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A Alegoria da Caverna e a Máquina Política Atual

Por Bernardo Belota

 

“A parte que ignoramos é muito maior que tudo quanto sabemos.”-Platão

 

I-Introdução:

Primeiramente, se você é do tipo de pessoa que gosta de ver “O futuro repetir o Passado” ou gostaria de ver de uma outra perspectiva o atual contexto político e social brasileiro, você terá a oportunidade de dispor de uma leitura aprazível. A proposta deste é, a partir de uma comparação com o mito da caverna de Platão, questionar o quanto a sociedade e a política mudaram. Teriam elas se diferenciado tanto dos modelos do século IV a.C, onde a democracia grega vigorava? Isso é o que de uma forma conjunta, refletiremos.

 

  • Um breve comentário sobre o autor:

Platão (Arístocles) viveu durante o período clássico da Grécia Antiga (Séculos V a.C – IV a.C), mais precisamente durante os anos de 427 a.C a 347 a.C. Ele foi discípulo do filósofo Sócrates. É considerado um dos maiores pensadores de toda a filosofia. Sua principal ideia é baseada na dualidade de mundo, na qual existe o sensível, que pode ser compreendido pelos sentidos e é uma mera cópia de objetos reconhecidos pela alma. Existe também o inteligível, lugar de origem da alma (o conceito de alma não tem haver com qualquer sentido religioso ou espiritual, mas sim com o sentido de razão) e onde essa, tem conhecimento dos objetos os quais reconhece e visualiza no mundo sensível. Para Platão, os sentidos eram enganosos pois não davam qualquer precisão ao saber, dissemelhantemente da racionalidade. Com base nesse raciocínio, criou a alegoria da caverna em sua obra “A República“.

 

  • Um breve adendo sobre obra “A República”:

“A República”, escrita em dez livros, aborda a ideia de Estado Ideal para Platão, a Sofocracia. Para compreendermos a Cidade Ideal de Platão, precisamos entender que, para que esse modelo funcione perfeitamente, é necessário que todos que ela compõem façam seus devidos trabalhos. Para isso ser possível, ele (Platão) divide a sociedade em três classes: a primeira delas seria a de artesãos, que seriam responsabilizadas pela produção de bens materiais; a segunda seria a de guerreiros, responsáveis pela defesa dessa cidade contra possíveis males; a última classe a dos filósofos, que deveriam dirigir a cidade e zelar pela obediência das leis (Uma vez que apenas os que têm o conhecimento podem governar, para impedir que a incompetência e a corrupção tomassem o poder público). Esta divisão estaria embasada em suas aptidões. Platão, em “A República”, ainda compara a sociedade ao modelo anatômico do corpo humano, no qual como a cabeça governa todo o corpo, os filósofos, aqueles dotados da razão, deveriam liderar a cidade. Já aqueles que eram dotados da cólera, a qual Platão associava ao peito, seriam os guerreiros, os corajosos, que são responsáveis pela manutenção da paz. O terceiro grupo, guiados pelo desejo, que no corpo estariam representados pela região inferior do ventre, este grupo, os artesãos, deveriam controlar seus desejos para atingir a temperança, moderação, para tal feito, seria necessário canalizar seus desejos nas atividades de seus trabalhos.

Nesta obra, é possível perceber uma fragmentação da alma (com conceito racional) em: 

Logistikón, a faculdade racional, responsável pelos cálculos e pela lógica do raciocínio; 

Thymólides, onde habita a cólera e o lado impulsivo, responsável pela intensidade dos sentimentos, fazendo eles prevalecerem e é responsável também pelo furor e a veemência.

Epithymetikón, é o lado ambicioso, concupiscente, responsável pelos desejos.

Para a sociedade funcionar de maneira ideal, ainda era necessário que todas essas classes fossem felizes em uma mesma intensidade. Para que isso fosse possível deveria haver justiça, para tal, deveríamos retomar as coisas do marco zero. Para o filósofo, as famílias deveriam deixar de existir. Quando as crianças nascessem, elas deveriam ser deixadas por suas mãe e passariam a ser educadas pela cidade. Para ele, inibindo esses laços familiares, inibiria também o egoísmo e não as deixaria alheias aos maus hábitos.

A educação pelo Estado deveria ser feita a partir do seguinte critério: até os dez anos, as crianças receberiam educação quase que somente física; após os dezesseis, a música ficaria responsável por educar o espírito; quando atingissem os vinte anos, se submeteriam a um teste teórico-prático, que seria responsável pela divisão de classes. Os que não passassem seriam designados a classe dos artesãos. Aqueles que passassem, receberiam mais dez alunos até se submeterem a um novo teste. Para os aprovados nessa segunda fase, seria permitido a esses, que estudassem a filosofia e se dedicassem a estudar o mundo inteligível.

 

  • Contexto histórico da época:

A Grécia estava em seu Período Clássico, período o qual foi marcado por diversas invasões e conflitos que transformaram a Grécia em um verdadeiro campo de batalha. Embora tenham ocorrido esses conflitos, o Período Clássico é marcado como o auge da civilização grega. Nele, ocorreu a transformação do sistema político-administrativo de Atenas assim como o espalhamento do mesmo para outras cidades-estado. Houve as Guerras Médicas de 490 a.C  até 479 a.C, nesse conflito, os Persas tentaram invadir a Grécia a partir da dominação de colônias asiáticasTendo o conhecimento do território das penínsulas dos Balcãs, derrotaram os persas. Esse conflito incentivou a aliança de várias pólis gregas, como a Liga de Delos. 

Nesse período, é notável o governo de Péricles, ele foi responsável pelo desenvolvimento da Democracia ateniense e a criação de grandes números de obras públicas. Com a soberania de Atenas e sua ofensiva contra as outras cidades-estado, logo se criou, sob o comando dos espartanos, a Liga do Peloponeso. Assim, com o combate entre as ligas, a de liderança Ateniense contra a de Espartana, deu origem a Guerra do Peloponeso.

II- A Alegoria da Caverna:

No sétimo livro de “A República“, se apresenta um dos textos de filosofia mais debatidos do mundo o “Mito da Caverna“, que demonstra uma relação entre a sociedade e o conhecimento. Com ele, Platão explica a existência de dois mundos (Já mencionados anteriormente).

 

  • O mito:

O mito se passa em uma “morada subterrânea” no formato de uma caverna. Nessa caverna habitam homens, os quais  estão presos desde a infância, acorrentados pelo pescoço e pelas pernas, de tal forma que não podem mudar de lugar nem mexer suas cabeças para visualizar alguma coisa que não esteja na frente deles. Toda a fachada da caverna está aberta para a luz. Porém, a luz que chega a eles vem de uma fogueira situada mais distante, no alto. Entre os prisioneiros e o fogo, há um corredor cortado por uma mureta. Por esse caminho, passam pessoas com diversos tipos de objetos, alguns em formas de animais, outros em formas humanas e figuras de madeiras, pedras, além de outros materiais. Entre essas pessoas que passam pelo trajeto, algumas mantêm conversas. Tendo em vista que tudo o que conseguiam contemplar, ou seja, que seus sentidos captavam, era um conjunto de sombras e algumas vozes, eles acreditavam que aquilo era a única realidade. Glauco, interlocutor de Sócrates, após ter tido certeza de que os presos aceitaram apenas aquilo como verdadeiro, escuta a suposição de Sócrates afirmando que se um deles repentinamente se rebelasse e conseguisse escapar da caverna, em um primeiro momento se sentiria atordoado pelas luzes solares, porém gradualmente conseguiria progredir, visualizando não mais apenas as sombras mas as formas a partir do reflexo da água. Após ter se adaptado, poderia finalmente enxergar com seus próprios olhos a beleza do universo e definir as formas que o cercam. Quando, enfim contemplasse o sol, se sentiria na obrigação de compartilhar com os amigos sua inacreditável descoberta, a de que existiam muitas outras coisas além daquelas meras sombras. Contudo, esses não  o ouviriam, ele seria chamado de tolo e o intimidariam fazendo ameaças de morte.

 

  • Interpretação do mito aplicada ao contexto atual:

 

A Alegoria da caverna, vista acima, demonstra o estado de ignorância da maior parte da sociedade. Representada pelos prisioneiros, ela é enganada por pessoas que lhes mostram tudo o que conseguem ver, essas pessoas que passam pelo corredor, podem ser interpretadas por mídias, redes sociais e  todas as fontes de informação que podem ser influenciadas e fazem abordagens de forma superficial. As sombras podem ser entendidas pelas informações manipuladas. As correntes que aprisionam as pessoas seriam de forma alegórica, o comodismo e o desinteresse por buscar maiores saberes. Podemos analisar também o prisioneiro que se rebela como um intelectual que foge das condições aprisionadoras das “correntes” e busca por conhecimento. No mito é citado a seguinte colocação: 

“[…] se um deles repentinamente se rebelasse e conseguisse escapar da caverna, em um primeiro momento se sentiria atordoado pelas luzes solares, porém gradualmente conseguiria progredir, visualizando não mais apenas as sombras mas as formas a partir do reflexo da água. Após ter se adaptado, poderia finalmente enxergar com seus próprios olhos a beleza do universo…

Esse trecho alegórico pode ser compreendido como: um indivíduo que saísse de uma total alienação, e tivesse um incipiente contato com o conhecer verdadeiro, isso o incomodaria a princípio, porém com o tempo tentando entender melhor as coisas que o rodeiam, utilizaria do “reflexo da água”, ou seja, da interpretação e obras de outras pessoas, mais fundamentadas e mais sábias do que ele. De forma gradativa, aprendendo com essas pessoas mais experientes e que possuem sua própria análise do mundo real, poderia começar a fazê-las sozinho, assim como suas próprias obras abordando seu novo universo, o que é representado por: 

“[…] Após ter se adaptado, poderia finalmente enxergar com seus próprios olhos a beleza do universo…”

Após ter descoberto as maravilhas da realidade e superado seu estágio de estupidez, tenta alertar as pessoas em que convive para que possam compreender tudo a sua volta de maneira correta e assim contribuir para um todo. Porém, as pessoas as quais ele alerta, por estarem tão firmadas nas bases de uma realidade ilusória, não conseguem enxergar o quão grande e vasto as coisas podem ser e não compreendem a dimensão da vagueza na qual eles se firmam. 

“[…] Quando, enfim contemplasse o sol, se sentiria na obrigação de compartilhar com os amigos sua inacreditável descoberta, a de que existiam muitas outras coisas além daquelas meras sombras. Contudo, esses não  o ouviriam, ele seria chamado de tolo e o intimidariam fazendo ameaças de morte....”

Isso tudo que foi apresentado, ainda pode ser compreendido como, um sistema político que a partir de meios de divulgação de conhecimento manipulado, convencem os alienados (uma grande parcela da nossa sociedade) de que tudo aquilo que lhes é mostrado é verídico (se mostrando sofistas, sem qualquer compromisso com a veracidade dos fatos mas sim em atingir a massa popular), enquanto estão aprisionados por benefícios públicos muitas vezes camuflados por questões humanitárias e anti-discriminatórias e por conta desses benefícios gerarem um comodismo, de tal forma que, só conseguem enxergar a verdade que lhes é mostrada, por tanto, incapazes de conhecer por si mesmos. Até o momento que uma pequena minoria desse coletivo começaria a se questionar e a desejar aprender mais, se rebelando contra tudo isso e passando a ampliar seus conhecimentos. Inicialmente aprendendo por meio de pessoas mais fundamentadas e gradativamente, esse pequeno grupo começa a produzir ideias e conhecimentos próprios. Quando finalmente eles conhecerem e forem capazes de observar as coisas a partir das suas respectivas perspectivas do universo, buscarão informar os outros, mas esses, não quererão sob condição alguma, largar seus benefícios e o comodismo por eles gerado.

 

III-Conclusão:

 

Contudo, mesmo que o filósofo apresentado não seja muito bem visto no campo liberal/libertário – uma vez que expressa quase que de forma explícita alguns resquícios de coletivismo na sua teoria de organização social e política, apresentados de forma quase que conjunta, uma vez que todos os indivíduos têm que buscar, não a felicidade própria mas a felicidade da “República”, a qual é governada por um Rei Filósofo que escolhe o que cada pessoas deve fazer dentro da sociedade, anulando por completo a liberdade individual – podemos afirmar que o contexto do período clássico grego não possui tantas diferenças dos modelos atuais, uma vez que nosso setor político, assim como na época, se preocupa mais em atingir as massas populares do que com a veracidade dos fatos. E além disso, somos tão manipulados quanto os prisioneiros do mito supracitado o qual serviu de crítica a seu modelo político contemporâneo, temos também a mesma carência quanto ao conhecimento. Denota-se desta maneira, um prático comparativo entre períodos e uma possibilidade de refletir sobre nossa postura.

Considerações sobre o Egoísmo

Por Roberto Neto

Atualmente, quando uma pessoa fala “eu sou egoísta” é tratada como se fosse um monstro. Ocorre que sentido original dessa palavra foi totalmente deturpado. Egoísta é tido como aquele que enxerga somente a si, que não se importa com os outros e que se precisar passar por cima de alguém para satisfazer suas próprias necessidades o fará. Essa definição está totalmente errada. Uma pessoa egoísta é aquela que pensa primeiro em si, que prioriza a si, e por mais que para alguns pareça com a apresentada logo acima elas são totalmente diferentes como será demonstrado a seguir.

Egoísta – Priorizar a si, pensar primeiramente no ‘eu’ no que no outro.

Egotista – Enxerga somente a si, não são capazes de enxergar outros indivíduos.

O valor (aquilo que os indivíduos buscam atingir e/ou manter) fundamental para qualquer ser humano é a vida. A vida é um valor que possui fim em si mesmo. Todas as atitudes de um homem são em busca de preservar e melhorar sua vida, de saciar suas necessidades e diminuir seu sofrimento. Mas o que isso tem a ver? A partir do momento que temos a vida como valor fundamental podemos usá-la como régua para definir se algo é bom ou mau. Tudo aquilo que prejudica e ou ataca a vida de alguma forma é mau, enquanto que tudo aquilo que preserva e protege a vida é bom.

Com isso em mente devemos agora buscar uma forma a partil da qual todos possam buscar preservar sua vida. Se essa forma não puder ser universalizável, isto é, aplicada a todos os homens ela é incorreta. Esse é, inclusive, um dos problemas do altruísmo. Para que ‘todos’ sejam altruístas é necessário um egoísta que será o beneficiado.

Egoísmo é a forma perfeita de viver em sociedade pois evita conflitos e desavenças. Cada um busca satisfazer suas próprias necessidades e não se torna dependente da boa vontade dos outros. Então significa que eu posso passar por cima de quem eu quiser se isso for me beneficiar? Não. Já vimos que qualquer coisa que ataque a vida, sua ou de outro, é uma forma de mal. Se uma pessoa ‘pisa’ nos outros para atingir suas necessidades ela não está priorizando o seu indivíduo, e sim ignorando que os outros também são indivíduos e que também possuem necessidades.

Muitos dizem que essa visão ignora que vivemos em sociedade, que dependemos do agricultor para conseguir comida, do pedreiro para termos uma moradia, e de tantos outros profissionais que nos cercam, e que de acordo com essa visão o certo seria cada um produzir tudo aquilo que precisa. Contudo esse é um sistema perfeitamente egoísta. O padeiro não entrega o pão de bom coração para as pessoas. Ocorre uma troca onde o padeira dá o pão e o cliente o dinheiro que o padeiro utilizará para suprir suas necessidades. As pessoas perceberam muito tempo que seria muito mais eficiente cada um se especializar em algo, fazer aquilo muito bem, e depois trocar com outras pessoas por coisas que elas se especializaram. Surge aí o tão odiado sistema de trocas voluntárias de bens e serviços, também denominado capitalismo.

Outro questionamento decorrente é sobre as pessoas carentes Se somos egoístas por quê ajudamos os outros? O que ganhamos com isso? Quando agimos não buscamos apenas satisfação material, buscar se sentir feliz através de ajudar pessoas carentes é um ato egoísta. Você está ganhando algo. O ‘eu’ sempre está no meio dessas frases. O que ocorre é que por algum motivo existe a crença que isso não é algo bonito, algo virtuoso, que devemos na verdade ajudar pelo simples ato, como se já fosse algo natural. Um bom exemplo seria: “ajudei meu amigo em Física pois ele precisava”. O que você está dizendo na verdade é: “eu ajudei meu amigo em física pois eu me importo com ele”.

E para aqueles que insistem em dizer que o correto é sermos todos altruístas eu tenho um desafio: dê um brinquedo a uma criança carente. Se você não sentir um pingo de alegria, parabéns, você é 100% altruísta! Já aqueles que fracassaram não se preocupe, não nada de errado em ser egoísta.

O fascínio tardio de Foucault pelo liberalismo

Por Matheus Farias

Michel Foucault (1926-1984), no fim de sua vida, passou a admirar questões defendidas por ordoliberais e dos liberais de Chicago, quanto a Capital Humano, e fez estudos relacionados a noções de Biopoder, continuando suas afirmações em Vigiar e Punir (1975). Pra entender o fascínio de Foucault no fim de sua vida, é preciso compreender suas teses sobre Genealogia do Poder, e seus estudos sobre a Microfísica dos Poderes na sociedade dotada do Estado Moderno e Ocidental. Foucault possui preocupações sobre a Razão Humana na Política, mais especificamente, da ausência desta em aspectos formais do Estado, e reitera o papel importantíssimo da Filosofia na construção do Estado como um gestor racional e não baseado unicamente em relações de poder, diz ele: “[…] A partir de Kant, o papel da filosofia foi o de impedir a razão de ultrapassar os limites do que é dado na experiência; mas, desde essa época – quer dizer, com o desenvolvimento dos Estados modernos e a organização política da sociedade –, o papel da filosofia foi também o de vigiar os abusos do poder da racionalidade política, o que lhe dá uma esperança de vida bastante promissora”, vemos então, a preocupação foucaultiana em usar a filosofia como uma análise se as questões estruturais de um dado Estado obedecem a razão e se não, que a Filosofia teria o papel basilar de desmontar tais mecanismos.

Foucault, quando disserta sobre a genealogia do poder, explicita o surgimento -em meados do século XVII- a existência de micropoderes que regem a sociedade moderna, poderes esses reguladores dos indivíduos, com o fim de ter cidadãos dóceis e úteis. E quando disserta sobre o biopoder, faz uma distinção clara; o Biopoder surge em meados do século XIX como função principal de não mais regular os fenômenos dos corpos individuais, mas regular os corpos e os fenômenos relacionais ao corpo coletivo, a regulamentação de todo um povo, de fenômenos gerais relacionados ao homem-espécie. Nesse âmbito, Foucault começa a discorrer mais sobre questões de mercado, baseado nas Escolas de Chicago e na Escola Austríaca, em seu ensaio Segurança, Território, População e Nascimento da Biopolítica. Neste ensaio, Foucault entende que a racionalidade moderna adquiriu um caráter extremamente econômico, compreendido o indivíduo como um homo economicus, onde a Economia passa a ser a grande criação da verdade nos tempos modernos, destacando que a Economia não mais é só um meio de produção, mas um aspecto político e cultural da vida humana. Concorda Foucault com Hayek quando este diz que: “O próprio Foucault (quem diria!) explica muito bem a questão do Estado de Direito em Hayek:

“O que significa dizer que as intervenções legais devem ser formais? Eu penso que Hayek, em seu The Constitution of Liberty, melhor define o que deveria ser entendido como a aplicação dos princípios do l’État de droit, ou Rule of Law, na ordem econômica. Basicamente, Hayek diz, é muito simples. O Estado de Direito, ou legislação econômica formal, é basicamente o oposto de um plano. O oposto do planejamento. […] Então, Hayek diz, se nós queremos que o Estado de Direito opere na ordem econômica, ele deve ser o completo oposto disso. Ou seja, o Estado de Direito terá a possibilidade de formular certas medidas de um tipo geral, mas estas devem permanecer completamente formais e nunca devem perseguir um fim particular. *Não é tarefa do Estado dizer que a diferença de renda deve ser reduzida. Não é tarefa do Estado dizer que ele quer o aumento de certo tipo de consumo. Uma lei na ordem econômica deve permanecer estritamente formal.* Ela deve dizer às pessoas o que elas devem ou não fazer; ela não deve ser inscrita numa ordem global de escolhas econômicas. *Segundo*, se é para a lei respeitar certos princípios do Estado de Direito na ordem econômica, então ela deve ser concebida a priori na forma de regras fixas e nunca deve ser retificável com referência aos efeitos produzidos. *Terceiro*, ela deve definir uma infraestrutura dentro da qual os agentes econômicos possam fazer suas decisões livremente, na medida em que, precisamente, cada agente sabe que a infraestrutura legal possui um funcionamento fixo e não irá mudar. *Quarto*, uma lei formal é uma lei que se aplica ao Estado da mesma forma em que se aplica aos outros e, em consequência, deve ser de tal modo que todos saibam como as autoridades públicas irão proceder. *Finalmente, e em ligação a isso*, você pode ver que essa concepção de Estado de Direito na ordem econômica basicamente exclui a existência de qualquer sujeito universal de conhecimento econômico que poderia ter, por assim dizer, uma visão de águia de todo o processo econômico, definir seus fins, e tomar o lugar desse ou daquele agente de forma que ele tome essa ou aquela decisão. *Na realidade, o Estado deve ser cego quanto ao processo econômico*. Ele não pode esperar conhecer tudo que diz respeito à economia, ou todo fenômeno concernente à história. Em resumo, tanto para o Estado quanto para os indivíduos, a economia deve ser um jogo: um conjunto de atividades reguladas – você pode ver que voltamos ao que estávamos dizendo no começo –, mas cujas regras não são decisões que alguém toma para os outros.” Michel Foucault, The Birth of Biopolitics: Lectures at the College de France, 1978-1979, seven (21 February 1979)

A hipótese que seguirei pode ser assim formulada: a genealogia do poder, operada por Foucault na década de 1970, mostrou a existência de uma rede de micropoderes, surgida no decorrer do século XVII, responsável pelo disciplinamento e pela administração do corpo individual, ou, em outras palavras, pela constituição do indivíduo dócil e útil. A análise se complementa com a configuração do panorama do biopoder, que se instaura ao longo do século XVIII e na passagem para o século XIX, e cuja função principal já não é mais o tratamento dos fenômenos do corpo individual, mas do corpo coletivo, da regulamentação da população, dos fenômenos relativos ao homem-espécie. Com a publicação dos cursos Segurança, Território, População e Nascimento da Biopolítica, Foucault dá uma guinada em suas pesquisas e começa a estudar a biopolítica articulada ao eixo das modernas economias de mercado, influenciadas principalmente pelo neoliberalismo da Escola de Chicago, com sua Teoria do Capital Humano, e pelo Ordoliberalismo alemão. Neste curso, Foucault mostra que, sob a perspectiva do neoliberalismo do pós-guerra, a racionalidade política passa a adquirir um sentido eminentemente economicista e o indivíduo passa a ser compreendido em termos de Homo Economicus, isto é, enquanto indivíduo produtivo que age e responde aos desafios que são colocados pelo mercado capitalista. O mercado, portanto, na visão de Foucault, passa a ser considerado o “grande produtor” da verdade na contemporaneidade. O interesse de Foucault, então, volta-se às técnicas específicas do governo das populações (e não mais no que se refere aos domínios da soberania políticatradicional, principalmente como tematizada pelos filósofos do século XVIII), e como ele se dá a partir das novas regras impostas pelo mercado. Em particular, o que Foucault destaca é a intromissão de um caráter economicista não apenas no âmbito produtivo, mas também no âmbito político e em outras esferas da vida humana (a educação, a família, a criminalidade etc.).

Seguindo sua linha de pensamento, Foucault crê que nenhum regime na história alcançou um caráter e uma configuração estritamente racional, que não tenha sido um país liberal. O liberalismo possuiria um tipo de estrutura que refletiria sobre a própria natureza dos humanos, e das coisas, e por isso, seria a melhor forma de conduzir os humanos e as coisas, pois o liberalismo, configurado como uma forma de poder racional, seria um intrumento político, uma tecnologia, que possui aspectos ontológicos e epistemológicos voltados para a própria individualidade e para cada ser-em-si. Possui esse carater ôntológico e epistemológico, o liberalismo seria, antes de tudo, uma forma de fazer e refletir ao mesmo tempo, através do que Foucault chama de governamentalidade. A racionalidade liberal, considerada em si mesma como uma instância de se objetivar e subjetivar as relações humanas com a verdade, é um instrumento de poder que se dá sobre a vontade, a consciência, o eu de cada um, e permite que cada um se desenvolva racionalmente sem um controle que não seja estritamente formal sobre o seu corpo e sua consciência, permitindo que o indivíduo possa ter uma tomada de consciência e que seja capaz de se constituir como um ser que governa sua própria vida.