Isaac Benayon Sabbá – o pioneiro da industrialização na Amazônia (1994)

Por Samuel Isaac Benchimol

1922: o gaiola “Murozinho” sai do porto de Belém do Pará, levando a bordo a família unida dos sete irmãos Sabbá: Cotinha, Jacob, Isaac, Rachel, Dina, Abraham e Samuel, acompanhados do pai Primo Sabbá – nascido em Cametá – e da mãe D. Fortunata Benayon, nascida por acaso em Faro, Portugal, durante uma das viagens de seus pais à Europa. O destino era Manaus e o motivo era assistir ao casamento da irmã mais velha Cotinha, que ia contrair núpcias com o sr. Salomon Benarrós Israel, comerciante estabelecido em Manaus.

Ao sair da barra de Belém e adentrar na baía de Marajó, o gaiola balançou com a maresia e os ventos e um garoto se aproximou e disse ao jovem Isaac Benayon Sabbá, que então tinha 15 anos: “este navio vai afundar, pois está carregado de trilhos”. Passado o susto, a família Sabbá adaptou-se à rotina de bordo: café com leite condensado e bolacha; almoço: feijão com arroz ou peixe com farinha, acompanhado da célebre sobremesa Romeu e Julieta (goiabada e queijo); e jantar modesto com macarrão, galinha ou carne, quando se matava algum boi na proa do navio. A viagem durou vinte dias, porque naqueles velhos tempos as embarcações precisavam parar nos “portos de lenha” para se abastecer desse comubstível queimado nas máquinas-de-vapor, que impulsionavam as hélices do navio. Em cada parada, caboclos e curumins carregavam lenha nos ombros, equilibrando-se sobre a prancha que ligava o trapiche do barranco ao porão do navio, e os carapanãs, ao entardecer, fustigavam a cara, os braços e as pernas dos passageiros. À medida que o gaiola subia o rio Amazonas, pequenos povoados, vilas e cidades desfilavam aos olhos encantados da família viajante e dos passageiros de primeira a terceira classe, com redes armadas umas sobre outras: Curralinho, Breves, Antonio Lemos, Gurupá, Porto de Moz, Almeirin, Prainha, Monte Alegre, Alenquer, Santarém, Óbidos, Oriximiná, Juruti, Parintins, Urucurituba, Itacoatiara e, por fim, o encontro das águas da baía do rio Negro, até atracar no roadway da Manaos Harbor.

O casamento de D. Cotinha com Salomon Benarrós Israel foi modesto, mas serviu para reunir toda família e dar novo destino e futuro aos irmãos Sabbá. Salomon Benarrós Israel era um comerciante ativo e inteligente, que conseguiu na sua casa de representações da Rua Marcilio Dias 136 se capitalizar, como agente da fábrica de cigarros Terezita, produzido pela firma Serfaty & Cia., de Belém, da qual tinha sido empregado. Graças ao seu conhecimento de inglês e por ser bom correspondente, uma grande virtude para os iniciantes do comércio, conseguiu as representações de muitas firmas alemãs e passou a importar, diretamente, máquinas fotográficas da Voigtlander, facas, tesouras e cutelaria de Solingen, drogas e medicamentos de Schering, brinquedos japoneses da Yokohama, soda cáustica e barrilha dos Estados Unidos. Salomon Israel – que era um perfeito “gentleman” e um homem muito bondoso, conhecido como Momito entre os íntimos – ajudou os cunhados a conseguirem emprego entre os seus amigos e colegas da praça: Isaac Sabbá, que começou trabalhando como office-boy e faxineiro de S.B. Israel, conseguiu emprego no escritório de Eduardo Sales Vieira e depois foi pracista na firma Oliveira Marques & Cia., representante de farinha de trigo, com escritório à Rua Guilherme Moreira; Jacob Sabbá, por ser bom correspondente, se empregou na firma Henrique Pinto (cunhado de J.G. Araújo) e depois passou a prestar serviços no escritório de Antonio Lamarão; Abraham Sabbá conseguiu emprego na firma do sr. Fausto Dário Mendes (pai dos advogados Drs. Manary e Iswar Mendes), representantes do quinado Ferreirinha, que depois passou a proprietário da mercearia “A Reforma”, na esquina da Rua Henrique Martins com a Rua Barroso.

Deste modo, a família Sabbá, recém-chegada de Belém, conseguiu um princípio de vida para manter os irmãos mais jovens e seus pais. Emprego em Manaus, devido à avassaladora crise, era bem difícil. O Estado do Amazonas, no ano de 1922, conseguiu arrecadar apenas 5.053 contos de réis, equivalente hoje a cerca de seis milhões de dólares, comparados com a receita tributária de 90 milhões de dólares do ano-ápice de 1910. O jovem Isaac B. Sabbá ainda se lembra que, para complicar mais a difícil situação econômica nesse ano de 1922, registrou-se a maior enchente de todos os tempos, com o nível das águas do rio Negro na sua cota máxima de 29,35 metros no dia 18 de junho, cuja marca, ainda hoje, está registrada no paredão do roadway da antiga Manaos Harbour.

A borracha, que um dia fora o esteio da economia amazônica, nesse ano fatídico de 22, rendeu apenas, em valores da época, 1,43 milhões de libras esterlinas, equivalente hoje a apenas US$57,2 milhões contra aproximadamente US$1,94 bilhão em 1910. Para agravar, ainda mais, a crise do Amazonas e de Manaus, nesse tempo era Governador do Estado o sr. Cesar do Rego Monteiro, um político de triste memória. Para compreender o tamanho das dificuldades que os Sabbás tiveram de enfrentar, ao chegar a Manaus, vale a pena transcrever o que disse o Prof. Agnelo Bittencourt sobre o caos econômico do governo de Rego Monteiro:

Os funcionários públicos só recebiam seus vencimentos à custa de muitas vilezas e implorações. As negociatas mais escandalosas exploravam a miséria dos serventuários do Estado… que só recebiam os seus vencimentos transacionando com os especuladores com 90% de desconto, com a condução ainda de que as vítimass passassem o recibo da totalidade da quantia em jogo”. Agnelo Bittencourt, 1925:313.

No Pará, a situação era pior ainda, pois o Estado só conseguiu arrecadar, naquele ano, 8.517 contos ou 250.544 libras esterlinas, equivalente hoje a dez milhões de dólares, apesar de possuir uma população duas vezes maior do que a do Amazonas. Os habitantes do Baixo Amazonas abandonavam as suas pequenas cidades e vilarejos para se refugiarem em Belém, à procura de emprego. Isaac Sabbá recorda que seu pai Primo Sabbá, depois de ter sido empresário rico em Cametá, foi à falência por causa da quebra da borracha, além da política partidária que o levou à ruina. Em Belém, Primo Sabbá passou a trabalhar como humilde servidor da Estrada de Ferro de Bragança, aquele que foi, um dia, um dos mais ricos empresários em Cametá, a mais próspera cidade do Baixo Tocantins. Por isso, talvez, resolveram migrar para Manaus, aproveitando a oportunidade do casamento de sua filha mais velha Cotinha com o comerciante Salomon Benarrós Israel, de cujo consórcio iria surgir outra ilustre família, em seguida do primogênito Moysés Benarrós Israel, com suas irmãs Esther, Stela e Mery. Moysés haveria de ser, mais tarde, um dos braços direitos e principal assessor de Isaac Sabbá.

No final da década dos anos 20, o irmão mais velho Jacob Sabbá, que trabalhava na firma Henrique Pinto, chamou o seu irmão Isaac e disse-lhe com orgulho: Tu és o melhor pracista de Manaus e eu sou o melhor correspondente. Por que não abrimos o nosso próprio negócio? Isaac, receoso, respondeu-lhe que não tinha dinheiro para trabalhar por conta própria, mas Jacob insistiu dizendo-lhe: O trabalho é mais importante que o capital. Tu fazes a venda e eu cuido de escrever a correspondência e obter as representações. Assim nasceu a nova firma no final da década dos anos 20: J. Sabbá & Cia., que começou no porão da residência dos seus pais e irmãos à Rua Monsenhor Coutinho e, anos mais tarde, se transferiu para a Rua Guilherme Moreira, quase esquina da Rua Quintino Bocaiuva, no local onde hoje funciona a Top Lojasm ao lado das Casas Pernambucanas, e que durante 40 anos seria o quartel general do Grupo Sabbá.

As agências e representações começaram a surgir. A primeira dela foi a de agentes da fábrica de cigarros Camões, imitando, assim, o negócio de seu cunhado S.B. Israel, que dominava o mercado com a marca Terezita, de fabricação paraense. Isaac Sabbá, como pracista tarimbado, criou calo nos pés de tanto andar, visitando botequins, bares e mercearias. O cigarro Camões custava, então, 200 réis e tinha o preço fixo e a comissão de J. Sabbá & Cia., era de 5%, que não dava nem para pagar o bonde. O pracista Isaac, por isso, para economizar ia a pé todos os dias, correndo a Av. Joaquim Nabuco até o Alto Nazaré e o Boulevard Amazonas, tentando vender cigarros às tabernas e biroscas desse Bairro. Como era magro, baixo e rápido no andar, esse físico, sem dúvida, o ajudou na corrida às vendas e na visita aos fregueses. Lembrava os tempos do seu pai Primo, quando após o colapso da borracha, tornou-se humilde funcionário da Estrada de Ferro de Bragança, e para economizar o dinheiro do bonde, ia a pé, do Largo da Pólvora até a estação da Estrada de Ferro, enquanto D. Fortunata ajudava a família vendendo bordados e doces.

Depois desse difícil começo, as coisas começaram a melhorar. Conseguiram novas representações e a agência da Cia. de Seguros Brasil, passando a concorrer com Matos Areosa e J. Vaz de Oliveira & Irmão, as duas mais poderosas empresas do ramo. Em 1934 ocorreu um drama na família Sabbá. Salomon Benarrós Israel, o cunhado próspero, casado com a irmã D. Cotinha, viaja para Belém e morre, subitamente, a bordo de uma gaiola, ao aportar a cidade de Óbidos. O seu primogênito Moysés Benarrós Israel tinha, quando se tornou órfão juntamente com as suas irmãs Esther, Stela e Mery, apenas 10 anos de idade. Isaac e Jacob, seus cunhados, fizeram um trato com a viúva, sua irmã D. Cotinha, para ficar com as representações do seu falecido marido, devendo-lhe em pagamento uma mesada para sustentar os filhos.

A firma J. Sabbá & Cia., assim cresceu, ao incorporar o acervo e as representações de S.B. Israel, que incluía a distribuição de firmas alemãs, como a Voigtlander e a Schering de produtos farmacêuticos, e uma pequena fábrica de sabão, que funcionava na antiga Usina Vitória, na Cachoeirinha, onde Serfaty antigamente tivera uma fábrica de beneficiamento de castanha. Também S.B. Israel era exportador de couros e peles de capivara, caititu, cobra e couro de boi da Bolívia. Antes que a década dos anos 30 findasse, os irmãos Sabbá já tinham amealhado bom cpaital, que permitia fazer importação por conta própria e maior ganho do que as comissões de suas agências e representações.

Em 1939, tanto Isaac quanto Jacob já eram considerados homens de algumas posses, pois a despeito da crise e das falências das casas aviadoras e seringalistas, eles conseguiram sobreviver vendendo no mercado de Manaus, que havia crescido em função do êxodo das popuações interioranas para a capital amazonense. Já estávamos, também, na época da revolução de 1930 de Getúlio Vargas e de Álvaro Maia, que governou o Amazonas no período de 1930 a 1931 e depois como interventor no longo período de 1935 e 1945.

Isaac Benayon Sabbá, em 1939, já tinha completado 32 anos, com uma vivência de Manaus e Amazonas de 17 anos, tempo decorrido desde a sua mudança de Belém para Manaus. Durante esse tempo, adquiriu experiência e fez o seu aprendizado de empresário. Esse ano, porém, foi decisivo para a sua carreira, pois resolve fundar uma nova empresa com o seu próprio nome, I.B. Sabbá, que começou a operar como firma individual, conforme contrato registrado na Junta Comercial do Amazonas no dia 1 de novembro de 1939. Essa nova firma irira dedicar-se a exportação de produtos regionais, abrindo assim um mais amplo mercado no exterior.

Isaac Sabbá havia, nessa altura, descoberto o seu “nicho” no mercado, pois os exportadores amazonenses ou tinham abandonado os seus negócios ou estavam envelhecendo com suas estruturas comerciais estagnadas e sem futuro por falta de ânimo e inovação. Poucas eram as firmas exportadoras nesse período: J.G. Araújo ainda se mantinha na liderança, mas com a morte, em Lisboa, do seu fundador Comendador Joaquim Gonçalves de Araújo, no dia 21 de março de 1939, abriu-se oportunidade para a entrada de novo concorrente na praça. Os outros exportadores, de então, eram: 1) B. Levy & Cia., com sede na Rua Guilherme Moreira 150; 2) Berringer & Cia., na Rua Marechal Deodoro 63/75; 3) C.F. Bauman, na Rua Monteiro de Souza 17; 4) T.J. Dun, na Rua Marechal Deodoro 229; 5) Higson & Cia. Ltda., na Praça Tamandaré 100; 6) Semper & Cia., na Rua Marechal Deodoro 172; 7) M.E. Serfaty & Cia., na Rua Guilherme Moreira 195; 8) Sutter & Brun, exportador suíço com sede em frente ao antigo Tesouro do Estado; 8) Ezagui, Irmão & Cia. Ltda., na Rua Guilherme Moreira, 296; 9) I.J. Benzecry, na Rua Theodureto Souto 125; 10) Benzaquen & Cia. Ltda., na Rua Guilherme Moreira 186.

A maior parte das firmas inglesas, alemãs e francesas haviam-se retirado do mercado e as que ficaram deixaram prepostos e gerentes pouco ativos, que não se apresentavam mais como concorrentes, pois os negócios passaram a ser dominados por J.G. Araújo & Cia. e por B. Levy & Cia.

A nova firmaI.B. Sabbá, depois transformada em I.B. Sabbá & Cia. Ltda., seria a matriz de uma nova proposta e um novo modelo de desenvolvimento para a região, passando a atuar como exportador de castanha, borracha, couros e peles, pirarucu para o Ceará, jutaicica, cumaru, piaçava, cipó-titica e outros produtos regionais. Isaac Sabbá notara que a reputação do produto amazônico caíra muito no exterior, pois a sua qualidade, com a crise e a baixa de preços nos mercados internacionais, tornara o produto muito relaxado e o oferecido, não tinha uniformidade e nem padrão qualitativo. Daí nasceu a ideia de industrialização através do beneficiamento dos produtos regionais, cuja ideia, também, tinha sido percebida pelo seu concorrente o ainda jovem e amigo Isaac Jacob Benzecry.

Essa nova empreitada, marcada pela inovação e descoberta de novo produto diferenciado, como a borracha lavada e beneficiada, a castanha descascada, a sorva desidratada, a madeira bem serrada e aplainada e outros melhoramentos na preparação, apresentação e embalagem passaram a ser obstinação de sua empresa. O mundo estava em guerra desde 1939 e era difícil obter capitais nos bancos para investir numa nova estrutura produtiva. O Bank of London ajudou através do desconto de duplicatas da venda de pirarucu para o Nordeste e de câmbio de exportação para o exterior. Mas isto não era suficiente, já que o bloqueio marítimo dos submarinos alemães dificultava os embarques e o escoamento da produção. Era preciso vender, também, para o mercado interno e, para tanto, era necessário caminhar na direção da indústria de beneficiamento.

Uma nova oportunidade surgiu quando o seu correligionário Isaac Perez propôs a ele e ao seu irmão Jacob para que juntassem as suas forças para construir uma fábrica de lavagem, beneficiamento e crepagem da borracha. Isaac Perez, além de ter capital, era um empresário de alto nível intelectual, um perfeito cavalheiro no velho estilo britânico de integridade e um político, pois havia sido Prefeito de Itacoatiara e, nessa cidade, onde sua família morava e trabalhava há mais de trinta anos, havia realizado verdadeira revolução urbana. Isaac Perez, até hoje, tem a sua administração lembrada pelo povo da Velha Serpa, porque abriu e alargou ruas, arborizou avenidas, construiu escolas e fez um traballho de paisagismo urbano de causar inveja a muitas cidades do interior. A aliança dos Sabbás com os Perez, a força da juventude com a experiência da tradição, fez surgir a nova empresa Perez, Sabbá & Cia., que conseguiu reunir os irmãos Isaac e Jacob, agora com a parceria, experiência e o grande conceito de Isaac Perez.

Assim nasceu, na Ilha Monte Cristo, a primeira usina de beneficiamento de borracha que, ao se desfazer a sociedade, passou a denominar-se Usina Estrela, no momento em que Jacob Sabbá assumiu, integralmente, o ativo e passivo da organização. Outra usina de borracha que funcionava, naquela época, era de J.G. Araújo & Cia., na Ilha do Caxangá, que teve papel importante, pois produzia também artefatos, saltos e solados de borracha, marca “Coroa”. A Usina de Monte Cristo foi, assim, um marco na história da recuperação da qualidade da borracha amazônica, e a sua maquinaria moderna e os investimentos proporcionados pela aliança dos Perez com os Sabbás, deu exemplo que, para sair da crise, era preciso inovar. Essa usina depois, ainda no tempo de Perez, Sabbá & Cia., passou a abrir novas seções industriais como beneficiamento e descascamento de castanha, fábrica de sabões e uma parte dela foi usada pelos americanos da Rubber Development Corporation (RDC) para construir uma rampa de acesso para os aviões anfíbios “Gruman” e “Catalina”, que aquatizavam na baía do rio Negro e eram levados para a Ilha de Monte Cristo para carga, descarga e manutenção. Depois, esta ilha foi aterrada e ligada ao continente pelo seu proprietário Jacob Sabbá. Em tempos mais recentes da Zona Franca de Manaus, o imóvel e seus grandes armazéns da Usina Estrela de Monte Cristo foram vendidos à Moto Importadora, após o falecimento de Jacob Sabbá em 1978, e hoje se situa às margens do grande aterro da Avenida do Beiradão da Manaus Moderna.

A sociedade com Isaac Perez não durou muito, pois este, após alguns anos, resolveu mudar-se para o Rio, tendo a sociedade sido desfeita, assumindo o sócio Jacob Sabbá a direção desse estabelecimento e retirando-se Isaac Sabbá para dedicar-se, exclusivamente, aos negócios de I.B. Sabbá & Cia. Ltda. que, nesta altura, já tinha o seu escritório localizado na Rua Guilherme Moreira 183, esquina da Rua Quintino Bocaiuva (onde hoje estão localizadas as lojas Casas Pernambucanas, em frente ao prédio da Associação Comercial do Amazonas).

O caminho da expansão havia sido descoberto e testado na prática com a Usina de Borracha de Monte Cristo, que passou a vender a sua borracha crepada e laminada para as indústrias de pneumáticos localizadas em São Paulo, sob o controle e supervisão do Banco da Borracha, que passou a operar na região, em decorrência dos Acordos de Washington de 1942.

O ano de 1942 assinalad um novo período na história do desenvolvimento da cidade de Manaus, pois a Grande Guerra trouxe levas de nordestinos para repovoar os seringais e inúmeros executivos americanos e brasileiros para administrar o programa de borracha para suprir os aliados, cujo produto, dada a urgênci, era trasnportado nos aviões anfíbios Catalinas, S-42 e Clippers da Pan-American, que pousavam na baía do Rio Negro, com estação para carga e descarga no roadway da Manaos Harbour. Depois essas instalações foram transferidas para o flutuante da Panair do Brasil, situado na atual e conhecida Feira da Panair, no Bairro de Educandos, onde trabalhei na minha juventude como despachante de bagagem e passageiros. Novos negócios e oportunidades comerciais e industriais começaram a surgir para tirar Manaus da estagnação e do marasmo secular, a que havia sido submetida por décadas de crise e depressão dos anos 15, 20 e 30, que duraram mais de 30 anos.

Aproveitando essas oportunidades criadas pela expectativa de crescimento e início de um novo ciclo, Isaac B. Sabbá soube bem captar e aproveitar as novas aberturas que estavam sendo proporcionais aos produtores amazônicos. De outro lado, as velhas firmas aviadoras dos tempos áureos da borracha e que haviam atravessado a crise durante a decadência, começaram a entrar em declínio e despareceram, pois o Banco da Borracha passou a deter o monopólio final de compra e venda desse produto. A RDC que tinha a sua sede inicial instalada, provisoriamente, nos bastidores dos artistas do Teatro Amazonas, começou a fazer os suprimentos de mercadorias diretamente aos seringalistas, acabando assim por desestruturar completamente o tradicional sistema de aviamentos da região. Com isso os “aviadores”, funcionários, produtores e os Armazéns, onde os antigos Coronéis de Barranco abasteciam os seus seringais, começaram a desaparecer e sair de cena.

Desta época apenas resistiu, mais tempo, a firma J.G. Araújo, apesar de ter tido a sua vida abalada com a chegada do Banco da Borracha. O seu concorrente B. Levy & Cia. que, outrora, havia sido uma grande casa aviadora e empório comercial, com armazéns e escritórios situados no atual Edifício dos Correios (construído pela firma judaica-francesa Marius & Levy), não resistiu à pressão dos novos tempos. Os seus fundadores estavam envelhecidos, e poucos se lembram, hoje, que um dia haviam sido os grandes empresários e líderes do comércio de Manaus e da Associação Comercial do Amazonas – Rafael Benoliel e Samuel José Levy. Estes apelaram para o empresário Isaac Sabbá, pois tinham decidido liquidar a empresa. Isaac viu que o vasto império construído por B. Levy desde o início do século estava vindo ao seu encontro, em busca de uma fórmula final que permitisse a saída dos seus fundadores. Sabbá estudou o negócio e logo entrou na sociedade como seu liquidante e sucessor, conforme escritura de dissolução lavrada pelo Tabelião Milton Nogueira Marques, em data de 28 de abril de 1943.

Pelo acordo de dissolução e liquidação da firma, Isaac Sabbá assumia como liquidante o ativo e passivo da firma, pagando aos seus fundadores CR$400.000,00 (cerca de US$21.000 de valor de 1942, equivalente hoje a US$180.000, conforme Índice de Preços dos Estados Unidos, elaborado pelo Bureau of Labor Statistics do U.S. Department of Labor, cujo fator de correção 1942/1992 dá o coeficiente multiplicador de 8,6 vezes para atualização do valor da moeda americana) e reembolsando o seu capital aportado de CR$600.000,00 (US$32.000 de 1942 ou US$276.000 de hoje) com os imóveis, navios e os 309 seringais da firma extinta , conforme tivemos já oportunidade de nos referir no capítulo especial sob o perfil de B. Levy & Cia.

Esta compra não foi um grande negócio para I.B. Sabbá, pois grande parte dos seringais e terras de borracha e castanha localizados no rio Madeira, Jacy-Paraná, Rondônia e Mato Grosso já havia sido invadida pelos antigos seringueiros, dado o abandono dessas terras durante a longa crise da borracha, invasão essa que, posteriormente, viria a ser intensificada com a onda de novos colonos do centro-sul do país, após a abertura da estrada BR-364. Essas terras, todavia, têm um valor incalculável, pois lá foram encontradas grandes minas de cassiterita, que as grandes mineradoras, também, se apropriaram em detrimento dos legítimos títulos de domínio e propriedade e I.B. Sabbá & Cia. Ltda., como legítimos sucessores de B. Levy & Cia. Segundo depoimento do sr. Isaac Sabbá, o BNDES fez um laudo dessas propriedades, avaliando-as em cerca de 30 milhões de dólares. Apesar disso, embora conste do patrimônio da firma, esses seringais, em termos comerciais e de investimento foram um legítimo presente de grego, pois se iniciadas ações judiciais de despejo, provavelmente, a firma proprietáriaa terá apenas uma interminável ação judiciária, que demandaria algumas gerações para serem solucionadas, como é comum nesses casos de disputa de terras entre grileiros, posseiros, mineradores, garimpeiros e colonos.

Porém, algumas vantagens foram obtidas pelo empresário I.B. Sabbá com a aquisição desse acervo. Uma delas foi a aquisição da Usina Alegria, de beneficiamento de castanha, situada à Av. Joaquim Nabuco com fundos para a Av. Getúlio Vargas, onde hoje está situado o estacionamento da Igreja Batista da Restauração e do Clube Bancrévea do Basa. Também muitos terrenos e imóveis dos bens da firma liquidada foram vendidos para fazer caixa e restaurar a liquidez do empresário.

O seu próximo lance e iniciativa foi a construção de uma modelar usina de beneficiamento de borracha. Comprou um grande terreno no Bairro Operário de Educandos e lá construiu a Usina Labor, com equipamentos modernos de lavagem, laminação e crepagem de borracha, numa área construída acima de 2.000 m2. Foi, naquela altura, o maior e mais vultoso empreendimento do grupo e para concretizar o empreendimento teve de procurar financiamento bancário e particular. O empreendimento, contudo, teve um grande sucesso, pois a produção da borracha no Amazonas, Acre e Guaporé (atual Rondônia) havia sido aumentada em função dos investimentos americanos e brasileiros da RDC e do Banco da Borracha e, praticamente toda essa produção era beneficiada pelas duas usinas existentes: Usina Estrela de Monte Cristo, de Jacob Sabbá e a Usina Labor, de grande investimento foi, rapidamente amortizado com o valor do beneficiamento da borracha contratada com o Banco da Borracha. Enquanto o Banco tinha dinheiro, durante a guerra, foi um grande cliente, porém depois, quando o Bancrévea começou a entrar em colapso e passou por sérias dificuldades financeiras, as usinas começaram a sofrer. Beneficiavam o produto e, somente, recebiam os seus créditos após longos meses de espera, pois o Bancrévea estava a ponto de pedir moratória porque não tinha capital suficiente para manter o monopólio de compra e venda do total da produção regional. Como os americanos, terminada a guerra, deixaram de comprar a borracha amazônica, passando novamente a adquirir esse produto dos seringais asiáticos por ser mais barato, e como havia estoques acumulados invendáveis de 14.000 toneladas, no valor de US$8 milhões, equivalentes hoje a US$36,1 milhões (feira a atualização do dólar 4,52 vezes) que, somandos com os débitos dos seringalistas de CR$11 bilhões (equivalentes hoje a US$27 milhões) dava um total de US$63 milhões imobilizados pelo Banco de Crédito da Amazônia em 1964, conforme relatório do seu Presidente Raymundo Alcântara Figueira, apresentado em 26 de maio de 1964. Com esse vultoso déficit e capital imobilizado, e sem ajuda do governo central, o Banco suspendeu os pagamentos e não honrava os seus débitos com os credores e usineiros. Foi um grande retrocesso na ocasião, pois o monopólio do BCA, depois de haver quebrado os aviadores, estava quebrando, também os usineiros e os comerciantes da praça de Belém e Manaus. Não havia consumo nacional pela indústria de São Paulo capaz de absorver a produção reativada da borracha na Amazônia que, do fundo do poço de 1932 quando foram produzidas 6.224 toneladas, passou para 33.000 toneladas no início da década de 1960 (Acre = 12.500 ton; Rondônia = 4.500 ton; Amazonas = 7.500 ton; Pará = 6.500 ton; Mato Grosso = 2.000 ton).

Com tal situação, o empresário I.B. Sabbá procurou, rapidamente, diversificar os seus negócios, buscando novas linhas de produção. Assim, montou e aparelhou um armazém na Rua Borba, esquina da Costa e Silva, na Cachoeirinha, a Usina Vitória, para descascar castanha, ampliando assim a produção desse produto já beneficiado, também, na Usina Alegria da Joaquim Nabuco (recebida de B. Levy & Cia.). Data daí a grande expansão nos seus negócios de castanha, da qual se tornou um dos maiores beneficiadores e exportadores para os diversos mercados mundiais. Essas usinas de castanha abriram novo mercado de trabalho para os diversos mercados mundiais. Essas usinas de castanha abriram novo mercado de trabalho para as humildes mulheres operárias dos bairros de Manaus. Pela primeira vez se dava oportunidade de emprego a essas mulheres que completavam o salário dos seus maridos, quebrando e descascando castanha em máquinas manuais nessas usinas. Antes, apenas, os empregos oferecidos às mulheres estavam restritos às atividades domésticas como cozinheiras, arrumadeiras, amas-secas e lavadeiras. Pela primeira vez se dava oportunidade de trabalho “com carteira-assinada” e as vantagens da previdência social.

As usinas de castanha de I.B. Sabbá, “Alegria” e “Vitória”, davam emprego durante a safra a mais de 1.500 mulheres que esperavam, ansiosamente, a chegada do inverno para poderem ganhar o seu salário mínimo ou mais, dependeno de sua produção. O investimento, nessas usinas, era grande, pois requeria a montagem de uma custosa caldeira para secagem da castanha, para facilitar o desprendimento da amêndoa da casca, e compra de centenas de máquinas individuais para quebra do produto. Com esse beneficiamento, evitava a difusão do fungo e da rejeição da Castanha-do-Pará, que depois passou a denominar-se Castanha do Brasil (Brazil Nuts), cujos maiores mercados importantes eram os Estados Unidos e Inglaterra. A castanha descascada passou, assim, a obter maior valor agregado nas exportações amazonenses e, consequentemente, maiores receitas tributárias pagas ao erário estadual.

Com a expansão dos negócios da exportação que, naquela altura, ultrapassava US$100 milhões/ano, foi necessário fazer reinvestimento complementar. Deste modo, I.B. Sabbá expandiu-se, mais uma vez, implantando uma fábrica de latas de folha de flandres para embalagem desse produto, porque as funilarias existentes não davam conta das encomendas dos exportadores. Esta linha de produção de latas foi uma ampliação de sua primitiva fábrica de tijelinhas de seringa, que I.B. Sabbá havia adquirido para aproveitar os negócios de reativação da borracha durante a guerra.

Outras iniciativas vieram a seguir para formar o conglomerado de empresas do Grupo Sabbá. Na altura dos anos 60, I.B. Sabbá tece necessidade de montar uma organização capaz de dar apoio aos múltiplos negócios que iam surgindo. Para tanto, conseguiu reunir uma grande equipe de profissionais extretamente competentes, que passaram a assessorá-lo. Com Moysés Benarrós Israel, ao seu lado, como seu sócio e diretor, que lhe dava um grande apoio logístico e responsável pela gerência e administração dos seus inúmeros projetos, ele conseguiu formar um grupo de gerentes e executivos de valor. Entre eles, recordo-me de Emanuel Santos (escritório); Jacaúna Maia (relações externas e contatos no Rio e Brasília); Pedro Soriano de Melo, Juarez Levy Rabelo, Jacynto Henriques Corrêa, José Renato Uchôa, Ruy Brasil e Orlando de Lemos Falcone (Indústrias I.B. Sabbá); Gerard Lindenberg (exportação); Lucian Gassman (gerência de sua filial do Rio de Janeiro); Armando dos Santos (contadoria, auditoria e assessoria fiscal); Julio Souza (negócios de combustíveis); Milton César de Araújo Lima (Distribuição de Petróleo), entre outros.

Com o apoio dessa equipe, I.B. Sabbá então pôde continuar expandindo e renovando na sua atividade industrial e comercial. Na década de 60, assinala-se o apogeu do seu grupo, conseguindo instalar novos empreendimentos, além do beneficiamento da borracha e castanha, passando a atuar nas indústrias de serragem, laminados e compensados, destilação de pau-rosa, desidratação de gem de juta, plantação de cana, navegação, estaleiro, mineração de cassiterita, distribuição de combustível. Para coroar esses inúmeros empreendimentos viria, afinal, a construção da Refinaria de Petróleo de Manaus, no período 1955/1956 e, inaugurada oficialmente pelo Presidente Juscelino Kubitschek, em 3 de janeiro de 1957.

A construção dessa refinaria, na verdade, foi uma epopeia de luta, obstinação e força de vontade do empresário I.B. Sabbá, resultado de sua imaginação criadora, após haver descoberto que o refino de petróleo em Manaus, no centro geográfico da bacia, seria fundamental para o futuro da região amazônica. Sabbá acreditou que, em virtude da distância continental amazônica, os combustíveis, sobretudo o óleo diesel para movimentar as embarcações, tinham um papel preponderante na logística do seu desenvolvimento. Antes da construção da refinaria, os combustíveis vinham para Manaus em tambores e latas e, como não havia equalização, os seus preços eram excessivamente altos. Quando a refinaria entrou em funcionamento, em fase de operacionalização e de teste, em 6 de setembro de 1956, Manaus e a Amazônia Ocidental receberam um choque: a gasolina baixou de preço 21%, o querosene 28% e o óleo diesel 58%. A Amazônia interiorana tornou-se, novamente, viável, pois os navios, motores e embarcações tiveram, reduzidos pela metade, o custo do seu combustível. Talvez nunca, nem ninguém tenha feito tanto pelo interior, durante todos os tempos, como essa ação empreendedora e pioneira de I.B. Sabbá.

O que foi a construção da refinaria na vida do grupo empresarial Sabbá e da Amazônia precisa ser relembrada, para que se perpetue na memória e na história. Por isso, aqui resumimos os principais fatos e eventos:

1. I.B. Sabbá, em 1950, tornou-se agente e distribuidor da Companhia de Petróleo Ganso Azul, uma empresa peruana, com sedes em Iquitos, de propriedade de Lawrence Reed, Presidente também da Texas Gulf America e que, mais tarde, tornou-se bilionário ao descobrir petróleo no seu projeto da Líbia. Antes disso, Mr. Reed propôs a I.B. Sabbá uma joint-venture de prospecção de petróleo no estuário do rio Amazonas e quis vender-lhe todo o acervo da Ganso Azul, o que não foi realizado, em virtude da negativa do Conselho Nacional de Petróleo, em função da nova legislação brasileira de petróleo que criou o monopólio da Petrobrás (Lei 2004, de 3/10/1953).

2. Como distribuidor da Ganso Azul, Sabbá pôde concorrer com vantagem com a Esso, Shelll e Texaco, pois trazia esses derivados em barcaças a granel de Iquitos e, com isso, podia vender o produto mais barato, em virtude de preços mais reduzidos. Esses destilados eram produzidos por uma pequena refinaria de petróleo, em Iquitos, de 1.500 barris, e de 1.000 barris em Pucalpa. O petróleo extraído pela Ganso Azul, que produzia 3.500 barris por dia, provinha do rio Pachitea, afluente do Ucayale, cerca de 70 km de Pucalpa e 200 km da fronteira acreana. O petróleo peruano de El Oriente, do grupo alemão Kildemeisters, era originário dos campos de Maquía, que produziam 4.500 barris por dia, também no rio Ucayale, a 10 km da fronetira de Contanama.

3. A existência dessa produção amazônica peruana de 8.000 barris, da Ganso Azul/El Oriente, com um consumo local de apenas 2.500 barris nas refinarias de Iquitos e Pucalpa, dava a Isaac Sabbá a ideia de que era possível construir uma refinaria de petróleo em Manaus, com capacidade mínima de 5.000 barris por dia. Essa construção teria uma vantagem competitiva extraordinária em relação aos concorrentes, pois tratava-se de uma matéria-prima da região que podia, facilmente, ser transportada pela calha principal do rio Amazonas, a baixo custo. O seu processamento, em Manaus, faria baixar o custo dos derivados e a privilegiada posição de Manaus, como centro geográfico da região, facilitaria a sua distribuição para toda a Amazônia. Além disso, o petróleo da Ganso Azul era de excelente qualidade, pois tinha 40 API, ou seja, um petróleo leve capaz de produzir 50% de gasolina e 30% de óleo diesel, os dois derivados mais usados na região.

4. Feitos os estudos econômicos, com base na visão e oportunidade descoberta por I.B. Sabbá, este iniciou a luta para obter a licença do Conselho Nacional de Petróleo, que lhe concedeu o título de autorização em 1953, antes da entrada em vigor da Lei 2004/53.

5. O plano seguinte foi a organização da empresa que recebeu o nome de Companhia de Petróleo da Amazônia – COPAM, e a subscrição de capital pelos acionistas. Isaac Sabbá conseguiu, logo, a adesão do seu amigo J.S. Amorim, uma antiga casa aviadora, cujos filhos Arthur e Fortunato Soares Amorim eram engenheiros formados em Itajubá. Outros subscritores incluíram membros da família, amigos e empresas amazonenses, num total de 300 acionistas, que acreditavam no empreendimento. Mesmo assim, o capital era insuficiente para fazer face aos vultosos investimentos. Contatos foram feitos com a SPVEA e junto ao Banco Grupo Levy de São Paulo, que se prontificaram a financiar e abrir a carta de crédito através do Banco da América S.A., cujo presidente era Herbert Levy, e lançaram ações em todo o Brasil.

6. Sabbá e Amorim, como Presidente e Vice-Presidente da nova empresa, viajaram para New York para compra do equipamento. Lá contataram diversas empresas fabricantes de equipamentos de refino, porém poucas estavam interessadas em produzir uma pequena refinaria. Somente uma delas mostrou-se interessada, a Southwestern Engineering Co. (SWECO), da California, que deu um orçamento de cerca de US$ 3 milhões. O negócio foi fechado para a compra de uma refinaria de 5.000 barris por dia, podendo ser ampliada, com pequenas modificações, para 7.000 barris, pois Sabbá, naquela altura, acreditava na expansão do mercado. O engenheiro Arthur Amorim ficou em Los Angeles, acompanhando a fabricação do equipamento e se assenhorando de tecnologia de operação e funcionamento de todo o processo de refino. Lá, em Los Angeles, Amorim tornou-se amigo e companheiro do cônsul Roberto Campos, que mais tarde iria ser Ministro do Planejamento. Amizade essa que, também, foi decisiva por ocasião de projeto e aprovação do Decreto-lei nº 288, de 28/02/1967, que criou a Zona Franca de Manaus (o engenheiro Arthur Amorim, naquela altura, era o assessor principal de Roberto Campos).

7. Dadas as dificuldades de transporte, foi fretado o navio “Pachitea” para trazer o equipamento para Manaus, inclusive, todo o equipamento para construção e montagem como guindastes, tratores, caldeiras, geradores, máquinas de solda e outros que eram, absolutamente, necessários para a construção e montagem da refinaria, pois Manaus era absolutamente carente de equipamentos de construção. Foi contratada a empresa Montreal Engenharia S.A., empresa paulista, cujo engenheiro-chefe, sr, Reid, ficou em Manaus como encarregado da construção e montagem sob o sistema do turn-key-job (contrato total até entrega das chaves, com o equipamento funcionando). O total da construção da refinaria, incluindo equipamentos, fretes e custos de montagem alcançou, no final, um investimento da ordem de US$ 5 milhões, em 1956, que hoje equivalem a cerca de US$ 26,0 milhões (fator de atualização do dólar 1956/1992 = coeficiente multiplicador 5,15).

8. A entrada em operação da refinaria verificou-se em 6 de setembro de 1956 e a sua inauguração oficial foi feita no dia 3 de janeiro de 1957, com a presença do Presidente da República Juscelino Kubitschek de Oliveira, sendo o Governador do Estado o Dr. Plínio Ramos Coelho. A COPAM, assim, passou a funcionar atendendo a pequena demanda da Amazônia Ocidental que, naquela altura, não ultrapassava 500 barris por dia e o restante era vendido para o Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba.

9. Do ponto de vista econômico, a fundação da COPAM foi um grande sucesso financeiro para o grupo empresarial Isaac Sabbá, tornando-se em empresa líder e mais lucrativa organização do seu conglomerado empresarial. Graças à COPAM e com os lucros e dividendos por ela gerados, o grupo I.B. Sabbá ganhou nova estrutura no mundo empresarial brasileiro, passando a se tornar uma figura importante no cenário nacional e até no exterior, chegando a merecer reportagens de capa e de páginas inteiras no Time Magazine de New York e Paris Match de Paris.

10. Deste modo, Isaac B. Sabbá não descansou mais e a sua mente, no auge da maturidade e da inteligência criadora, partiu para criar novos empreendimentos como fábrica de compensados, estaleiros, usina de açúcar, tecelagem de juta e muitos outros empreendimentos. É importante salientar que a COPAM marcou, também, em Manaus, o início da fase de sua industrialização moderna, pois sendo obra de infra-estrutura permitiu que fossem criadas condições para investimentos em outras áreas complementares, dependentes e subsidiárias. Não se pode olvidar que a Refinaria de Manaus, pela primeira vez, na Amazônia, cirou o núcleo de uma moderna estrutura industrial, com operariado e profissionais de nível de qualificação, altos salários e benefícios sociais para os trabalhadores. Também os seus equipamentos de construção, guindastes, máquinas de solda foram cedidos, gratuitamente, para a montagem dos geradores e equipamentos da Companhia de Eletricidade de Manaus. O Presidente Aderson Dutra e o Diretor Garcia Llano (depois Superintendente da COPAM e Presidente da Eletronorte que construiu Tucuruí e Balbina) sempre se referiam ao fato de que, sem a ajuda técnica da COPAM, teria sido muito difícil construir a nova usina de luz de Manaus. Também esta companhia recebeu grandes favores de I.B. Sabbá, pois dada as dificuldades do Tesouro Nacional para a remessa de numerário para a sua construção, os diretores acima citados recorriam, semanalmente, ao Presidente da COPAM para receber o seu aval gratuito para pagamento das folhas de salário da usina da C.E.M. e para atender a liquidação dos compromissos dos seus fornecedores.

11. Além de se tornar, assim, o líder máximo da classe empresarial da Amazônia, Isaac. B. Sabbá, naquela altura, também incentivou os seus amigos a trazer empreendimentos para manaus. Um deles, o seu amigo Adalberto Valle deve ser lembrado, pois como seu companheiro e parceiro, participou desse processo de ressurgimento da economia amazonense com os seus dois empreendimentos: a Brasil Juta, uma fábrica moderna de fiação e tecelagem, e a construção do Hotel Amazonas, um hotel que, à época, foi considerado um dos melhores do Brasil. Outros empreendimentos foram atraídos para Manaus, graças à interferência e o prestígio de I.B. Sabbá.

12. Não se limitou a sua ação em atrair novas indústrias e empresários para a área. Projetou a sua ação, também, no campo institucional, ao sugerir e propor a criação da Zona Franca de Manaus, como área de livre comércio, agricultura e indústria, com todas as isenções de impostos federais e estaduais, ao seu amigo e sócio, engenheiro Arthur Amorim, assessor principal do Ministro Roberto Campos, que acatou a ideia e a converteu no Decreto-lei 288, de 28/2/1967. A criação da ZFM teve a sua ideia e implantação construída e elaborada no gabinete do Presidente Isaac Sabbá, na sede do seu escritório, situada à Rua Guilherme Moreira, esquina da Rua Quintino Bocaiúva (onde hoje está localizada as Casas Pernambucanas). Recordo-me que, naquela altura, quando era Diretor da Refinaria de Manaus, diariamente, no seu gabinete, havia reuniões para movimentar a classe empresarial e política, com o objetivo de apresentar o projeto da criação da Zona Franca, partindo de uma resposta geopolítica brasileira ao Decreto Supremo 401-H, de 4/10/1965, promulgado pelo Presidente Fernando Belaunde Terry, conhecido como a Lei da Selva Peruana. Esta lei criava um sistema de incentivos fiscais e especiais nos departamentos de Loreto, Amazonas, San Martin, Madre de Dios, Cajamarca, Libertad, Huanuco, Pasco, Jurin, Ayacuacho, Apurinac, Cuzco e Puno, com sede em Iquitos. Mandamos imprimir milhares de folhetos dessa lei peruana para distribuição no Congresso Nacional, com a ideia de que era preciso que a Amazônia Brasileira criasse um modelo de desenvolvimento comercial e industrial, livre e aberto, capaz de atrair os capitais, empresas e investimentos de todo o mundo, para criar na Amazônia Mediterrânea um centro dinâmico, gerador de emprego, renda e produção.

13. Isaac Sabbá se tornou, assim, uma figura obrigatória e ponto de referência para toda a economia amazônica e sua presença era solicitada em toda a parte. Na porta do Ideal Clube, nos altos da Avenida Eduardo Ribeiro, reuniam-se, todas as noites, os seus amigos para ouvir as suas conversas, opiniões e conselhos, e a sua casa, na Rua Monsenhor Coutinho, tornou-se um centro de visita permanente de recepção dos convidados oficiais do Estado, bem como o seu sítio no km 6 da Estrada Manaus-Itacoatiara, onde, aos domingos se reunia com os amigos para uma dose de whisky, almoço e banho de piscina de igarapé.

14. A Refinaria de Manaus permaneceu como matriz e principal empresa do grupo Sabbá durante cerca de 14 anos, a partir de sua inauguração em janeiro de 1957. O seu corpo técnico e profissional, altamente qualificado, e a sua localização estratégica no centro da Amazônia, assegurou-lhe, durante todo o tempo, bons dividendos para os seus acionistas, bons salários para os seus operários e engenheiros e grandes receitas diretas e indiretas ao erário, através do imposto único sobre combustíveis e outros tributos. A ideia e a visão de Isaac Sabbá, ao construí-la, foi um marco na história da industrialização regional. Ainda mais, inspirada na vocação e no destino de atrair para o coração da Amazônia Mediterrânea, essa ideia foi uma premonição do que iria ocorrer, na Amazônia Ocidental, com as primeiras descobertas de petróleo na região de Nova Olinda, no rio Madeira (nessa altura acompanhei Isaac Sabbá, em lancha, para visitar essa área, tendo Isaac Sabbá, com o seu entusiasmo e despreendimento, doado à Petrobrás, um tanque de 5.000 barris de capacidade, para armazenar o petróleo de Nova Olinda), e depois, mais recentemente, com o surgimento dos campos e poços de petróleo e gás do Juruá e do rio Urucu.

No início da década dos anos 70, o império criado por I.B. Sabbá com o seu conglomerado de empresas dava emprego direto a cerca de 6.000 pessoas, atingindo, assim, a aproximadamente 30.000 pessoas, incluindo os familiares de cada trabalhador. Como Manaus tinha, em 1970, 311.622 habitantes e uma população economicamente ativa de 120.000 pessoas em idade de trabalho, podemos concluir que as empresas do grupo davam emprego a 5% da população urbana de Manaus. Se formos calcular os empregos indiretos criados pelos seus investimentos, esse percentual facilmente atingiria a 15% da população trabalhadora que estava direta ou indiretamente ligada aos seus empreendimentos. Esse grupo era, por sua vez, o maior contribuinte de todos os impostos federais, estaduais e municipais do Estado do Amazonas.

Para melhor avaliar a ação do grupo I.B. Sabbá, em Manaus e na região, a seguir enumeramos as empresas e estabelecimentos criados por ele ou a ele coligados, subsidiárias ou associadas, ao longo de sua ação empresarial:

  1. J. Sabbá & Cia.

  2. Perez, Sabbá & Cia.

  3. I.B. Sabbá & Cia. Ltda.

  4. Indústrias I.B. Sabbá S.A.

  5. Petróleo Sabbá S.A.

  6. Usina Alegria.

  7. Usina Labor.

  8. Usina Vitória.

  9. Usina Triunfo.

  10. Serraria Rodolfo.

  11. Serraria Hore.

  12. Serraria Santarém.

  13. Serraria Itacoatiara.

  14. Fazenda Cacaia (criação de gado).

  15. Cia. Agrícola e Industrial da Amazônia S.A. – Ciazônia (plantação de cana-de-açúcar).

  16. Curtume Rio Negro.

  17. Usina de Paurosa-Educandos.

  18. Fábrica de Latas e Tijelinhas.

  19. Terminal de Combustíveis de Manaus.

  20. Terminal de Combustíveis de Porto Velho.

  21. Terminal de Rio Branco/Acre.

  22. Terminal de Santarém/Pará.

  23. Terminal de Combustíveis de Belém.

  24. Terminal de Combustíveis de São Luiz.

  25. Companhia de Petróleo do Amazonas (COPAM) – Refinaria de Manaus.

  26. Companhia Paraense de Embalagens (tambores) (Belém).

  27. Fitejuta S.A. (Manaus)

  28. Fiação e Tecelagem Taubaté S.A.

  29. Eletro-Ferro, Ferragens e Construção S.A.

  30. Escritório e Filial do Rio de Janeiro.

  31. Norte Brasileira de Látex S.A.

  32. Estaleiro da Amazônia S.A. (Estanave).

  33. Cia. de Navegação da Amazônia.

  34. Arthur Reis (Navegação e Transportes) Ltda.

  35. Companhia Comissária Exportadora Ltda.

  36. Companhia Agro Industrial de Madeiras da Amazônia “Compensa”.

  37. Companhia de Desenvolvimento da Amazônia (Desenvol).

  38. Mineração Rondônia Ltda.

  39. Mineração São-Lourenço Ltda.

  40. Mineração Jacundá Ltda.

  41. Cia. Desenvolvimento Agro-Industrial de Rondônia S.A.

À medida que o grupo Sabbá se expandia, alcançado através de suas empresas, filiais e estabelecimentos industriais, agrícolas, comerciais e de serviços, aumentava o seu poder e influência nos círculos empresarias e políticos. Igualmente crescia, paralelamente e de modo disfarçado e oculto, a inveja e o temor de que seu poder e riqueza estava grandes demais para caber dentro de uma cidade pequena e provinciana como Manaus. Para ele convergiam pedidos de toda a sorte, de emprego, auxílio, ajuda, apoio político, contribuições, donativos. Isaac Sabbá, com 63 anos na altura de 1970, tentava desvencilhar-se dessa trama de interesses e pressões que aumentavam e se originaram de muitos setores. Foi contratado um grupo de auditores para estudar o problema e a solução encontrada pelos especialistas é de que o fundador e presidente do grupo deveria mudar-se de Manaus e ir morar no Rio de Janeiro, onde estaria livre dessas pressões. Uma diretoria profissional e executiva deveria assumir o controle de seus negócios e tocar a administração do quotidiano, cabendo a ele, à distância, ler os relatórios, controlar e tomar as grandes decisões estratégicas.

Isaac Sabbá recusou-se a aceitar tal situação. Afinal, ele gostava e amava a sua cidade. Aqui havia casado com D. Irene Assayag Gonçalves, de Parintins, e com quem havia construído um lar e uma família, com seus quatro filhos ainda adolescentes: Moysés, Alberto, Mário e Esther. Resolveu persistir no seu próprio caminho, tocando o seu grupo através a equipe de executivos, gerentes e assessores, que o ajudavam na tarefa administrativa. Ele tinha orgulho de dirigir as suas empresa e comandar pessoalmente a sua organização.

O primeiro susto e sinal de que o seu império estava sendo visitado por inimigos foi dado na antevéspera da Revolução de 31 de março de 1964, quando João Goulart, através do Ministro Waldir Pires, ordenou a encampação da Companhia de Petróleo da Amazônia, em favor da Petrobrás, à semelhança do que havia mandado fazer com a Refinaria União, Manguinhos e Ipiranga. As refinarias particulares incomodavam a Petrobrás e era preciso dar a esta monopólio absoluto do refino, mesmo por aquelas refinarias particulares autorizadas a funcionar antes da Lei 2004, de 31/10/1953. O nacionalismo, o estatismo e o populismo de João Goulart acabaram sendo derrotados pela Revolução de 31 de março de 1964, que colocou no poder o Marechal Castelo Branco e instituiu o governo revolucionário dos presidentes militares. O decreto de encampação foi revogado e o grupo respirou aliviado.

O grupo nacionalista, no entanto, continuava na sua campanha para eliminar a iniciativa privada na área do petróleo. I.B. Sabbá, sentindo novamente a ameaça, resolveu criar uma diretoria composta de ilustres figuras, de projeção nacional, para dirigir a Refinaria de Manaus. Assim, a nova diretoria foi constituída com os nomes do Ministro Marcondes Ferraz (engenheiro e idealizador da Hidrelétrica de Paulo Afonso, no rio São Francisco), Almirante Pinto Guimarães, Benedito Dutra, além dos antigos diretores Arthur Amorim, Haroldo e Roberto Levy, Samuel Sabbá, Moysés Israel e Samuel Benchimol, tendo como assessores Armando dos Santos e Julio Souza. Nessa altura, também, resolveu-se mudar a Superintendência da Refinaria, que era dirigida pelo engenheiro Weiser, de origem alemã e nacionalidade americana, por um engenheiro ancional, recaindo a escolha no engenheiro Garcia Llano, que mais tarde viria a ser presidente da Eletronorte e construtor de Tucuruí e Balbina.

Apesar dessa tentativa de controlar a exacerbação do nacionalismo e estatismo que, mesmo, no período da Revolução de 1964, continuava a existir; esse movimento trabalhava visando fortalecer o sistema do monopólio estatal de petróleo. Nesse sentido, foram feitas inúmeras advertências e pressões por partes das autoridades encarregadas de conduzir a política de petróleo no País. Entre essas pressões, destacamos a proibição às refinarias particulares de realizar importações diretas para compra de petróleo do exterior, retirando, assim, a nossa capacidade de barganha de preços e de escolha da qualidade do petróleo que mais nos convinha. Esse foi um grande golpe para a Refinaria de Manaus, projetada para operar com petróleo peruano da Ganso Azul de 40 API, um óleo leve, complementado pelo petróleo da Venezuela, do tipo Recon- Blend, ou do tipo Assi- Messaud da Argélia, ou do Zueitina da Nigéria, todos do tipo leve, que nos permitia retirar 50% de gasolina, 5% de querosene, 20% de diesel, 18% de fuel oil (óleo combustível), 4% de GLP e 3% de derivados para consumo da própria refinaria. Fomos forçados a receber petróleo comprado e revendido pela Petrobrás do tipo pesado, a fim de atendermos a demanda crescente do óleo combustível por parte da Companhia de Eletricidade de Manaus. Esse foi um golpe duríssimo, pois este último produto tinha um preço de venda abaixo do custo de produção. Um alto percentual dessa produção em nossa torre de craqueamento catalítico significava prejuízo certo. Perdemos, assim, a capacidade de opção e escolha e ficamos à inteira mercê das autoridades que, a partir daí, poderiam passar o atestado de óbito da Refinaria de Manaus, no momento em que assim o decidissem.

Nessa altura, também, a autorização para refinarmos mais 2.000 barris de petróleo, além da nossa capacidade autorizada de 5.000 barris por dia, foi ameaçada de nos ser retirada, exigindo da COPAM que ela refinasse essa quota por conta da Petrobras, cabendo, apenas, à COPAM cobrar o custo e as despesas do refino, sem qualquer parcela de lucro. O cerco estava sendo fechado e os balanços da COPAM que, outrora, distribuíam 25% de lucro aos seus acionistas, começaram a cair e a perder rentabilidade, passando praticamente a operar no vermelho.

As pressões não ficaram restritas ao setor de petróleo e da Refinaria. O grupo Sabbá passou a ser visado pelo Fisco Federal, numa operação pente-fino, comandada pelo GIFES (Grupo Intensivo de Fiscalização Especial), para detectar alguma irregularidade. O grupo de auditores passou seis meses investigando a empresa. Como a COPAM era uma empresa transparente e super organizada nada encontraram de irregular. No entanto, uma outra empresa do grupo – a Compensa – que passa, há muito tempo, por situação financeira difícil e problemas organizacionais e de mercado, perdendo dinheiro com sucessivos prejuízos, há mais de dez anos, encontraram Notas Promissórias, emitidas irregularmente por um dos seus aviados-madeireiros que, abusando da extrema benevolência e magnanimidade do Sr. Isaac, pedia avais e depois adulterava os seus valores originais, o que causou sérios prejuízos e transtornos para o grupo. Outras empresas do grupo sofreram pesadas multas e a longa permanência dos auditores, enviados de Brasília, transtornaram o bom andamento dos negócios e da administração. Ao invés de procurar vendas, oportunidades e receitas novas, I.B. Sabbá passou a se dedicar mais à administração de conflitos e disputas fiscais e judiciais, porém acabou obtendo ganho de causa junto ao Conselho dos Contribuintes.

Ao final, veio o grande golpe há muito planejado nos bastidores da República. O General Ernesto Geisel, Presidente de Petrobrás, veio a Manaus e fechou a compra do controle acionário da Refinaria de Manaus a I.B. Sabbá, de longo tempo negociada através do General Arakem de Oliveira, Presidente do Conselho Nacional de Petróleo, para que esta se tornasse uma subsidiária da empresa detentora do monopólio estatal . I.B. Sabbá sentiu que não podia resistir mais às pressões políticas, fiscais e econômicas contra as empresas do seu grupo. O General muito cortês, porém severo, conduziu as negociações de modo a exaltar a figura e o papel do seu fundador, assegurando que essa compra era necessária para que o ideal de I.B. Sabbá pudesse ser realizado. Ele se comprometeu, nas negociações, a ampliar a capacidade de refino da COPAM para 25.000 barris por dia, a fim de atender a grande demanda da área. Caso contrário, uma nova refinaria iria ser construída em Belém, ou outro lugar mais vantajoso, à escolha da Petrobrás.

Isaac Sabbá não teve, nesse episódio, nenhum apoio político dos senadores, deputados, governadores do Estado do Amazonas e da Amazônia, nem da imprensa ou da opinião pública, nem de qualquer uma das outras classes do Estado. Afinal, estávamos sob o regime autoritário dos militares e o AI-5 podia, sempre, ser acionado quando necessário. Ele não teve outra alternativa. Fechou o negócio com o General Geisel, Presidente da Petrobrás, conforme contrato assinado em data de 30 de dezembro de 1970, em sessão solene realizada no Ideal Clube, comemorada pela burocracia estatista vencedora, com whisky e canapés. Por esse contrato, o grupo I.B. Sabbá e seus familiares recebiam da Petrobrás a importância de 32 milhões de cruzeiros, equivalentes à época, pela taxa de câmbio, de 30/12/1970, de Cr$ 4.920/US$1,00, a um valor de US$6.504.065,00.

Foi um autêntico negócio da China para a Petrobrás. Naquela altura, avaliava-se o preço da compra de uma refinaria na base de US$5.000 por barril de capacidade. Assim, a COPAM, por esse cálculo da regra-do-polegar deveria valer US$50 milhões, e a Petrobrás havia adquirido 52% do seu controle acionáro por apenas US$6,5 milhões. Melhor ainda, ela não teve que desembolsar um único cruzeiro, pois a COPAM tinha em dinheiro e em depósito à vista nos bancos de Manaus cerca de Cr$40 milhões. O General Geisel, assim, com o dinheiro vivo da própria COPAM, assinou o cheque que entregou ao sr. Isaac Sabbá, naquele final do ano de 1970, no salão nobre do Ideal Clube, enquanto o povo feliz e iludido comemorava a vitória do monopólio estatal sobre a iniciativa privada. A imprensa anunciava que o grande vencedor era o Estado do Amazonas que, em breve, iria contar com uma nova refinaria com capacidade de 25.000 barris por dia, a fim de atender a demanda da região e, mais ainda, implantar um pólo petroquímico em Manaus, que essa nova dimensão tornaria viável. Os estudos, nesse sentido, o líder Isaac Benayon Sabbá já havia feito, através de uma empresa especializada que admitia a grande rentabilidade desse pólo, que deveria produzir tolueno, benzeno e xileno, os três produtos aromáticos de maior valor na indústria petroquímica, mas que, somente, poderia ser criado se a capacidade de refino fosse elevada para 25.000 barris/dia.

Assisti a essa cerimônia que foi, na verdade, o Baile da Ilha Fiscal do grupo empresarial Sabbá. Estive ao lado do nosso Presidente e amigo Isaac todo o tempo e ele disfarçava a frustração com o otimismo dos crentes, dizendo que estava fazendo esse sacrifício para o bem do Amazonas. Em breve, a sua refinaria sonhada nos anos 50, inaugurada em 3 de janeiro de 1957, e que foi o grande marco da industrialização do Amazonas, iria alçar um voo mais alto, pois a Petrobrás iria concretizar o sonho de I.B. Sabbá, para transformá-la num pólo maior com tecnologia avançada de petroquímica, tal como ele havia idealizado.

A promessa ficou no papel e passados, hoje, 24 anos depois da tomada do controle acionário, nenhuma ampliação foi feita, a não ser pequenas modificações no processo original, que já previa a sua expansão para produzir 10.000 a 11.000 barris por dia, com pequenas alterações no seu equipamento. Aumentou, apenas, a sua capacidade de tancagem , armazenamento, instalações portuárias e construção de escritórios. Nesse ínterim, a demanda da Amazônia Ocidental subiu para cerca de 40.000 barris/dia, dos quais 11.000 barris produzidos pela REMAN, como passou a ser denominada a COPAM, e 29.000 barris importados de Madre de Deus, da Bahia, Cubatão, Duque de Caxias e do exterior. Se levarmos em conta a demanda da Amazônia Ocidental, o consumo de derivados de petróleo e álcool deve se aproximar de 70.000 barris/dia, o que faz aumentar, hoje, a dependência da região de derivados do exterior, ou produzido por outras refinarias, com elevado gasto de divisas e de transporte, quando essa produção poderia estar sendo gerada pela Refinaria de Manaus.

Um simples cálculo poderia bem ilustrar o tamanho da perda que a região sofreu com o não cumprimento da promessa da Petrobrás de ampliar a Refinaria de Manaus para atender a demanda da região. O consumo atual da região amazônica, segundo estatísticas do IBGE de 1990, é de 2.328.361 m3/ano de gasolina, querosene e óleo diesel, de 637.615 ton/ano de óleo combustível e gás de cozinha; e de 1.169.967 m3 de álcool elítico e hidratado. Essa demanda, quando convertida em barris, equivaleria a aproximadamente o consumo atual de 70.000 barris/dia, sendo que o maior peso é representado pelo consumo de óleo diesel, responsável pelo funcionamento das termo-elétricas e operação dos motores das embarcações – consumo anual de 1.704.288 m3 (29.385 barris/dia), comparados com um consumo de 624.073 m3 de gasolina e querosene (equivalentes a 10.760 barris/dia). Pois bem, se a Refinaria de Manaus, ao invés do 11.000 barris/dia que processa (inferior à produção de 13.000 barris/dia extraídos dos poços do rio Urucú que, em parte, é exportada por se tratar de um petróleo leve e sua produção estar acima da capacidade de refino da REMAN), passasse a produzir a demanda de 40.000 barris/dia de derivados da Amazônia Ocidental e considerando um valor final de mercado de consumidor de US$30 por barril de derivados (comparados com um custo de US$ 15 por barril de petróleo bruto FOB na origem), teríamos um faturamento anual de US$ 420 milhões contra US$ 115 milhões atuais. Essa diferença dá uma perda de faturamento de US$ 305 milhões/ano, que iria gerar um pagamento adicional de cerca de US$ 30 milhões/ano de ICMS ao Estado do Amazonas. Se a capacidade da REMAN fosse aumentada para atender a demanda total da Amazônia Clássica, de 70.000 barris/dia, o faturamento total subiria para US$ 735 milhões. Nesse caso, a Refinaria de Manaus, como não se modernizou, nem ampliou a sua capacidade de produção para atender a totalidade de consumo da Amazônia, está tendo uma perda anual de faturamento e de custo de oportunidade da ordem de US$ 620 milhões. Estes números merecem reflexão, pois sinalizam que o atraso e a estagnação da Amazônia, em grande parte, é também produto da ausência de investimento na infraestrutura econômica, que possibilite aos setores estratégicos suprirem as necessidades básicas da área. Neste caso, não foi apenas o grupo Sabbá que sofreu perda irreparável no seu patrimônio e no seu potencial de crescimento. Perda maior sofreu a região em termos de emprego, renda, impostos e de ampliação de sua capacidade de diversificação produtiva, pelo não cumprimento de uma promessa solene, jurada na véspera do ano novo de 1971.

Após a perda da Refinaria de Manaus, o grupo Sabbá passou a enfrentar inúmeras dificuldades advindas de muitas fontes e origens. O seu ilimitado crédito na rede bancária ficou restrito, pois não tinha mais o poder de barganha, proporcionado pelos milionários da COPAM nos bancos de Manaus, que eram avidamente disputados pelos gerentes desses estabelecimentos. Também saíram de sua equipe que havia de melhor em termos de executivos e profissionais que trabalhavam na COPAM, mas que, ao mesmo tempo, ajudavam o sr. Isaac na assessoria dos seus outros projetos de investimentos. Como a COPAM era grande acionista da Companhia de Navegação da Amazônia, dos estaleiros Estanave, da Spuma e outras empresas, estes passaram, também, para o controle da Petrobrás.

Os reflexos da perda dessa principal fonte de lucros do grupo atingiu, também, a Companhia Industrial de Compensados da Amazônia – Compensa. Desde o início esta funcionou com déficit, pois o seu equipamento obsoleto havia sido adquirido na Tchecoslováquia, por imposição do BNDE para poder usar os superavits das moedas- convênio, na falta de dólares livres para importar equipamentos de alta qualidade da Finlândia ou dos Estados Unidos. Esses déficits se agravaram e não tinham mais o fluxo de lucro e de dividendos da COPAM para os cobrir. Isto forçou a empresa a se endividar, ainda mais, a juros elevados e correção monetária, a taxas extremamente altas. As usinas de borracha, por sua vez, estavam atravessando dificuldades para vender aos fabricantes de pneumáticos no sul do país, pois estes preferiam importar o produto da Malásia, Indonésia e Cingapura, a preços inferiores e de melhor qualidade. A juta começava a entrar em decadência com o advento do polipropileno, das fibras sintéticas e do transporte a granel e em “container”.

O Departamento de Petróleo de I.B. Sabbá & Cia. Ltda., com terminais em Manaus, Belém, São Luís, Terezina, Santarém, Itacoatiara, Caracaraí, Porto Velho e Rio Branco, no ano de 1971, foi transformado em Petróleo Sabbá S/A. Nessa ocasião, foram transferidas 52% de suas ações para a Shell Brasil S/A, ficando 48% do capital com o grupo Sabbá. Esta empresa, objetivando a sua sobrevivência nos negócios de distribuição de petróleo, decidiu juntar esforços e recursos nessa joint-venture com a Shell, com a finalidade de criar uma distribuidora regional que pudesse manter a sua posição no mercado e acompanhar o seu crescimento. Os fatos demonstraram, hoje, a validade dessa iniciativa, pois a Petróleo Sabbá está entre as três maiores empresas da região amazônica em lucro, eficiência e faturamento, sendo que, atualmente, I.B. Sabbá S/A detém 20% do capital social da Petróleo Sabbá S/A.

O grupo sofreu, também, grande perda na sua equipe, quando Moysés Benarrós Israel, desejando ter o seu próprio negócio, resolveu retirar-se das sociedades de que fazia parte, através de uma cisão patrimonial que transferia o acervo das Serrarias Rodolfo, Hore, Itacoatiara e alguns imóveis para o patrimônio de uma nova empresa independente que estava constituindo sob o nome de CIANORTE. Outros assessores profissionais tinham, também, deixado a equipe, sendo que foi muito sentida a perda do contador, auditor fiscal e conselheiro Armando dos Santos, que passou a ser Diretor da nova refinaria da COPAM, agora sob o controle da Petrobrás. O grupo, também, se ressentiu com o falecimento de dois dos seus leais e eficientes gerentes: Emanuel Ribeiro dos Santos e Jacaúna Maia, e com a aposentadoria do seu gerente de exportação sr. Gerard Lindenberg.

A Zona Franca de Manaus, idealizada por I.B. Sabbá, pela qual havia tanto lutado, passou a atrair centenas de novos empresários e arrivistas, que chegavam apressados para “fazer a Amazônia”. Os incentivos fiscais generosos dados a esses novos empreendimentos industriais recebiam prioridades, créditos e benefícios que as indústrias tradicionais não tinham. Os negócios de exportação cederam espaço para indústrias de montagem de produtos eletro-eletrônicos e dos outros polos controlados por empresas multinacionais ou do sul do país. O empresário nativo perdeu, assim, poder e importância, pois as fontes de lucro e faturamento se transferiram para outros centros de decisão.

O grupo começou, assim, a declinar de prestígio, perdendo rentabilidade e influência. Não houve renovação nos quadros funcionais, nem se realizou a profissionalização nos quadros executivos da empresa, apesar de inúmeras tentativas para recrutar pessoas competentes e de nível. Deste modo, o grupo empresarial, após a perda da empresa líder COPAM, entrou num plano inclinado de decadência. Nos meados da década dos anos 70, o fundador I.B. Sabbá completava 70 anos, extremamente lúcido, inteligente e ainda disposto a recomeçar a luta. Enxugou a empresa, vendeu parte de seus imóveis, transferiu o escritório para a sua residência na Rua Monsenhor Coutinho para reativar a exportação de produtos regionais, que foi sempre a grande paixão de sua vida.

Para agravar a situação surge o processo sucessório, quando o filho mais velho Moysés Gonçalves Sabbá, um competente economista e executivo, passou a assumir as principais tarefas gerenciais, sem que a sucessão tivesse sido ainda bem definida. Por isso, a despeito de sua habilidade, tornou-se difícil, assim, conciliar os interesses de toda a família. Além disso, o setor primário e extrativista, onde o grupo sempre trabalhou, foi grandemente abandonado por todos os governos, que adotaram o modelo industrial-importador da Zona Franca de Manaus como seu principal objetivo.

Neste cenário, o velho fundador e pioneiro da industrialização da Amazônia viu celebrar os seus 80 anos de vida, em 1987, no qual amigos e funcionários foram prestar sua homenagem ao grande lutador de tantas batalhas e iniciativas em prol do desenvolvimento da economia amazonense. Ainda estava com muita lucidez, extremamente inteligente e bem informado da situação econômica geral, pois sempre acompanhou os acontecimentos através da leitura constante dos jornais e revistas econômicas especializadas.

Continuava como sempre, otimista e bem humorado, com a mente ainda jovem e ágil, porém os anos, sem dúvida, haviam deixado a sua implacável marca no andar, na vista e no falar. Os amigos e admiradores, na medida em que não podiam mais dele obter favores e benesses, foram deixando de visitá-lo e, assim, ele foi-se isolando no seu gabinete de trabalho, cumprindo as suas tarefas e tomando as suas decisões em meio a tantos problemas que passaram a se acumular à sua volta. Era ainda um homem razoavelmente rico, mas o império das indústrias que construiu com tanto amor, trabalho e inteligência, já não mais existia. Dele restavam alguns escombros de empresas que iam conseguindo sobreviver à custa de muito sacrifício e perda patrimonial.

Recentemente ele completou, em fevereiro/94, 87 anos. Poucos e raros amigos foram visitá-lo. Recebeu-os como sempre, em seu gabinete de trabalho, com cortesia e começou a falar dos seus tempos de glória e apogeu, cercado de medalhas, condecorações, diplomas de mérito, títulos de cidadão honorário, outorgados pela Câmara Municipal e Assembleia Legislativa, fotografias, recortes de jornais e revistas de um passado que pouca gente ainda se lembra, quando ele dava empredo a 6.000 trabalhadores e deu o impulso decisivo para a industrialização do Amazonas.

Ao findar os cumprimentos ele se recolheu aos seus aposentos. Solitário e imerso no seu passado grandioso de muitas memórias, recordações e lutas. Talvez, na sua vigília e na penumbra das suas lembranças tenha-se recordado do vulto esbelto, magro, baio e pequeno de um jovem de olhos muito azuis, que chegou a Manaus em 1922 e que na luta pela sobrevivência, para economizar o dinheiro do bonde, percorria a pé, todos os dias, a Avenida Joaquim Nabuco até o Alto de Nazaré e o Boulevard, a fim de fazer a praça vendendo os cigarros Camões, a 200 réis por carteira, para ganhar uma comissão de 5%. Mais fundo, ainda, na regressão do tempo, talvez se lembrasse do seu velho pai Primo Sabbá, dos tempos de opulência de Cametá e da época de crise em Belém, quando caminhava a pé, do Largo da Pólvora para o seu humilde emprego de ferroviário na Estrada de Ferro de Bragança. Recuando no tempo, um pouco mais longe, nessa viagem à procura de seus ancestrais, talvez se tenha lembrado da figura dos seus avós Jacob/Yacot Sabbá e Samuel/Esther Benayon, caminhando nas ruas e vielas da juderia de Tanger em direção ao navio que os transportou, como migrantes, para realizar a grande aventura na Amazônia, em busca de um novo lar e de uma nova pátria.

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