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“Liberdade”, de Nicolas Jr.: a liberdade de errar como condição de existência da liberdade humana

 

Por Eric Carro

Nicolas Júnior é um dos grandes destaques da música amazonense. Suas letras, marcadas por expressar a realidade, sem abrir mão da linguagem poética indispensável à boa música, com tons do bom humor, são de apreciação indispensável a quem valoriza Manaus, Amazonas, e a Região Amazônica como um todo.

As músicas mais lembradas são Geisislaine, Viagem Insólita de um Caboclo e O Amazonês. Nos dois volumes de Divina Comédia Cabocla, mesmo aquele que eventualmente não simpatizar com o teor das faixas musicais deve admitir que é um excelente retrato, um recorte, do imaginário de um povo à sua época.

Em Parabólicas, uma importante crítica à classe política amazonense, especificamente em Manaus, é latente, além de expressar as aflições e angústias do cidadão comum que de alguma forma se preocupa com matérias de esfera pública:

Quantas ruas vão ter de duplicar?

Já existe até rebelião

Tem programa local de televisão

“Sou o olho e a voz do cidadão”

Exibindo a miséria humana

Pensando na próxima eleição”

Com esse destaque, crítico àqueles que oferecem migalhas em troca de votos em decorrência de audiência, nota-se de certo modo coragem em criticar a realidade social que nos circunda, destoando da “imaginação idílica” e próximo daquela pessoa concreta, ou seja, o amazonense que faz a leitura da realidade conforme o que observa e sente de fato. Não se restringe apenas às belezas amazônicas, mas a seus contrastes, que permeiam nossas vidas e influenciam, direta ou indiretamente, no cotidiano e na personalidade de um povo.

Porém, o objeto do presente texto não esgotar essa playlist de músicas marcantes, divertidas e críticas. A música em questão, de autoria de Nicolas Júnior, chama-se Liberdade:

Segue o teor da música, curta porém aberta a profundas interpretações:

Eu quero ter a liberdade de escolher o que eu bem quiser ser.

Não quero seu bom senso me julgando por ter sido eu e não você.

Me deixe cometer todos os erros ainda que seja para aprender

Eu quero uma vida convivida e não vivida apenas por viver

Me deixe escrever o meu destino, ainda que seja em linhas tortas.

Eu quero é sair pela janela mesmo que você me abra as portas.

Se ao menos me pudesse compreender

O porquê de tudo isso ser assim

É simples, eu jamais serei você e você não está em mim.

Eu vou ser sempre assim do jeito que me convém

Princípio, meio e fim.

Viver é o que me importa, meu bem.

Ouvindo a música pela primeira vez, lembramos daquela pessoa irritante que vive tentando dar conselhos sobre a nossa vida, e a vida alheia de modo geral, e não consegue resolver a sua. Pessoa essa que nos alerta de riscos não por amizade, mas por saber que a recompensa por ter assumido o risco é eminente, e pela infeliz tática do caranguejo no balde, não admite ver o outro tendo sucesso.

Não só a essa referência do cotidiano, que cada um de nós já deve ter vivido, ou mesmo ter sido a pessoa que se meteu na vida alheia, é uma expressão do “não é da sua conta” para aquilo qu e não causa nenhum dano a terceiro. A letra pode ser vista, no entanto, como um manifesto da individualidade humana. A valorização da singularidade e das peculiaridades de cada ser humano. A valorização do indivíduo em sua vida em sociedade, sempre sujeito a erros, ainda que seja para aprender, como diz a música.

Nessa linha, é latente a noção de que nós somos senhores de nossos próprios destinos. O homem é um fim em si mesmo, e não o meio para atender finalidades alheias à sua vontade. É um ser autônomo e capaz de decidir o que é melhor para si. No dizer de John Stuart Mill, Sobre seu próprio corpo e mente, o indivíduo é soberano”.

Mesmo a liberdade humana nos deixando sujeitos a erros, muitas vezes avessos ao “common sense” (bom senso), é essencial para o significado de nossa existência, ganho de autonomia individual, bem como senso de responsabilidade, estarmos sujeitos a cometer erros.

A ideia de proibir que outras pessoas errem, no entanto, não é do monopólio dos intrometidos, ou no dicção do bom amazonês, do “enxerido”. O “enxerimento” é característica marcante dos Estados de Bem-Estar Social, bem como dos regimes totalitários.

Para melhor explicar o que se pretende trazer aqui, cabe menção a Ludwig von Mises, que tratou muito bem do tema em suas palestras resultantes no livro As Seis Lições, como segue:

A partir do momento em que começamos a admitir que é dever do governo controlar o consumo de álcool do cidadão, que podemos responder a quem afirme ser o controle dos livros e das ideias muito mais importante? Liberdade significa realmente liberdade para errar. Isso precisa ser bem compreendido. Podemos ser extremamente críticos com relação ao modo como nossos concidadãos gastam seu dinheiro e vivem sua vida. Podemos considerar o que fazem absolutamente insensato e mau. Numa sociedade livre, todos têm, no entanto, as mais diversas maneiras de manifestar suas opiniões sobre como seus concidadãos deveriam mudar seu modo de vida: eles podem escrever livros; escrever artigos; fazer conferências. Podem até fazer pregações nas esquinas, se quiserem – e faz-se isso, em muitos países. Mas ninguém deve tentar policiar os outros no intuito de impedi-los de fazer determinadas coisas simplesmente porque não se quer que as pessoas tenham a liberdade de fazê-las.”

Nesse sentido, cabe aqui também trazer observação de Steve Horwitz:

A justificativa para a liberdade humana, portanto, não é que somos tão sábios e sensatos ao ponto de sermos capazes de gerir nossas próprias vidas perfeitamente bem, mas sim que não somos tão sábios e sensatos individualmente, e que a única maneira de nos tornarmos mais sábios e sensatos é aprendendo uns com os outros.

Tal aprendizado requer liberdade para inovar e liberdade para imitar. E deve envolver algum tipo de processo confiável que seja um indicador de sucesso. Nenhum de nós sabe o bastante para gerir nossas próprias vidas impecavelmente, e nem muito menos para gerir as dos outros. E é exatamente por isso que precisamos de liberdade — principalmente liberdade econômica — para experimentar, acertar, errar, ser bem-sucedido, fracassar e imitar os outros para aprimorar.”

Particularmente, não sei se a intenção do autor da letra era chegar a este ponto. No entanto, ainda que não fosse, descreveu de forma resumida e precisa o fundamento da liberdade humana e da inconveniência de um terceiro (seja o “enxerido”, seja um aparato estatal) lhe dizendo o que é melhor para você por supostamente não saber o que é melhor para si próprio. O tolhimento da liberdade é, enfim, o tolhimento do processo de descoberta, e consequentemente um empecilho para todo o progresso humano.

Referências:

MISES, Ludwig von. As seis lições. Tradução de Maria Luiza Borges. 7ª edição. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises, 2009.

http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2485

https://www.youtube.com/watch?v=_PyR4mAARwA