“Blackbird” e a busca pela Liberdade da Mulher Negra

Por João Pedro Lauand

Poucos anos foram tão emblemáticos e conturbados para a história da humanidade quanto foi 1968. Não tão poucas foram às razões que justificam até hoje a alcunha de “O ano que não terminou”, afinal, elas estão fortemente relacionadas às profundas conturbações políticas e às revoluções sociais e culturais que marcaram o fim de uma década que mudou o mundo.

A Europa, como (quase) sempre, foi o estopim para o que de fato foi 1968. Mais precisamente em Praga, na então Tchecoslováquia, onde centenas de milhares de estudantes foram às ruas em protesto contra a presença de tanques e tropas soviéticas que invadiram o país com intenções de impedir que o governo do mesmo se tornasse menos autoritário e mais distante politicamente de Moscou. Tais protestos inflamaram os ânimos para que movimentos estudantis, em maioria de esquerda e de liberais, lutassem contra o autoritarismo, seja no “Maio de 1968” em Paris e na Passeata dos 100 mil contra a ditadura militar no Rio de Janeiro, quanto para protestarem contra as desigualdades raciais e pelo fim da Guerra do Vietnã nos EUA.

Nem a música popular da época escapava deste turbilhão revolucionário. Nem mesmo o quarteto de Liverpool. Cada vez mais arrojados musicalmente, e com um espírito cada vez mais contestador, os Beatles tinham a muito tempo deixado de ser somente uma banda que tocava músicas “melosas” e rocks de Chuck Berry no Cavern Club. Eram, mais do que nunca, o grupo musical mais influente do mundo. Entretanto, isso não se refletiu em coesão entre John, George, Paul e Ringo, mas sim representou o começo do fim.

Era cada vez mais nítida a ruptura entre os membros. John Lennon agora em um relacionamento com Yoko Ono se tornou cada vez mais politicamente engajado em suas músicas. Paul McCartney por sua vez usava e abusava dos instrumentos que o estúdio da Apple Corps tinha a sua disposição e gravava músicas com arranjos da música clássica, ao passo que George Harrison e Ringo Starr tinham que lidar cada vez mais com as constantes disputas de ego entre os dois, enquanto tentavam gravar seu mais novo álbum, um dos mais marcantes da história da música, “The Beatles” ou como é popularmente conhecido, o “Álbum Branco”.

Apesar disso, Paul não se manteve alheio às inquietações políticas do mundo. Pelo contrário, embora “escondida” nas entrelinhas, trata em “Blackbird” (uma de suas composições mais bonitas e famosas) das questões raciais de uma América cada vez mais dividida racialmente, cujo movimento negro cada vez mais seguia as tendências violentas de Malcolm X em detrimento da desobediência civil de Martin Luther King, assassinado em abril de 1968.

Blackbird (forma como os escravos eram pejorativamente referidos) é uma canção que fala em essência da situação da mulher negra e de suas dificuldades em fazer valer sua isonomia jurídica e de seu direito de ser livre. A música, embora curta, traz uma mensagem de incentivo para que a mulher negra enfim possa lutar por sua liberdade e por seus direitos.

Em “Blackbird singing in the dead of night, take these broken wings and learn to fly. All your life, you were only waiting for this moment to arise”, Paul se refere à situação de exclusão e ausência de liberdade que as mulheres negra tinham, em quanto só podiam rezar (ou cantar na calada da noite) para que seus filhos pudessem chegar são e salvos da violência das ruas, mas inventava-as a se erguer de seus medos e lutar por sua liberdade que a tanto tempo era aguardada (ou seja aprender a voar pois durante toda a vida ela desejou ser livre como os outros).

Na estrofe seguinte, precisamente em “Take these sunken eyes and learn to see”, McCartney se refere indiretamente à Rosa Parks, a mulher que em 1955 se recusou a dar seu assento a um homem branco em um ônibus público e que com isso deu o estopim para o surgimento do movimento negro, e pede que as mulheres negras parem de enxergar cegamente somente o que as autoridades desejavam e que enxergassem um presente onde pudessem de fato ter seus direitos respeitados.

Apesar da primeira estrofe se prologar no fim, reforçando o incentivo já mencionado, o ponto chave da canção é em “Blackbird fly. Blackbird fly. Into the light of the dark black night”, aonde Paul diz a mulher negra para ela lute e seja livre e que se agarre na esperança de que enfim terá sua isonomia e sua liberdade respeitada pela justiça. Ou seja, vemos que Blackbird é acima de tudo uma canção que ainda hoje possui uma mensagem muito importante na atualidade, de que o racismo das autoridades deve ser sempre enfrentado, e que a busca pela isonomia jurídica das populações mais segregadas é uma das razões pelas quais devemos lutar pela liberdade.

Mesmo que Sir James Paul McCartney esteja longe de ser um libertário, ainda é um músico que inspira muitas pessoas a lutar por mundo mais “Paz e Amor”. E por mais piegas que isso soe, ainda é uma das grandes recompensas que a Liberdade nos traz. Confesso que estou longe de ser um entendedor de toda a temática das questões raciais, sejam no Brasil ou nos EUA. Mas acredito que somente lutando pela Liberdade, todos os pássaros negros enfim poderão voar.

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