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A Doença Amazonense

Os belos campos de tulipas e a histórica economia energética são dois fatos que vêm à mente das pessoas quando pensam nos Países Baixos. Entretanto estas flores coloridas e o gás natural são símbolos históricos de crises econômicas nas mentes dos economistas. Enquanto a crise do mercado de tulipas é considerado por muitos a primeira bolha financeira (1637), a chamada “Doença Holandesa”, gerada após a descoberta do maior campo de gás natural europeu em 1959, é vista como uma das principais armadilhas econômicas. Este conceito, explicado de modo simplificado, expõe o declínio de inúmeros setores da economia resultante do estímulo a um setor específico. No caso da Holanda, o setor estimulado foi o gás natural. No Amazonas, este pode ser representado pela Zona Franca de Manaus.

Esta comparação tem se tornado cada vez mais comum quando debatemos o conceito da Zona Franca de Manaus (ZFM). Entretanto há muitas pessoas que criticam a mesma, apontando as inúmeras diferenças. Nitidamente, o conceito não se encaixa perfeitamente uma vez que hoje outros setores florecem em nossa cidade, mas a conclusão é a mesma: somos dependentes da ZFM. Este modelo econômico gera, diretamente, aproximadamente 120 mil empregos à nossa capital. A indústria também representa 25% de nosso PIB. Os números são um pouco confusos, mas pesquisas recentes mostram que nossa economia cresceu de cinco a mais de dez vezes desde 1964, o que mostra o quanto devemos à ZFM.

Mas qual o problema de depender de um setor da economia se os outros não estão decaíndo como ocorreu na Holanda? Como poderia uma cidade do porte de Manaus ruir? Como poderia um modelo tão antigo falhar? Caro leitor, o mesmo já ocorreu com outra metrópole das Américas. Detroit, o berço do automobilismo americano, teve um avanço populacional violento durante o boom deste setor, passando de 285 mil pessoas em 1900 a 1,8 milhões em 1950, um crescimento de mais de 500%. No caso de Manaus, também num período de 50 anos, a população saltou de 300 mil em 1960 a 1,8 milhões em 2010. Hoje, após o colapso econômico e social de Detroit, a cidade do meio oeste americano conta com apenas 713 mil habitantes, de acordo com o censo de 2010.

Os motivos para a queda de Detroit são inúmeros, mas os principais são as tentativas de planejamento por parte do governo, leis trabalhistas do New Deal, e sua excessiva dependência do setor automobilístico. Não fique surpreso se  características similares também sejam encontradas em Manaus. Em Detroit as montadoras sentiram-se ameaçadas pela organização sindical e decidiram descentralizar suas produções, temendo uma greve geral. Na tentativa de estimular o setor local, o governo definiu um enorme projeto para construções de grandes estradas, o que destruiu bairros pulsantes da cidade e estimulou a população a mudar para os subúrbios. Esses fatores, somados à concorrência de montadoras estrangeiras, levou a indústria automobilística e a cidade de Detroit ao declínio, resultando na criação de uma monstruosa cidade fantasma, com o maior índice de violência dos EUA. Segundo pesquisas recentes, Detroit possui pelo menos 70 mil prédios abandonados, 31 mil casas vazias, e 90 mil lotes disponíveis.

Detroit serve como um sinal de alerta para Manaus devido às grandes similaridades. A cidade americana é hoje um dos piores desastres sociais dos Estados Unidos, contando com o maior índice de desemprego entre as 50 maiores cidades do país, chegando a 23,1%. A quantidade de indivíduos vivendo abaixo do nível de pobreza atinge 36,4% da população. Como sempre, as parcelas menos privilegiadas da população são as que mais sofrem. Minorias raciais, como os negros, são a maioria dos que ficaram para trás na cidade fantasma. Ainda no auge da cidade e no pico populacional, os negros representavam 16% da população de Detroit. Hoje este número subiu para 82%.

É sempre difícil para um liberal defender os altos impostos no Brasil e os privilégios que apenas a ZFM goza. Para nós, impostos baixos deveriam ser extendidos a todos. Para Amazonenses bairristas como eu, a situação fica mais constrangedora. Contudo, com o nítido início do esgotamento deste projeto devido às vantagens fiscais e logísticas crescentes no sul do Brasil, fica mais fácil defender a necessidade de cortarmos o cordão umbilical. Nossas opções são óbvias. Software e internet, opções que são pouco afetadas por nossa logística precária, e empreendimentos vindos da Amazônia, nossa vocação natural, saltam aos olhos. Entretanto o que precisamos hoje é, ao contrário do que as pessoas falam, de menos planejamento estatal e mais mercado.

As indústrias de tecnologia leve podem facilmente ser atraídas por mais estímulos fiscais. Bastava o governo local tentar parar de bloquear estímulos parecidos dos estados sulistas e começar a competir de modo apropriado. Nosso mercado de produtos amazônicos, antes vívido com couros, balata, pau-rosa, juta, dentre outros, hoje vive em estado terminal devido a regulamentações suicidas, deixando poucos produtos como oportunidades de negócios. É vital para o desenvolvimento econômico da região que desregulamentemos este setor tão importante e histórico. Mas como fazer isso de modo sustentável? A resposta também já temos. O que sofremos hoje é a chamada Tragédia dos Comuns, que representa o abuso dos recursos naturais quando o lucro é individual e o custo coletivo. A solução: privatização dos meios de produção. Imagine a venda de lagos à iniciativa privada. Ao invés de regular o mercado de modo que o peixe não seja abusivamente pescado, o governo deixaria para a iniciativa privada a preocupação, uma vez que a mesma seria proprietária daquela região e principal interessada pela manutenção dos animais. Introdução à Economia Básica.

Manaus, assim como o Brasil, não possui outra saída se não o liberalismo. Em nossa cidade a situação é mais preocupante tendo em vista nossa dependência tão grande de um setor específico. Para evitarmos uma crise sem precedentes como ocorreram nos exemplos mencionados, precisamos estimular nossa iniciativa privada e começar a andar com nossas próprias pernas. A Amazônia clama por liberdade.

 

Daniel Benzecry