neste texto, conforme o Estrangeiro disse em 293d para fins de ilustração: “É indiferente também que eles sejam obrigados a matar ou exilar alguém a fim de purificar e sanear a cidade… a fim de conservá-la, tornando-a melhor possível”.

Agora faremos alusão a Cuba, onde há mais de meio século, os irmãos Castro comandam o país, que chegaram ao poder sob o pretexto de depor um governo tirano, eles criaram o seu próprio (aqui creio que se pode fazer uma analogia clara aos grupos paramilitares ou “terroristas” que fizeram oposição ao regime militar brasileiro, um de nossos maiores exemplos de tirania, junto com a Era Vargas), alegando estarem governando de maneira justa, contra o pior e mais injusto dos sistemas de governo: a democracia, que Platão definia como o menos ruim dentre os regimes imersos na corrupção e que “jamais pode fazer algo de grandioso” escreve ele claramente em O Político. Fidel ou Raúl seriam as expressões do homem político, o que para Platão significa homem régio como tantas vezes o filósofo colocou em sua obra. E Cuba sob o regime castrista seria a saudade manifestada inconscientemente de um tempo onde existia um pai que se encarregasse de tudo e que tudo provesse (Estado provedor ou paternalista), pois se livrou de um governo centralizador para dar lugar a outro. É assim que os Cubanos se referem a Fidel e a Raúl: “nosso comandante”.

Outro exemplo igualmente ilustrativo é o da China de Mao-Tsé-Tung, que embora alegasse promover um governo “do povo e para o povo”, (assim como nos termos das legendárias e sábias palavras de Lincoln) rompeu com toda e qualquer influência ocidental, condenou à morte milhares de cidadãos, impôs regras e limites à população. Condenou seu povo ao que atualmente os filósofos e sociólogos denominam de “parque humano”, como se refere o filósofo Peter Sloterdijk em sua obra “Regras para o Parque Humano”:

Sob a forma lógica de um grotesco exercício de definição, o diálogo de O Político desenvolve os preâmbulos de uma antropotécnica política; trata-se ali não apenas da condução domesticadora de rebanhos já por si dóceis, mas de uma neocriação sistemática de exemplares humanos mais próximos dos protótipos ideais.4

Isto meus caros, enquadra-se perfeitamente no paradigma do tecelão, onde Platão tenta explicar que a antropotécnica régia exige do político que ele “saiba como entrelaçar da maneira mais efetiva as características mais favoráveis à comunidade de pessoas voluntariamente dóceis, de forma que sob sua direção o parque humano alcance a melhor homeostase possível. Isso ocorre quando os dois optima relativos do caráter humano, a coragem bélica de um lado, a reflexão humano-filosófica de outro, são entremeados com a mesma força no tecido da comunidade”5, como continua Sloterdijk.

Pode-se então assumir a partir disto, caro leitor, que Platão apoiava os governos totalitários. Lembremo-nos da apologia que faz ao homem político como homem régio, detentor de um conhecimento superior aos demais que lhe confere poder, talvez proveniente de suas reminiscências (reminiscências essas que para Platão, eram lembranças ou recordações de uma verdade observada pela alma no momento da desencarnação e, quando retomada pela consciência, pode ser a eminência da base de toda sabedoria ou do conhecimento humano) do tempo de Cronos, quando os deuses se retiraram e a alguns sábios restou a lembrança das visões divinas do que é melhor. Ou ainda da crítica ferrenha que faz às leis em 294c:

… é precisamente esse absoluto que a lei procura, semelhante a um homem obstinado e ignorante que não permite que ninguém faça alguma coisa contra sua ordem, e não admite pergunta alguma, mesmo em presença de uma situação nova que as suas próprias prescrições não haviam previsto, e para a qual este ou aquele caso seria melhor”.

No entanto, podemos perceber no Político as duas ideias centrais que norteiam o pensamento de Platão, na etapa em que a obra foi concebida: um Platão absolutista, não no sentido político, mas na ideia de que há uma verdadeira ciência das coisas em geral e das coisas humanas em particular, sendo, portanto, conferido ao detentor dessa ciência o direito de governar. Depois, Platão reconhece que não há nem conhecimento nem regulamentação das coisas reais (não abstratas) e que por isso é preciso recorrer a esse mal menor chamado lei. Já seria uma preparação e uma antecipação do que estava por vir na sua próxima obra (também considerada a sua última) chamada “Leis”. Onde se tem magistrados que são mais ou menos eleitos por cidadãos, responsáveis pela obtenção e aplicação das leis e de um conselho noturno que “vigia” a cidade e esses mesmos magistrados.

Voltemos à definição do homem régio, que possui a epistéme da política, e por isso seria capaz de conduzir o povo, lhes dando ordens e dizendo aos cidadãos o que fazer de modo a estar presente ali, ao lado de cada um, orientando-os (vale salientar que aqui se tratam dos indivíduos, ou os “cidadãos” como Platão costumava chamar, que constituem o povo) o tempo todo. Platão sugere que a ordem será restaurada pelo restaurador Régio (homem régio), o que se assemelha muito com a concepção de Joaquim de Fiore do dux. No entanto, como observou Voegelin, “o dux surge de uma tensão entre uma civilização em crescimento e uma ideia de declínio, enquanto o governante platônico surge da tensão entre um declínio político real e uma nova substância espiritual.” A ideia de Joaquim de Fiore de uma realização plena com representantes do orgulho civilizacional foi realizada pelos progressistas do século XVIII, por Comte, Marx, Mill, Lenin e Hitler, escreve Voegelin, enquanto a realização platônica é feita com uma crescente ordenação espiritual de um mundo em desordem por meio da figura de Alexandre, da ordem imperial romana e de Cristo. Por fim, o próprio Platão admite que esse governo não seja possível, e é aí que reside a crítica platônica aos totalitarismos, pois esse governante não estaria presente em todos os lugares simultaneamente, pois senão como alguém poderia estar à cabeceira de todos os cidadãos para dizer a cada um o que fazer e como proceder? Como estaria esse governante em todos os lugares ao mesmo tempo? A solução apresentada pelo filósofo seriam as leis. Mas como se Platão em 294c argumenta que a lei é inflexível e rígida, distante da realidade, incapaz de adaptar-se a sua evolução? É preciso encontrar uma forma de preencher essa separação entre a abstração da lei e da concretude do real. Temos que reconhecer que cada cidadão, cada indivíduo interpreta a lei no que diz respeito à sua própria vida. Diante desse conjunto de regras abstratas e do mundo mutável e flexível em que vive, concluímos que esse vazio entre a lei e a realidade deverá ser preenchido pelo cidadão (indivíduo). E é exatamente nesse ponto que se percebe a que conclusão nos leva o texto platônico: “a auto instituição democrática permanente da sociedade”, como define Castoriadis, para que cada cidadão possa agir como um homem régio nos assuntos que lhe dizem respeito, ou seja, o direito dos indivíduos de autogovernarem seus destinos (seria Platão, ao final de sua vida um liberal?). E esta é uma atividade permanente porque ela tem vida própria e está sujeita sempre a sofrer modificações.

A crítica platônica ao totalitarismo está latente ao sentenciar a impossibilidade para todo governo de estar à cabeceira de todos e se o povo for esse rebanho, esse gado sem esperança que Platão nos descreve, então é preciso ser democrata, pois conforme acredita o filósofo, “a democracia é o “menos ruim” dos regimes na corrupção, um regime que “jamais pode fazer algo de grandioso”. Dessa forma, voltando aos totalitarismos mencionados anteriormente, e levando em conta que Platão considerava a democracia como o menos ruim dentre os governos, se conclui que ele não aprovaria esses governos pois os consideraria tirânicos. Então jamais um regime totalitário poderia alcançar o poder se apoiando no Político para ser justificado, a não ser que os “comandantes” distorcessem o significado da obra em sua totalidade e tomassem para si apenas a parte que lhes interessasse e a apresentasse ao seu rebanho ávido pela proteção de um pastor (seria o caso de um Messias, como se apresentam Bolsonaros e afins?), como argumento irrefutável de Platão para seu governo sem liberdade e repleto de opressão. Afinal, têm a habilidade da retórica (narrativa) ao seu lado para levar seu rebanho ao pasto que melhor convier à sua tirania.

Platão, como já foi provado em outras obras, sempre acreditava que, não importa o tipo de regime, o povo sempre será conduzido por uma elite de especialistas (sábios) das mais diversas naturezas, que teriam o direito de comandar os destinos de todos. E é evidente, de modo a ser uma obviedade, que ao admitir essa elite de sábios, Platão exclui os tiranos.

OBSERVAÇÕES:

(1) É necessário salientar que minha intenção ao escrever este texto é a de tentar elucidar, a partir da leitura do diálogo O Político, e responder à pergunta do título de modo a possibilitar algum vislumbre da hipótese de se os regimes totalitários encontrariam algum apoio no texto do eminente filósofo grego, é e a isto que me proponho responder ao longo do texto. Espero eu que o questionamento tenha sido respondido com sucesso de modo a sanar possíveis dúvidas que o leitor tenha a respeito, ou no mínimo, estimulá-lo a pensar a respeito e tomar este texto como norte para um ponto de partida de uma reflexão acerca dos assuntos tratados aqui no texto. Se os que lerem este texto conseguirem fazer qualquer uma das duas coisas, me sentirei satisfeito e com a sensação de dever cumprido como escritor e tutor de vocês meus amigos leitores.

1. O texto de “O Político” utilizado é o reproduzido na primeira edição da coleção “Os Pensadores”, 1991, Nova Cultural, São Paulo.

2. Este texto teve embasamento também nos diversos seminários proferidos por Cornelius Castoriadis, na França, no período de 19 de fevereiro a 30 de abril de 1986, compilados no livro “Sobre o Político de Platão”, Série “Leituras Filosóficas”, 1999, Edições Loyola, São Paulo.

3. Quando se faz referência a antropotécnica que é mencionada neste texto, refere-se ao fato de que, na visão criada por Sloterdijk, é o procedimento humano que faz com que humanos gerem humanos. E isso tanto do ponto de vista da ontogênese quanto da filogênese. O homem é homem porque é aquele que se fez ao fazer técnicas de se fazer. As antropotécnicas são consideradas como a melhor forma de se anular e quebrar uma divisão que por só têm atrapalhado na tentativa de compreendermos a nós mesmos, a divisão e separação entre natureza e cultura.  Pertencem a uma narrativa que destoante da que adota a dicotomia natureza-cultura. (Definição adaptada do artigo de Paulo Ghiraldelli Jr., “O que são as antropotécnicas de Peter Sloterdijk”, publicada e disponibilizada no blog do filósofo: ghiraldelli.pro.br./filosofia/antropotecnicas-sloterdijk.html)

NOTAS:

1 Citação retirada de artigo intitulado “Tempo dos homens, tempo dos deuses: Mito e história no Político de Platão”, de autoria do Prof. Dr. Richard Romeiro de Oliveira e publicado em Kriterion (UFMG. Impresso) , v. 107, p. 39-50, 2003.Site: http://www.scriptaclassica.hpg.com.br

2 3 Citações retiradas do livro “Ordem e História. Platão e Aristóteles (Vol. III), de Eric Voegelin, 2010, Edições Loyola, São Paulo.

4 5 Citações retiradas do livro “Regras para o Parque Humano. Uma resposta à carta de Heidegger sobre o humanismo”, de Peter Sloterdijk, 2000, Estação Liberdade, São Paulo.