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Resenha: The Headmaster Ritual (The Smiths) – a obra atacando o atraso educacional

Por Alexandre Neves Solórzano

Nos meados da década de 1970, Morrissey, vocalista dos Smiths, banda britânica que recheou os anos 1980, cursava o seu segundo grau em alguma escola de Manchester (RU). Os ingleses parecem compadecer-se com aqueles que percebem uma certa violação, sentimento que se torna legítimo quando exposto por quem alega a necessidade de ser e sentir-se “livre”, de qualquer forma, mas “livre” do que parece ser uma corrente durantes anos a fio. Um sistema educacional atrasado educa seres humanos para outra época, um momento já não condizente com a atual realidade. Essa situação agride jovens de países desenvolvidos e subdesenvolvidos, o que descarta apenas o fator econômico das nações.

A canção que trago ao público é do álbum Meat Is Murder, de 1985, e é um tanto quanto hiperbolizada, com associações bem loucas entre um presídio e uma escola. Fantasmas bélicos comandam as escolas de Manchester é a frase que abre a canção, e dá para extrair daí a revolta do já adulto Morrissey, que tem o seu momento de escola como um dos piores da sua vida. Você já se sentiu assim? Isso nos leva a pensar sobre a eficiência de algo que nega virtudes, que vai na contramão do individualismo natural de cada ser humano. Foca-se, novamente, na imagem de uma liberdade intelectual furtada, de um coletivismo enfiado goela abaixo em quem passa pelo sistema, já demonstrados na resenha do álbum The Wall, da banda Pink Floyd, também britânica.

Ao longo da canção, tem-se uma rotina de agressões e abusos sofridos pelo eu-lírico, como cotoveladas, xingamentos e um tratamento semelhante ao de um quartel. O professor lidera as tropas, com inveja da juventude, o mesmo terno velho desde 1962 evidencia uma postura autoritária por parte dos profissionais em questão. A crítica vai de um relato pessoal a um cenário repleto de detalhes que possibilitam e incentivam tratamentos assim: a simples obrigação de aprender matérias que não são de seu interesse, como fosse um bebê incapaz, é, em si, uma atitude autoritária. Não é precisa levar umas porradas para entender que você não está num lugar por vontade própria, tampouco se esse lugar é um ambiente hostil, como o retratado na canção. O apelo do garoto que deseja ir para casa não poderia exemplificar melhor o que é sentir a limitação na pele, mesmo que não se entenda isso.

Como conclusão, vale indicar toda a obra dos Smiths, que possui um abrangente conteúdo existencialista, crítico-social e também focado nas questões da juventude. Eu quero ir para casa, eu não quero ficar aqui é a emblemática frase dita tão fortemente pelo vocalista, que pode ser remetida a todos os ambientes onde o sistema de ensino carece de uma renovação. Essa parte que nos toca, a educação, é o foco central de qualquer pudor pelo desenvolvimento e pela liberdade. Morrissey exagerara tanto assim ao associar casos de violência à rotina escolar? Limitar conhecimento em prol de uma suposta disciplina não pode ser tido como uma violência? Cabe a nós interpretarmos as obras que estão sendo indicadas por aqui e construirmos uma linha lógica para averiguar a veracidade dessas críticas. Ouça a canção e tire suas próprias conclusões!

Resenha: Monumento às vítimas do comunismo – Praga e suas obras anticomunistas

Por Alexandre Neves Solórzano

 

O Comunismo, como todos aqueles que acompanham as atividades do Clube Ajuricaba já sabem, devastou partes do continente europeu de uma forma que respinga até os dias atuais. Pode ser visto nos países que ficam ao leste da Europa, por exemplo, uma maior incidência de pobreza e atraso no que tange a economia e o próprio IDH do país. Na Tchecoslováquia não fora diferente. Quando o Partido Comunista venceu as eleições parlamentares no país em 1946, muitos já suspeitavam do provável dano que tal acontecido poderia vir a causar. E em 1948, não para uma surpresa tão grande, houve um golpe e os comunistas tomaram o poder total na Tchecoslováquia.

Os quase cinquenta anos de domínio comunista na região europeia contaram com expulsões de liberais e invasões de países da URSS que contemplavam o Pacto de Varsóvia: o governante Alexander Dubcek, que buscava dar uma abertura econômica no país, foi imediatamente deposto no final dos anos de 1960 e todos os seus apoiadores exilados após a entrada de Gustáv Husák, que se tornou líder do Partido Comunista e fez questão de tal ação. Ou seja, desde os primórdios do período da pós-II Guerra Mundial a cidade de Praga, assim como o que hoje é a Eslováquia e a República Checa, não teve um século XX recheado dos benefícios sociais apresentados pela liberdade.

Por consequência lógica, o salto temporal do fim do período comunista do país até os dias atuais ressaltam uma Praga exacerbadamente anticomunista, contando com a existência de obras de artes que não dispensam a visita dos turistas. Além do gigante dedo do meio roxo direcionado ao Castelo de Praga, no meio do Rio Moldava, e das gigantes nádegas em que você pode pôr a cabeça e assistir políticos do século XX comendo ao som de “We Are The Champions”, da banda inglesa Queen, há também uma das esculturas mais marcantes de toda a Europa: o monumento que retrata as vítimas do comunismo foi inaugurado no dia 22 de março de 2002, pelo artista Olbram Zolbek, e choca até os dias atuais.

As estátuas representam indivíduos caminhando com uma aparência ofegante, estão macérrimos e demonstram uma constante decomposição. A crítica central recai sobre como a ideologia comunista tende a deteriorar o caráter humano e, também, destruir fisicamente toda uma população. Basta compararmos tudo isso ao que conhecemos atualmente na Venezuela, na Coréia do Norte ou em outras nações praticantes de vertentes socialistas. A obra choca não somente pela aparência das esculturas, mas principalmente pela carga histórica depositada na criação. Olbram, autor da obra, dedicou sua produção à todas as vítimas do comunismo e à todos aqueles que amam a liberdade. O artista, que nasceu em 1926, pode presenciar bem o que fora a destruição comunista em seu país, o que impediria qualquer inclinação sua ao lado mais à esquerda do espectro político, diferentemente de grande parte dos artistas que nunca presenciaram um regime socialista ou foram censurados pelo mesmo. Vale ressaltar que a decomposição retratada é representada por estátuas realmente pela metade, onde vemos um indivíduo sem metade de cima do corpo, com um buraco aberto no peito ou com pequenos furos ao longo do corpo.

É pela noite que o cenário torna-se mais amedrontador e nostálgico, que quando recheado pela neve remonta, talvez, cenas comuns de pobres trabalhadores corroendo-se com o frio da região, acompanhados pela precária situação econômica do país e a repressão do governo comunista. O monumento encontra-se numa escada em meio a uma ambiente florestal, e nele consta uma placa explicativa: 205,486 prisões, 170,938 exilados, 4,500 mortos nas prisões, 327 abatidos enquanto tentavam fugir, 248 executados. Além dos dados apresentados, na placa há a seguinte frase: “Este memorial é dedicado a todas as vítimas: não apenas aos que foram emprisionados e perderam a vida, mas também aos que viram a sua existência arruinada pelo despotismo totalitarista”.

Hoje Praga goza de obras de arte demasiadamente interessantes àqueles que são contrários à ideologia comunista, e vale a pena estudar sobre tais obras para poder compartilhar um pouco mais dos sentimentos de outros adoradores da liberdade de expressão e econômica. Hoje, a República Checa pode se mostrar como uma das nações mais desenvolvidas do período pós-comunista. Com um IDH invejável até para aqueles que não tiveram uma ditadura sanguinária em sua história, o país cresce cada vez mais com o turismo, tendo a cidade de Praga, país em que residem grandes obras de arte do período gótico e barroco, assim como as citadas por aqui, o foco central da procura turística.

Resenha: Metal Contra As Nuvens – um registro libertário

Por Alexandre Neves Solórzano

Quem diria que a maior banda de Rock da história do Brasil, Legião Urbana, seria um grupo musical liderado por um autoproclamado capitalista? O paí­s que possui em sua carga cultural o marxismo como aperitivo apresenta, dentro de seus registros, uma década de 1980 marcada por bandas de vieses abertamente esquerdistas, e a trupe de Renato Russo passara com um nado contra a corrente rumo ao reconhecimento nacional. As mensagens transmitidas por Russo, Dado e Bonfá tinham em seus respectivos códigos a marca de um espí­rito independente, livre e, principalmente, sincero. A liberdade era uma temática constante na banda.

Para evitar alongamentos a respeito da totalidade da Legião Urbana, alguma resenha futura apontará mais caracterí­sticas do célebre grupo. Nesta resenha em questão, trataremos de uma canção densa e que divide opiniões dentre os ouvintes da banda: Metal Contra As Nuvens, do Álbum V (1991).

Para analisar mais claramente o resumo do que tenta ser dito na obra em questão, é preciso retomarmos à mente a perspectiva individualista já citada em outras resenhas: um indivíduo em busca de alguma verdade, preso não somente pelos limites da sociedade mas também em sua própria existência. Além disso, é preciso lembrar da recorrente busca por liberdade nas letras existencialistas de Renato Russo. O que seria tal liberdade num âmbito crítico do ponto de vista libertário ou de um ponto de vista contrário ao Estado forte convencional da história brasileira? Quiçá uma simples confirmação de nossas tão almejadas ilimitações de pensamento e produção? Renato cantava o apelo por autonomia, acima de tudo, nos primeiros versos da canção:
“Não sou escravo de ninguém
Ninguém é senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E por valor eu tenho e temo o que agora se desfaz”
A provável arbitrariedade de qualquer análise ideológica pode desvirtuar a real intenção de Russo ao escrever a letra da canção. Entretanto, suas alegações a respeito de algumas questões como valores tradicionais, família e propriedade não deixam dúvida de qual lado o letrista se identificava mais. Autodenominando-se “capitalista” em entrevistas antológicas, Renato confirmava a Legião Urbana no patamar de defensores da liberdade econômica. Enquanto Plebe Rude pedia por uma distribuição de renda igualitária, a Legião Urbana recitava em suas canções o preço de um Estado gordo sobre a cabeça do povo.
Metal Contra As Nuvens não é tão difícil de ser compreendida quando se analisa e compara os versos da canção com a realidade brasileira da época em que fora escrita e a realidade atual. Alta taxa de impostos, uma corrupção institucionalizada e o Estado, como conhecemos, apropriador de quase tudo e propagador de chagas nacionais persistentes como a miséria e a falta de oportunidades para os mais pobres. O trecho que segue demonstra a revolta de se crer em promessas populistas que, no fim, acabam por não vingar, exibindo a falsa lábia da classe política:
“Eu quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa”
Para gerar mais um pouco de identificação com a obra, o seguinte trecho deixa claro a revolta que condiz com problemas inflacionários e relacionados à alta cobrança de impostos por parte do governo. Renato Russo, mentor principal do grupo, em entrevistas diversas relatou as dificuldades de se trabalhar e de se ascender num país em que os impostos atrapalham diretamente a renda individual de um trabalhador comum – este que o Estado diz tanto proteger:
“E por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Mas vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo
Olha o sopro do dragão”
Após o término da canção é possível traçar uma linha histórica em busca de cada angústia representada pela banda nesse trabalho. O ar medieval nos leva a um cenário em que há um rei absolutista, que tudo pode. Isso torna possível uma comparação entre o nosso Estado atual e aqueles tempos da Idade Média, evidenciando a persistência da angústia por parte das civilizações. O sopro do dragão é praticado até os dias atuais.
Para finalizar a canção fora utilizada a esperança como musa central. Os versos exaltando um novo começo e almejando um ar otimista chegam a emocionar, fazendo-nos pensar em como seria um mundo minimamente justo. Toma o clima de um convite à luta ou à resistência, que para os críticos do sistema compõe o caminhar para uma sociedade livre:
“E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer.
Não olhe para trás,
Apenas começamos,
O mundo começa agora.
Apenas começamos.”

Iniciativa privada no Festival de Parintins: como o mercado (e não o Estado) promove a cultura regional

Por Thais Nogueira e Patricia Oliveira 

É difícil traduzir em palavras o Festival Folclórico de Parintins. Podemos chamá-lo de ópera a céu aberto, teatralização da floresta, espetacularização da cultura cabocla e indígena, show de ludicidade ecológica, duelo, brincadeira etc. Mas nenhum desses termos é suficiente para descrever o que acontece em Parintins quando falamos de boi-bumbá. O brilho nos olhos e os sorrisos no rosto dos idosos e das crianças brincando juntos, vendo o boi de rua passar, é uma pequena amostra da percepção dos parintinenses sobre esse evento.

Trata-se de cultura, trata-se de identidade. E identidades não são imutáveis. Transfiguram-se com o tempo, nutrindo somente a essência que a princípio a constituiu. Nesse sentido, assim como os bois bumbás, o festival também passou por inúmeras transformações ao longo de sua história. De um grupo de amigos brincando de boi ao redor de fogueiras e lamparinas, ao espetáculo grandioso na Arena do bumbódromo para milhões de telespectadores.

O Festival cresceu e se transformou, mas continua despertando nas pessoas a mesma emoção de décadas atrás, acrescentando um fator especial para a comunidade parintinense: o crescimento econômico.  Dois eventos marcaram a guinada para esse caminho: a primeira transmissão pela TV em 1994 e a entrada do patrocínio da Coca-cola em 1995, ainda que antes o festival já fosse uma grande atração turística, mas essencialmente local.[1] A partir desses acontecimentos a festa ganhou o interesse das classes mais abastadas e dos governos que durante anos não deram atenção devida à brincadeira. Na aliança com esses novos poderes, os bois ganharam muitos padrinhos, um deles foi a mídia nacional, que nos anos 90 mostrou ao Brasil e ao mundo as todas como “Tic-tac” e “Vermelho”.

Portanto, a cultura do boi-bumbá cresceu principalmente devido ao apoio da iniciativa privada, que viu ali não necessariamente uma riqueza cultural a ser preservada em nome da bondade e da dignidade, mas sim, lucro.

Atualmente o festival movimenta o valor correspondente a metade do orçamento anual do município de Parintins. De acordo com um órgão de turismo estadual, a festa movimenta cerca de R$ 100 milhões, entre ingressos, passagens aéreas e fluviais, hotéis, camarotes, bares, restaurantes, etc.

Desta forma, o Festival faz parte da indústria cultural do Amazonas, pois seu desdobramento econômico é tentacular. Ele movimenta uma cadeia econômica gigantesca, que vai desde o seu João e dona Maria que vendem seu artesanato, passa pelas empresas privadas que se beneficiam do marketing e dos benefícios fiscais, e  ainda se reverte em impostos para o Amazonas. Todos os envolvidos saem ganhando.

O financiamento para a realização do evento conta com a ajuda da prefeitura municipal, do governo do estado do Amazonas (em parceria com o governo federal), e dos patrocínios de empresas privadas. Em 2015 o estado repassou aos bumbás uma quantia de R$ 8,880 milhões[2] no total, destinada aos custos com iluminação, som e operacionalização do bumbódromo nos dias de festa.

Contudo, no ano de 2016, a poucos dias antes do início do festival, o então governador do estado do Amazonas (José Melo, do PROS) surpreendeu a todos com o anúncio do corte de verbas para o setor de Cultura, incluindo o festival de Parintins. O argumento era de que seria necessária uma reforma administrativa do Estado para enfrentamento da crise econômica, e parte do orçamento da Secretaria de Cultura seria para garantir o funcionamento dos hospitais.

Com a notícia, a população parintinense ficou absolutamente revoltada, pois poderia dificultar, minimizar ou mesmo acabar com a festividade naquele ano. Pela primeira vez na história, os torcedores de Garantido e Caprichoso se uniram para fazer uma grande manifestação, exigindo tomadas de atitude do poder público diante da situação. Pela primeira vez, discussões sobre política e economia dominavam cada canto da cidade. O financiamento estatal do evento foi duramente criticado. Era inadmissível que algo dessa magnitude tivesse que ficar dependente da boa vontade do governador em exercício.

O empenho da população em tentar encontrar uma solução para o problema foi enorme, o que pode ser visto no mutirão de limpeza[3] realizado no bumbódromo pela população, que também ajudou a trazer os carros alegóricos e fazer todo trabalho voluntário possível para a realização do evento.

Nesse momento, muitos nomes políticos surgiram  com a promessa de trazer os recursos diretamente do governo federal, como o então deputado estadual Bi Garcia e o Senador Omar Aziz, o que de fato aconteceu, e a verba de R$ 4 milhões para a realização do festival foi liberada.[4]

Tendo em vista a grande relevância do evento para a economia e para a identidade cultural do povo amazonense, este fatídico episódio mostrou a face de um problema que ameaça uma das maiores joias da cultura popular do estado: o Festival de Parintins é dependente demais das verbas do governo. A consequência desta dependência é a submissão da festa parintinense aos desmandos de quem estiver ocupando o poder, o que para nós, como amazonenses, é inaceitável. Uma representação tão forte da identidade amazônica precisa ganhar a independência e a autonomia condizentes com a sua importância. A solução para tal seria atrair como apoiadores e patrocinadores entes da iniciativa privada, como as empresas interessadas em investir na cultura popular.

O grande entrave para o patrocínio privado seria o equilíbrio entre os interesses pelo lucro e o respeito e manutenção do Festival de Parintins em sua integridade. Aqui vale lembrar a lição do filósofo escocês Adam Smith: “Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que ele têm pelos próprios interesses. Apelamos não à humanidade, mas ao amor-próprio, e nunca falamos de nossas necessidades, mas das vantagens que eles podem obter.”

Isto significa que a busca pelo lucro atrelada a um grande espetáculo cultural não representa grande risco caso as partes possam acordar seus termos para que todos atinjam a satisfação de seus interesses: o do patrocinador com o retorno financeiro ou midiático, e os bois e a população amazonense com a continuação da celebração da cultura. Como já foi mencionado acima, ao longo de décadas, o Festival de Parintins passou por diversas modificações, tornou-se um grande espetáculo que recebe turistas do mundo inteiro, mas nunca perdeu sua essência.

Uma maior abertura para investimento privado desoneraria os cofres públicos, afinal de contas, a realização de um evento deste porte não envolve apenas os custos das apresentações dos bois, e sim uma enorme logística de transporte, segurança pública e custos adicionais de suporte ao evento. Em 2016, o Governo do Estado teria um gasto total de absurdos R$ 17.017.073,79[5] com o festival. Todo esse valor sairia do bolso do contribuinte e seria empregado para estruturar os 3 dias da festa, mais os dias adjacentes em que a cidade recebe os visitantes. O grande problema disso é que, no dia em que o governo não tiver condições de bancar a festa, representaria ao festival e para a população um grande risco, uma vez que sacrificaria a expressão da cultura de um povo e de um evento que movimenta a economia de Parintins e de Manaus, já que os visitantes necessariamente passam por aqui. Isso quase ocorreu uma vez. Como amazonenses, não podemos permitir que ocorra novamente.

A notícia de que a realização do Festival de Parintins estava em risco por conta da falta de verbas do governo causou grande comoção que partiu desde a população parintinense e chegou ao empresariado local, que passou a declarar apoio e patrocínio ao evento. Naquela ocasião, diversas empresas que já eram patrocinadoras renovaram seus compromissos, tais como a Brahma, HapVida e Bradesco, novas empresas entraram para o rol de patrocinadores (Atacadão) e outras passaram a ser apoiadoras, como a Whirlpool, Mac Cosméticos, Lojas Marisa e C&A, com contribuições pontuais, mas com um imenso significado.[6] A classe empresária se mobilizava como podia para não deixar a cultura do povo amazonense sofrer ainda mais com a retirada considerável do apoio financeiro do Governo do Estado do Amazonas e visava as grandes oportunidades de negócios advindas do festival. Em 2017, a Cigás[7] também está patrocinando o evento e a Coca-Cola renovou seu compromisso.[8]

Já passa da hora de reconhecer que o Festival de Parintins não deve mais depender das verbas do governo, e sim firmar acordos prósperos com aqueles que estiverem dispostos a apoiar a cultura popular e auxiliar na movimentação da economia que envolve a realização da festa. Neste sentido, até mesmo os políticos se manifestam a favor de maior participação de capital privado no evento, destacando o aquecimento da economia no mês de Junho decorrente da festa, principalmente nos setores de comércio, hotelaria, gastronomia, transportes e atividades relacionadas ao turismo.[9]

Para que a iniciativa privada possa agir, o ambiente de negócios deve ser saudável. Infelizmente, ainda há um longo caminho pela frente. Tanto o Boi Garantido quanto o Boi Caprichoso sofrem uma série de processos trabalhistas que já chegaram a valores exorbitantes. No dia 28/07/2017, o vice-presidente do TRT-11 emitiu decisão que bloqueia 20% dos repasses de patrocínios aos bois para sanar dívidas trabalhistas. Esta decisão é fruto de um processo que já havia condenado os bois ao bloqueio de 30% dos repasses e quase comprometeu a realização do festival naquele ano juntamente com a retirada total de última hora por parte do Governo do Estado[10], a defesa recorreu e a decisão foi suspensa. Então o Ministério Público do Trabalho, na condição de terceiro interessado, requereu novo bloqueio e o Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região deferiu o pedido do MPT.[11] Todo este cenário de insegurança prejudica a administração dos bois em atrair patrocinadores e investidores, uma vez que sempre haverá o receio de um bloqueio oriundo da Justiça do Trabalho para atrapalhar o show dos bois na arena.

A iniciativa privada tem o condão de trazer infraestrutura para a cidade, revitalizar possíveis pontos turísticos que de alguma forma estejam negligenciados pelo poder público e melhorar ainda mais a recepção do turista em Parintins e oferecer mais oportunidades ao nativo.

Os principais pontos turísticos da cidade de Parintins atualmente são praças públicas e balneários. Os balneários contam com ajuda estética da natureza para manter a exuberância. As praças, por outro lado, ficam à mercê da boa vontade do prefeito em exercício, que costuma escolher entre dois caminhos: 1) manter uma gestão que negligencia as urgentes reformas que precisam ser feitas; 2) usar milhares ou milhões de reais do bolso do pagador de impostos para arcar com as despesas das reformas necessárias.  A segunda opção ainda dá um bônus especial: a oportunidade do superfaturamento.

Contudo, há um terceiro caminho, não tão agradável aos olhos dos governantes: transferir o poder dos políticos para às mãos da iniciativa privada. Imagine só, e se espaços como a Praça Digital, a Praça da Liberdade e a Praça dos Bois deixassem de depender dos políticos? Se fossem radicalmente revitalizadas e melhoradas constantemente, independente do resultado das eleições? Se passassem a ter a aparência das mais modernas praças das grandes metrópoles? E o melhor de tudo, com livre acesso para qualquer pessoa, independente de ser ou não consumidora da empresa que administra o lugar.

Isso parece utópico demais? Pois saiba que isso já acontece em inúmeras cidades do Brasil, como em São Paulo[12], onde 10% das praças públicas são adotadas[13] pela iniciativa privada, em Florianópolis, onde mais de 50% das praças tem esse tipo de administração, ou em Curitiba[14], onde um dos principais pontos turísticos da cidade – o Jardim Botânico – há 13 anos tem sua manutenção realizada pela iniciativa privada, resultando numa economia para os cofres públicos de mais de R$ 690 mil anuais, e numa das mais belas paisagens para se visitar na região, atraindo centenas de turistas.

A iniciativa privada poderia trazer uma profusão de benefícios aos cofres públicos municipais de Parintins, aos turistas que visitam a cidade na época do Festival, aos empresários que seriam atraídos para a cidade, e aos moradores, que teriam durante o ano todo (e não só durante o mês de junho) uma cidade da qual realmente se orgulhar.

O próximo passo é contar com a colaboração da administração dos bois-bumbás e da própria população no sentido de se dispuserem a negociar e entender as propostas oferecidas pelos patrocinadores, estipulando seus limites de maneira que não prejudique a renovação da estrutura da festa. Novamente: benfeitorias podem ocorrer sem alterar o fundamento do fenômeno cultural que move o festival. A população já cooperou espontaneamente com a realização do festival no momento em que houve o problema de verbas, quando houve a força-tarefa para a limpeza do bumbódromo. Se os parintinenses foram capazes  disto, não restam dúvidas de que poderão negociar pacificamente com quem quer que tenha interesse em investir na ilha tupinambarana. O patrocinador muda, a essência fica. Não há problema algum ao tratar cultura como mercadoria. A obtenção de lucro e a comercialização da arte não prejudica seu âmago, mas tão-somente atribui ao artista a renda fruto de sua criatividade.[15]

Outra questão relevante relacionada ao festival é sua transmissão midiática. Durante alguns anos, a emissora Band transmitiu a festa em rede nacional, mas a população local teceu várias críticas, uma vez que os jornalistas de outras partes do país não tinham o conhecimento e o “feeling” das lendas e do rito dos bois-bumbás, acabavam não mostrando partes importantes do desenvolvimento das apresentações e a narração errava bastante no “timing” e se sobressaía aos discursos do Amo do Boi e do Apresentador, por exemplo, itens que se baseiam nas rimas e no discurso acalorado.

Nas últimas edições, a cobertura tem sido feita por uma rede de televisão local e da TV Cultura[16], os profissionais conseguem transmitir com melhor qualidade apesar de haver uma certa diminuição de visibilidade. No entanto, graças ao desenvolvimento da tecnologia, hoje temos a internet como grande veículo de informação que pode ser melhor aproveitado para transmitir num âmbito bem maior que qualquer emissora de televisão. Este recurso já vem sendo usado por eventos, clubes de futebol e artistas para divulgação ou transmissão. O número do público chega a ser difícil de estimar, o que torna a internet uma excelente plataforma de mídia com impacto além das fronteiras nacionais, ainda mais com o fator de não comprometer o tempo de apresentação dos bois.

O Festival Folclórico de Parintins é retrato da cultura e do potencial artístico dos povos amazônicos. Exportamos artistas para o Carnaval do Rio de Janeiro e de São Paulo[17], onde as escolas de samba recebem pelo menos 80% dos talentosos artesãos parintinenses[18]. Os bois-bumbás cresceram, tornaram-se marcas reconhecidas, estabeleceram suas próprias associações para captação de recursos, o boi Garantido por meio do Movimento Amigos do Garantido[19], e o boi Caprichoso através do Movimento Marujada[20].

Hoje, os bois-bumbás de Parintins promovem, além do show no bumbódromo, a valorização e o enaltecimento da arte, da cultura e do misticismo que nascem do seio da Floresta Amazônica na forma da maior ópera a céu aberto do mundo. Seja na beleza da cunhã-poranga, no legado carregado pela Rainha do Folclore, no repente do Amo do Boi, na pureza da Sinhazinha da Fazenda, ou na poesia das toadas, o Festival Folclórico de Parintins brilha aos olhos do público visitante e dos nativos parintinenses na encantada Ilha Tupinambarana, às margens do Rio Amazonas. A brincadeira dos bois-bumbás é balanço que imita banzeiro, tem cheiro de beira de rio, tem herança do nordeste, bumba-meu-boi, cabra-da-peste, tem gingado de quilombo, tem rufar de tambores tribais[21], vem do Palmares, vem da Francesa, orgulho e beleza[22], tem a cara pintada, de um povo aguerrido, de um povo valente, de um povo guerreiro, de um povo Brasil, é a Amazônia nas Cores do Brasil[23], é Magia e Fascínio no Coração da Amazônia[24].

[1] AZEVEDO, Luiza Elayne Correa. Uma viagem ao boi-bumbá de Parintins: do turismo ao marketing cultural. Somanlu v.2, numero especial, 2002.   Disponível em: <<https://www.google.com.br/interstitial?url=http://www.periodicos.ufam.edu.br/index.php/somanlu/article/view/261 >>

 

[2] http://www.portaldomarcossantos.com.br/2016/05/20/cortar-o-subsidio-do-festival-esta-para-parintins-como-seria-para-o-amazonas-se-acabassem-com-zona-franca/

 

[3] http://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2016-06/editada-para-abrir-6a-apos-corte-de-verba-mobilizacao-e-superacao-garante

 

[4] http://www.acritica.com/channels/parintins-2016/news/governo-federal-autoriza-repasse-de-r-4-mi-para-o-festival-de-parintins-diz-omar

 

[5] http://www.reporterparintins.com.br/lendo/276-conteudo-13296-prefeitura-de-parintins-apresenta-planilha-de-custo-do-festival-2016-46-85-superior-ao-ano-passado

[6] http://www.emtempo.com.br/apos-anuncio-de-cortes-em-verbas-para-a-cultura-futuro-do-festival-folclorico-de-parintins-e-incognita/

[7] http://www.parintins.am.gov.br/?q=277-conteudo-51925-cigas-e-a-nova-patrocinadora-do-festival-folclorico

[8] http://www.acritica.com/channels/parintins-2016/news/festival-de-parintins-renova-patrocinio-com-multinacional-e-apoio-do-governo-do-am

[9] http://www.emtempo.com.br/politicos-do-am-se-unem-para-buscar-apoio-privado-aos-bumbas-de-parintins/

[10] http://www.reporterparintins.com.br/lendo/276-conteudo-13491-determinacao-de-juiz-do-trabalho-pode-comprometer-festival-folclorico-de-parintins

[11] http://amazonasatual.com.br/justica-do-trabalho-bloqueia-repasse-do-governo-aos-bois-de-parintins/

[12] http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/04/em-sp-10-das-pracas-publicas-sao-adotadas-pela-iniciativa-privada.html

 

[13] http://floripamanha.org/prioridades-floripamanha/adote-uma-praca/

 

[14] http://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/ponto-turistico-mais-visitado-e-mantido-em-parceria-com-iniciativa-privada/26869

 

[15] http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2418

[16] http://portal.comunique-se.com.br/tv-cultura-e-tv-critica-fecham-parceria-para-transmissao-do-festival-de-parintins/

[17] http://www.acritica.com/channels/entretenimento/news/pratas-do-folclore-parintinenses-que-brilham-nos-carnavais-do-brasil-afora

[18] http://g1.globo.com/am/amazonas/carnaval/2014/noticia/2014/03/talento-e-arte-de-parintins-am-marcam-presenca-em-carnaval-pelo-brasil-afora.html

[19] https://www.facebook.com/maggarantido/

[20] https://www.facebook.com/movimento.marujada/

[21] https://www.letras.mus.br/garantido/1826417/

[22] https://www.vagalume.com.br/boi-caprichoso/marujada-de-guerra.html

[23] https://www.vagalume.com.br/boi-caprichoso/amazonia-nas-cores-do-brasil.html

[24] https://www.letras.mus.br/garantido/magia-e-fascinio-no-coracao-da-amazonia/

Resenha: The Wall – uma perspectiva liberal

Por Alexandre Solórzano, do projeto Versos de Cascavel.

A sede por liberdade costuma vir atrelada a uma série de crises existenciais comuns ao ser humano e, levando isso ao campo artístico-musical, não pode ser esquecido o icônico álbum de Rock Progressivo The Wal, da lendária banda inglesa Pink Floyd. O álbum teve a pesada responsabilidade de reproduzir o grito de uma geração aprisionada dentro um status quo do campo educacional, executando tal tarefa com exímia perfeição.

Fechando o ciclo musical do grupo britânico na década de 1970, o álbum lançado em 1979 satisfez àqueles que sentiram, dentro das homogeneidades propostas pelos seus respectivos sistemas educacionais, o desconforto resultante das limitações que lhes eram impostas de forma cotidiana. No caso da educação brasileira nas décadas de 1960 e 1970, há a influência militar nos meios educativos, o que não aproximou o que poderíamos chamar de liberdade de pensamento, tal como não havia nos demais países latino-americanos, como a Argentina sob regime militar, o Chile com o governo ditatorial de Pinochet e Cuba, com Fidel e cia.

A obra pode ser utilizada pelas mais diversas ideologias ou posicionamentos políticos, o que demonstra como certas iniciativas artísticas desvirtuam-se de seu foco ideológico “original”. É necessário ressaltar tal ponto, pois Roger Waters, responsável principal pela temática do álbum, possui tendências não muito liberais e, para evitar rótulos, pode-se dizer que sua apatia pelo Estado de Israel e suas constantes críticas ao sistema capitalista já demonstram alguma coisa sobre sua inclinação política. Deixando de lado a real intenção do grupo e focando na análise a partir de um ponto de vista liberal, vejamos o que nossos ideais podem concordar com um dos álbuns mais famosos do século XX.

 

1 – Liberdade, sistema educacional e Another Brick in the Wall

 

Tentar soltar-se de um sistema vigente ou simplesmente sentir-se alienado por um conjunto de normas sociais são coisas comuns na vida de qualquer liberal, libertário ou conservador. Falando pelo nosso lado (a dita “direita” política), temos traumas cotidianos com a forte interferência do Estado na economia, uma marcante privação de liberdades individuais e, por fim, distorções histórico-culturais demasiadamente fomentados pelo currículo escolar. Pode-se observar que o campo educacional, um dos principais temas abordados pela obra, é algo que faz despertar muita coisa naquele “liberaleco” do 1º ano do ensino médio – os três anos que um liberal passa nessa específica etapa escolar serve para revolta-lo tanto quanto as feministas servem para revoltar ao ilustre youtuber anarcocapitalista Paulo Kogos. Na faculdade, então…

Todas essas situações deixam de ser mero detalhe pois já se encontram normalizadas, o que torna a vontade por mais liberdade um sacrifício diário. Another Brick in the Wall, faixa dividida em três partes, resumiu e ainda resume os problemas intrínsecos do ensino convencional: a acomodação intelectual e a homogeneidade de ideias imposta dentro da sala de aula. Hoje, a velha imposição do professor para com o aluno foi trocada pela persistência de uma rotina que, além de ser desgastante, é limitante e voltada unicamente para o vestibular. Nascer, crescer e passar num concurso público, eles dizem.

 

2 – O caos individual de Hey You

 

Ei, você, aí fora na estrada, sempre fazendo o que te mandam, você pode me ajudar? – Eis uma das frases da canção Hey You, faixa que abra segunda parte do álbum. É perceptível o desespero presente na canção e como isso pode ser aplicado às realidades totalitárias mundo afora. No Brasil, desesperamo-nos por não conseguirmos abrir uma empresa pelo excesso de burocracia ou por não conseguirmos manter uma vida sadia devido ao alto estresse causado pela pressa da rotina, o preço exorbitante dos produtos e a corrupção ativa do governo. Isso cabe como um grau caótico gigantesco se atribuirmos a isso uma concretização logística – o problema não é o governo atual, nem o anterior e, tampouco, o próximo. O problema está no corpo do Estado, na maneira que ele está posto. Para quem possui tal percepção, isso gera dores de cabeça diárias, ainda mais tendo isso somado aos problemas pessoais oriundos das relações que fazemos no dia a dia, com nossos familiares, amigos e namoradas. Zygmunt Bauman, cientista social polonês, não errou ao apontar um dos grandes males do mundo pós-moderno: a solubilidade das relações humanas perante os caóticos cenários ocasionados pelos problemas sócio-econômicos de nossa atualidade. É um fato que Bauman não vai pela linha liberal, mas negar que o ex-membro do Partido Operário Unificado Polaco estava correto ao demonstrar que o ser humano criou certa necessidade de obter suas liberdades individuais pode desvirtuar toda a obra por causa de um mero detalhe ideológico. Bauman, assim como Pink Floyd, utilizou de seu pensamento socialista para alegar coisas que, num ponto de vista liberal, podem ser facilmente adequadas e concordadas, mas com um ponto de partida e uma resultante amplamente diferente. Ambos veem o sistema capitalista como um meio opressivo para com as liberdades humanas, o que, para nós, seria um Estado interventor e de viés, mesmo que velado, anticapitalista.

Com a pegada ativista contra as guerras e contra o autoritarismo, The Wall trabalha questão do indivíduo numa sociedade monstruosa capaz de sugar todo e qualquer tipo de pluralidade de ideias possíveis. Isso resumiria porcamente o foco do álbum e como ele foi entendido por mim, mas, ainda assim, resumiria. A faixa em questão é notória por forte apelo emocional demonstrado pela combinação letra – melodia. Os gritos de Waters, os solos de Gilmour, o teclado constante de Wright e a bateria inconfundível de Mason tornam a canção um símbolo para as questões existenciais de qualquer jovem-adulto cansado e molestado pelo que ele mais detesta: limitação normalizada, espoliação legal (buscar A Lei, de Bastiat) e os problemas sociais de sua era.

 

3 – Por que, enfim, escutar The Wall e entender o que está sendo dito

 

A obra sempre terá a sua importância, graças às poucas mudanças efetuadas no que criticava o álbum e graças à eterna angústia humana de buscar a liberdade e, quase sempre, não alcança-la efetivamente. Dispenso aqui as definições subjetivas de o que seria a tal liberdade, mas demonstro-a exemplificando o que nos deixa mais distante de uma liberdade, pelo menos, possível: nossas leis que favorecem aos que gozam do poder; nossa carga tributária abusiva que, por mais que tentem negar, prejudica a população carente e favorece o aumento da desigualdade social; a privação de liberdades individuais, dentre outros pontos que valem ser abordados no seu cotidiano, com aquele seu amigo que acha interessante taxar os ricos ou com o seu professor de sociologia que persiste em te dizer que deturparam Marx.

The Wall possui riqueza temática e artística. Dificilmente alguém irá produzir o que conseguiu o grupo do Pink Floyd, com uma tremenda postura libertária perante os problemas autoritários dos nossos tempos e uma inteligência musical reunida em quatro integrantes que demonstraram, em seus mais de vinte anos de trabalho, o potencial de uma banda que, mesmo com vieses ideológicos diferentes, apreciavam o mínimo necessário para se ter uma sociedade livre.