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Quem foi Ajuricaba?

Por Eric Carro

O Clube Ajuricaba é detentor de resultados fascinantes, apesar de ter pouco mais de dois anos de existência. Foi eleito o melhor grupo do Students for Liberty global para o ano de 2015, lotou auditórios, une pessoas com capacidade intelectual para travar debates de elevado nível. Como todo grupo de pessoas reunidas para determinado objetivo – ser o maior grupo liberal/libertário da Região Norte – é natural que haja quem goste e quem não goste de nós. Mas é impossível para quem conhece ficar indiferente. De apelidos carinhosos como “ONG burguesa” até mais pejorativos como “ajuricabeiros”, o nosso nome oficial não foi escolhido à toa.

Assim como outros grupos liberais/libertários de nosso país, tais como o Clube Farroupilha de Santa Maria-RS, Grupo Domingos Martins de Vitória-ES, o recém-criado Clube Felipe Patroni de Belém-PA, entre outros, escolhemos nosso nome em meados de 2014. Este que vos escreve havia votado em outro nome, mas hoje reconhece que estava errado e que o outro nome não teria o valor do nome que carregamos atualmente. Em poucos momentos, a vida nos reserva o alívio de ter sido o voto vencido em determinado assunto.

É imprescindível manter viva a memória e a história peculiares de cada região do Brasil. Um país diverso e populoso como o nosso tem diversas nuances a serem interpretadas. Um país que passou por uma simbólica queima de bandeiras estaduais para passar a ideia de que a União era mais forte e que atualmente tem um federalismo no papel, estruturado de cima para baixo, precisa ter a história que cada região oferece recordada. Assim como a Revolução Farroupilha e a individualidade de Domingos Martins e Felipe Patroni exerceram sua influência em suas respectivas regiões com ideias de vanguarda para a época, e de cunho notavelmente liberal, cabe a nós, amazonenses, exaltarmos uma figura histórica nem tão ressaltada pela historiografia (até por haver poucas fontes a seu respeito) e cujas ações certamente se aproximaram de uma ética libertária, muito embora na época em que viveu, essas ideias sequer existiam e mesmo se existissem, dificilmente teria contato com as mesmas.

Cumpre ressaltar, porém, que uma ação vale mais que mil palavras. E é da ação heroica de Ajuricaba, ao proteger a tribo dos Manaós, que iremos falar.

A história da Amazônia é distinta do restante do Brasil em virtude, primeiramente, de ela ter se desenrolado na divisão administrativa que a Coroa portuguesa nomeou de Capitania do Grão-Pará (1616-1821). Os fatores que estavam em jogo nessa região eram distintos dos que estavam em disputa no restante do território sob domínio lusitano. Não a toa o Grão-Pará, apenas tardiamente, ter rompido os vínculos com a metrópole portuguesa para se unir ao Império do Brazil. Não a toa a região do Grão-Pará, em sua colonização, foi marcada por expedições, missões religiosas, descimentos, guerras justas, entre outros termos comuns na historiografia sobre o local na época em discussão.

É nesse contexto diferenciado que deve ser analisada a história de Ajuricaba. O “clímax” ocorreu em 1727. Para Francisco Jorge dos Santos, a reação dos Manaós foi a melhor representação de resistência e de demonstração dos indígenas de serem agentes de sua própria história, não se subjugando às ações colonialistas. O índio Ajuricaba foi o heroico guerreiro que liderou a resistência contra as tropas militares portuguesas. Os próprios agentes da colonização reconheciam seu ímpeto valente e guerreiro, haja vista que o mesmo corria o Rio Negro com ampla liberdade, com bandeira holandesa em sua embarcação, sendo o temor do branco e do índio. Não a toa os Manaós eram o grupo étnico mais importante de sua área de ocupação.

Na década de 1720, em decorrência de maus tratos à mão-de-obra indígena bem como a varíola tornava escassa a força de trabalho em Belém. O capitão-general do Maranhão e do Pará, a fim de expedir tropas de resgate de índios para a Amazônia Ocidental, autorizou o resgate em 1723. Como os Manaós representavam barreira humana consideravelmente forte à penetração portuguesa em seus domínios, a metrópole iniciou processo para apuração dos fatos, e considerou culpados os Manaós, acusando-os de infidelidade à colônia portuguesa por praticarem comércio de manufaturas e traficando escravos indígenas com os holandeses através do Rio Branco,  que por sua vez alcançava a Guiana neerlandesa (atual Suriname).

Evidentemente, não podemos exaltar a prática da escravidão nos dias atuais, porém compreendemos que era comum à época e só passou a ser amplamente contestada no século XIX. No mais, vemos um povo que praticava o comércio, mas que em decorrência dos interesses mercantis da colônia portuguesa, que por sua vez não aceitava dividir poder com os neerlandeses, foi impedido e acusado de traição, enquanto lutava pelo que atualmente entendemos como autodeterminação. O governo ainda tentou, mediante os jesuítas, realizar uma negociação de paz, entretanto esta pouco durou. Os índios mantiveram as investidas contra os núcleos coloniais. As autoridades estavam aguardando o “sim” da metrópole para que pudessem realizar a guerra justa. Porém, em decorrência da situação quase fora de controle, optaram por declarar guerra aos Manaós e aos seus aliados mesmo sem a anuência daquela.

Avesso ao estrangeiro conquistador, Ajuricaba liderou a resistência dos Manaós e tribos aliadas. Ele foi essencial não só na batalha, mas na função de unir os povos com a finalidade de resistir às ofensivas portuguesas. O risco que Ajuricaba causava à dominação lusitana e o temor dos ameríndios a eles aliados era notório. O já mencionado capitão-general do Maranhão e do Pará, João Maia da Gama, demonstrava aflição, para não dizer desespero, à época do início dos combates. Dispunha de poucos recursos bélicos. Daí a reiteração de pedidos a Lisboa até conseguir o que queria: a autorização para guerrear. O fato de ter bandeira neerlandesa flamejando em suas embarcações ao perseguir sertanistas paraenses certamente foi o principal fator de “prova” que utilizaram para enquadrar Ajuricaba como o traidor da Coroa portuguesa.

É digno de nota afirmar que, apesar de autorizado em 1724 para guerrear, esta anuência não era absoluta. A justiça da campanha era questionada por Portugal.

Em 1727, em expedição composta por tropas de guerra e de resgate, liderada por João Paes de Amaral e Belchior Mendes de Morais, ocorreu o violento confronto que resultou na prisão de milhares de índios, inclusive de Ajuricaba. Conforme as fontes históricas, não foi uma prisão fácil de ser realizada. Houve choque violento. Ambas as partes em conflito demonstravam heroísmo, até que os portugueses conseguiram vencer Ajuricaba por um ataque na retaguarda. A parte mais marcante talvez seja a seguinte: ao ver seu filho, Cucunaca, tão bravo quanto o pai, morrer em combate, Ajuricaba lançou-se entre inimigos e derrotou uma quantidade considerável destes. No entanto, uma andorinha só não faz verão: Ajuricaba foi cercado e levado à prisão, em embarcação que iria em direção a Belém.

Mesmo preso e acorrentado por grilhões, Ajuricaba mostrou ânimo para se conjurar contra aqueles que o aprisionavam junto com mais de dois mil índios. Ajuricaba se esforçou até o último recurso para se ver livre, tentando causar o motim na embarcação. Vendo, no entanto, que era impossível se libertar da prisão, lançou-se com os grilhões que o acorrentavam nas águas do Rio Negro, por julgar mais heroico que ser escravizado ou executado pelos colonizadores. O próprio Maia da Gama admitiu que a morte do líder dos Manaós livrava os conquistadores da preocupação de mantê-lo sob rigorosa vigilância em Belém.

Após a morte de Ajuricaba, o conflito durou até o término da década, quando a tribo foi varrida do mapa, trazendo à tona a crença da tribo de que o mundo seria destruído por grande fogo. Há quem diga que os vencedores costumam contar a história. Em um conjunto de fatos dos quais ainda se tem poucas fontes, é interessante ver como o conquistador reconheceu a força do adversário. É um indício da força da liderança de Ajuricaba, que não se deixava abater e subjugar por qualquer ameaça a seu povo.

A história norte-americana, marcada por momentos de heroísmo e honra, tem chavões como “live free or die” ou então “give me liberty or give me death”, sendo esta uma marca de Patrick Henry. Muito embora Ajuricaba não fosse um contemporâneo de Patrick Henry e sequer imaginaria que evento tal como a Revolução Americana pudesse ocorrer, ele incorporou estado de espírito semelhante ao daquela revolução: era preferível morrer heroicamente a viver subjugado.

 

Referências:

REIS, Arthur Cézar Ferreira. História do Amazonas. 2ª edição. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1989.

SANTOS, Francisco Jorge dos. Além da Conquista: guerras e rebeliões indígenas na Amazônia pombalina. 2ª edição. Manaus: Editora Universidade do Amazonas, 2002.

http://www.portalconscienciapolitica.com.br/products/a-paix%C3%A3o-de-ajuricaba%3A-um-mergulho-para-a-morte-e-um-salto-para-imortalidade-na-literatura-amazonense/

http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/o-bravo-guerreiro-ajuricaba-do-povo-ind-gena-mana-s

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ajuricaba_(ind%C3%ADgena)

http://lendasestorias.blogspot.com.br/2013/09/ajuricaba.html