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Resenha: Os três episódios que todo liberal deveria assistir – Rick and Morty

Por Alexandre Neves Solórzano

Rick and Morty é uma das séries animadas mais inteligentes já criadas, tendo como característica central um humor ácido e referências diversas à cultura pop norte-americana. Piadas de teor político e, até mesmo, brincadeiras envolvendo o presidente dos Estados Unidos são encontradas no desenho animado, que funcionam como um atrativo para todos aqueles que se interessam por política, história e uma boa trama.

Como resumo básico, Rick and Morty se baseia numa família tradicional estadunidense, em que Rick (avô) e Morty (seu neto) vivem aventuras por volta de todo o universo. Isso se dá porque Rick é um cientista extremamente criativo e inteligente, o que o possibilitou a criação de uma arma de teletransporte, que pode ser usada para viajar a dimensões diferentes e, inclusive, planetas extremamente distantes da Terra.

Segue abaixo uma seleção de episódios que podem interessar o público liberal, onde uma boa piada de teor político ou ironias engraçadas podem ser o principal atrativo. Não deixem de conferir a série depois de ler a resenha!

 

1 – Piloto (1 x 1)

Na introdução do seriado animado cria-se a noção da perspectiva niilista da personagem principal Rick Sanchez, avô do também protagonista Morty Smith, que acompanha seu neto em diversas aventuras intergalácticas. Dentro do ideológico comportamento individualista de Rick há-se críticas severas ao Estado e às práticas morais vigentes em sua atualidade. No episódio em questão, Rick e Morty estão em mais uma aventura comum, desta vez em busca de sementes raras, sendo estas próprias de um planeta específico. Após certas complicações envolvendo a arma de teletransporte de Rick, é necessário que Morty, sem mais nem menos, introduza as sementes no ânus, para que eles possam passar pela alfândega. Dando o plano errado, Morty e Rick iniciam uma fuga em direção à saída do planeta. Na reta final, Rick pede para que Morty atire nos guardas extraterrestres, alegando que eram, apenas, robôs. Morty inicia os disparos, vê o desespero dos baleados e de seus companheiros e constata: são seres vivos. Rick, surpreendendo-se com a surpresa de Morty, diz: são burocratas, Morty, a mesma coisa. Quem não se lembraria de Ayn Rand vendo uma coisa dessas? O início da obra evidencia fortemente uma postura libertária por parte do velho cientista, não necessariamente para a esquerda ou para a direita, mas tendo em vista a postura antiestatal da personagem.

 

2 – Close Rick-counters of the Rick kind (1 x 10)

Nessa ocasião, uma irônica organização social é demonstrada: uma sociedade composta apenas por Ricks e Mortys, onde os primeiros dominam os segundos, numa espécie de segregação clara e imposta pela superioridade intelectual dos Ricks. O episódio é uma cômica referência a todos os governos e suas respectivas culturas, em que neles habitam o egocentrismo, a manipulação e, principalmente, o autoritarismo. O “verdadeiro Rick”, da dimensão C-137, não deixa de possuir cada uma das características dos governantes da cidadela, mas é latente a sua veia antiestablishment, que usufrui da liberdade para derrubar governos pela galáxia a fora. O Episódio é essencial para aqueles que se interessam por política e é um vetor para uma das principais tramas da séria.

3 – The Ricklantis Mixup (3 x 7)

Sendo essa, sem dúvida, a parte mais aclamada da série, tal episódio traz consigo uma reunião de diversos temas num mesmo plano: pode-se enxergar George Orwell, aludindo à obra 1984, a trilogia Matrix ou a própria Escola de Frankfurt, com seus teóricos Adorno e Horkheim falando sobre a teoria da Indústria Cultural. O capítulo traz de volta a cidadela dos Ricks, dessa vez aprofundando bastante na realidade que cada cidadão acaba por passar. A verdade é que a desigualdade entre Ricks e Mortys parece estar chegando ao fim, por meio de uma personagem que, para não dar spoilers, não direi o nome por aqui: essa personagem está concorrendo à presidência da cidadela, e utiliza do discurso populista para alcançar o poder. Te lembra alguma coisa?

Nessa levada, conseguimos ver como a sociedade dos Ricks e Mortys é repleta de corrupção e manipulação, onde o Estado junto aos grandes empresários utilizam seus poderes para ruir os direitos de ambas as partes, tanto de Ricks quanto de Mortys. Isso acaba por dizer que, mesmo sendo os Ricks superiores aos Mortys no quesito da hierarquia, ambos sofrem com o autoritarismo e a alienação estatal, e o novo presidente ainda pode piorar as coisas, tendo um caráter que faz lembrar um pouco os déspotas da nossa vida real e cotidiana.

Não deixem de conferir a série, que pode ser vista na Netflix (primeira e segunda temporadas) e no YouTube. Dificilmente alguém não gostaria dessa animação envolvendo política, referências à cultura pop e uma boa dose de filosofia que ainda deverá ser tratada numa futura resenha.  

Resenha: Monumento às vítimas do comunismo – Praga e suas obras anticomunistas

Por Alexandre Neves Solórzano

 

O Comunismo, como todos aqueles que acompanham as atividades do Clube Ajuricaba já sabem, devastou partes do continente europeu de uma forma que respinga até os dias atuais. Pode ser visto nos países que ficam ao leste da Europa, por exemplo, uma maior incidência de pobreza e atraso no que tange a economia e o próprio IDH do país. Na Tchecoslováquia não fora diferente. Quando o Partido Comunista venceu as eleições parlamentares no país em 1946, muitos já suspeitavam do provável dano que tal acontecido poderia vir a causar. E em 1948, não para uma surpresa tão grande, houve um golpe e os comunistas tomaram o poder total na Tchecoslováquia.

Os quase cinquenta anos de domínio comunista na região europeia contaram com expulsões de liberais e invasões de países da URSS que contemplavam o Pacto de Varsóvia: o governante Alexander Dubcek, que buscava dar uma abertura econômica no país, foi imediatamente deposto no final dos anos de 1960 e todos os seus apoiadores exilados após a entrada de Gustáv Husák, que se tornou líder do Partido Comunista e fez questão de tal ação. Ou seja, desde os primórdios do período da pós-II Guerra Mundial a cidade de Praga, assim como o que hoje é a Eslováquia e a República Checa, não teve um século XX recheado dos benefícios sociais apresentados pela liberdade.

Por consequência lógica, o salto temporal do fim do período comunista do país até os dias atuais ressaltam uma Praga exacerbadamente anticomunista, contando com a existência de obras de artes que não dispensam a visita dos turistas. Além do gigante dedo do meio roxo direcionado ao Castelo de Praga, no meio do Rio Moldava, e das gigantes nádegas em que você pode pôr a cabeça e assistir políticos do século XX comendo ao som de “We Are The Champions”, da banda inglesa Queen, há também uma das esculturas mais marcantes de toda a Europa: o monumento que retrata as vítimas do comunismo foi inaugurado no dia 22 de março de 2002, pelo artista Olbram Zolbek, e choca até os dias atuais.

As estátuas representam indivíduos caminhando com uma aparência ofegante, estão macérrimos e demonstram uma constante decomposição. A crítica central recai sobre como a ideologia comunista tende a deteriorar o caráter humano e, também, destruir fisicamente toda uma população. Basta compararmos tudo isso ao que conhecemos atualmente na Venezuela, na Coréia do Norte ou em outras nações praticantes de vertentes socialistas. A obra choca não somente pela aparência das esculturas, mas principalmente pela carga histórica depositada na criação. Olbram, autor da obra, dedicou sua produção à todas as vítimas do comunismo e à todos aqueles que amam a liberdade. O artista, que nasceu em 1926, pode presenciar bem o que fora a destruição comunista em seu país, o que impediria qualquer inclinação sua ao lado mais à esquerda do espectro político, diferentemente de grande parte dos artistas que nunca presenciaram um regime socialista ou foram censurados pelo mesmo. Vale ressaltar que a decomposição retratada é representada por estátuas realmente pela metade, onde vemos um indivíduo sem metade de cima do corpo, com um buraco aberto no peito ou com pequenos furos ao longo do corpo.

É pela noite que o cenário torna-se mais amedrontador e nostálgico, que quando recheado pela neve remonta, talvez, cenas comuns de pobres trabalhadores corroendo-se com o frio da região, acompanhados pela precária situação econômica do país e a repressão do governo comunista. O monumento encontra-se numa escada em meio a uma ambiente florestal, e nele consta uma placa explicativa: 205,486 prisões, 170,938 exilados, 4,500 mortos nas prisões, 327 abatidos enquanto tentavam fugir, 248 executados. Além dos dados apresentados, na placa há a seguinte frase: “Este memorial é dedicado a todas as vítimas: não apenas aos que foram emprisionados e perderam a vida, mas também aos que viram a sua existência arruinada pelo despotismo totalitarista”.

Hoje Praga goza de obras de arte demasiadamente interessantes àqueles que são contrários à ideologia comunista, e vale a pena estudar sobre tais obras para poder compartilhar um pouco mais dos sentimentos de outros adoradores da liberdade de expressão e econômica. Hoje, a República Checa pode se mostrar como uma das nações mais desenvolvidas do período pós-comunista. Com um IDH invejável até para aqueles que não tiveram uma ditadura sanguinária em sua história, o país cresce cada vez mais com o turismo, tendo a cidade de Praga, país em que residem grandes obras de arte do período gótico e barroco, assim como as citadas por aqui, o foco central da procura turística.

Resenha: Metal Contra As Nuvens – um registro libertário

Por Alexandre Neves Solórzano

Quem diria que a maior banda de Rock da história do Brasil, Legião Urbana, seria um grupo musical liderado por um autoproclamado capitalista? O paí­s que possui em sua carga cultural o marxismo como aperitivo apresenta, dentro de seus registros, uma década de 1980 marcada por bandas de vieses abertamente esquerdistas, e a trupe de Renato Russo passara com um nado contra a corrente rumo ao reconhecimento nacional. As mensagens transmitidas por Russo, Dado e Bonfá tinham em seus respectivos códigos a marca de um espí­rito independente, livre e, principalmente, sincero. A liberdade era uma temática constante na banda.

Para evitar alongamentos a respeito da totalidade da Legião Urbana, alguma resenha futura apontará mais caracterí­sticas do célebre grupo. Nesta resenha em questão, trataremos de uma canção densa e que divide opiniões dentre os ouvintes da banda: Metal Contra As Nuvens, do Álbum V (1991).

Para analisar mais claramente o resumo do que tenta ser dito na obra em questão, é preciso retomarmos à mente a perspectiva individualista já citada em outras resenhas: um indivíduo em busca de alguma verdade, preso não somente pelos limites da sociedade mas também em sua própria existência. Além disso, é preciso lembrar da recorrente busca por liberdade nas letras existencialistas de Renato Russo. O que seria tal liberdade num âmbito crítico do ponto de vista libertário ou de um ponto de vista contrário ao Estado forte convencional da história brasileira? Quiçá uma simples confirmação de nossas tão almejadas ilimitações de pensamento e produção? Renato cantava o apelo por autonomia, acima de tudo, nos primeiros versos da canção:
“Não sou escravo de ninguém
Ninguém é senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E por valor eu tenho e temo o que agora se desfaz”
A provável arbitrariedade de qualquer análise ideológica pode desvirtuar a real intenção de Russo ao escrever a letra da canção. Entretanto, suas alegações a respeito de algumas questões como valores tradicionais, família e propriedade não deixam dúvida de qual lado o letrista se identificava mais. Autodenominando-se “capitalista” em entrevistas antológicas, Renato confirmava a Legião Urbana no patamar de defensores da liberdade econômica. Enquanto Plebe Rude pedia por uma distribuição de renda igualitária, a Legião Urbana recitava em suas canções o preço de um Estado gordo sobre a cabeça do povo.
Metal Contra As Nuvens não é tão difícil de ser compreendida quando se analisa e compara os versos da canção com a realidade brasileira da época em que fora escrita e a realidade atual. Alta taxa de impostos, uma corrupção institucionalizada e o Estado, como conhecemos, apropriador de quase tudo e propagador de chagas nacionais persistentes como a miséria e a falta de oportunidades para os mais pobres. O trecho que segue demonstra a revolta de se crer em promessas populistas que, no fim, acabam por não vingar, exibindo a falsa lábia da classe política:
“Eu quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa”
Para gerar mais um pouco de identificação com a obra, o seguinte trecho deixa claro a revolta que condiz com problemas inflacionários e relacionados à alta cobrança de impostos por parte do governo. Renato Russo, mentor principal do grupo, em entrevistas diversas relatou as dificuldades de se trabalhar e de se ascender num país em que os impostos atrapalham diretamente a renda individual de um trabalhador comum – este que o Estado diz tanto proteger:
“E por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Mas vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo
Olha o sopro do dragão”
Após o término da canção é possível traçar uma linha histórica em busca de cada angústia representada pela banda nesse trabalho. O ar medieval nos leva a um cenário em que há um rei absolutista, que tudo pode. Isso torna possível uma comparação entre o nosso Estado atual e aqueles tempos da Idade Média, evidenciando a persistência da angústia por parte das civilizações. O sopro do dragão é praticado até os dias atuais.
Para finalizar a canção fora utilizada a esperança como musa central. Os versos exaltando um novo começo e almejando um ar otimista chegam a emocionar, fazendo-nos pensar em como seria um mundo minimamente justo. Toma o clima de um convite à luta ou à resistência, que para os críticos do sistema compõe o caminhar para uma sociedade livre:
“E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer.
Não olhe para trás,
Apenas começamos,
O mundo começa agora.
Apenas começamos.”

“Blackbird” e a busca pela Liberdade da Mulher Negra

Por João Pedro Lauand

Poucos anos foram tão emblemáticos e conturbados para a história da humanidade quanto foi 1968. Não tão poucas foram às razões que justificam até hoje a alcunha de “O ano que não terminou”, afinal, elas estão fortemente relacionadas às profundas conturbações políticas e às revoluções sociais e culturais que marcaram o fim de uma década que mudou o mundo.

A Europa, como (quase) sempre, foi o estopim para o que de fato foi 1968. Mais precisamente em Praga, na então Tchecoslováquia, onde centenas de milhares de estudantes foram às ruas em protesto contra a presença de tanques e tropas soviéticas que invadiram o país com intenções de impedir que o governo do mesmo se tornasse menos autoritário e mais distante politicamente de Moscou. Tais protestos inflamaram os ânimos para que movimentos estudantis, em maioria de esquerda e de liberais, lutassem contra o autoritarismo, seja no “Maio de 1968” em Paris e na Passeata dos 100 mil contra a ditadura militar no Rio de Janeiro, quanto para protestarem contra as desigualdades raciais e pelo fim da Guerra do Vietnã nos EUA.

Nem a música popular da época escapava deste turbilhão revolucionário. Nem mesmo o quarteto de Liverpool. Cada vez mais arrojados musicalmente, e com um espírito cada vez mais contestador, os Beatles tinham a muito tempo deixado de ser somente uma banda que tocava músicas “melosas” e rocks de Chuck Berry no Cavern Club. Eram, mais do que nunca, o grupo musical mais influente do mundo. Entretanto, isso não se refletiu em coesão entre John, George, Paul e Ringo, mas sim representou o começo do fim.

Era cada vez mais nítida a ruptura entre os membros. John Lennon agora em um relacionamento com Yoko Ono se tornou cada vez mais politicamente engajado em suas músicas. Paul McCartney por sua vez usava e abusava dos instrumentos que o estúdio da Apple Corps tinha a sua disposição e gravava músicas com arranjos da música clássica, ao passo que George Harrison e Ringo Starr tinham que lidar cada vez mais com as constantes disputas de ego entre os dois, enquanto tentavam gravar seu mais novo álbum, um dos mais marcantes da história da música, “The Beatles” ou como é popularmente conhecido, o “Álbum Branco”.

Apesar disso, Paul não se manteve alheio às inquietações políticas do mundo. Pelo contrário, embora “escondida” nas entrelinhas, trata em “Blackbird” (uma de suas composições mais bonitas e famosas) das questões raciais de uma América cada vez mais dividida racialmente, cujo movimento negro cada vez mais seguia as tendências violentas de Malcolm X em detrimento da desobediência civil de Martin Luther King, assassinado em abril de 1968.

Blackbird (forma como os escravos eram pejorativamente referidos) é uma canção que fala em essência da situação da mulher negra e de suas dificuldades em fazer valer sua isonomia jurídica e de seu direito de ser livre. A música, embora curta, traz uma mensagem de incentivo para que a mulher negra enfim possa lutar por sua liberdade e por seus direitos.

Em “Blackbird singing in the dead of night, take these broken wings and learn to fly. All your life, you were only waiting for this moment to arise”, Paul se refere à situação de exclusão e ausência de liberdade que as mulheres negra tinham, em quanto só podiam rezar (ou cantar na calada da noite) para que seus filhos pudessem chegar são e salvos da violência das ruas, mas inventava-as a se erguer de seus medos e lutar por sua liberdade que a tanto tempo era aguardada (ou seja aprender a voar pois durante toda a vida ela desejou ser livre como os outros).

Na estrofe seguinte, precisamente em “Take these sunken eyes and learn to see”, McCartney se refere indiretamente à Rosa Parks, a mulher que em 1955 se recusou a dar seu assento a um homem branco em um ônibus público e que com isso deu o estopim para o surgimento do movimento negro, e pede que as mulheres negras parem de enxergar cegamente somente o que as autoridades desejavam e que enxergassem um presente onde pudessem de fato ter seus direitos respeitados.

Apesar da primeira estrofe se prologar no fim, reforçando o incentivo já mencionado, o ponto chave da canção é em “Blackbird fly. Blackbird fly. Into the light of the dark black night”, aonde Paul diz a mulher negra para ela lute e seja livre e que se agarre na esperança de que enfim terá sua isonomia e sua liberdade respeitada pela justiça. Ou seja, vemos que Blackbird é acima de tudo uma canção que ainda hoje possui uma mensagem muito importante na atualidade, de que o racismo das autoridades deve ser sempre enfrentado, e que a busca pela isonomia jurídica das populações mais segregadas é uma das razões pelas quais devemos lutar pela liberdade.

Mesmo que Sir James Paul McCartney esteja longe de ser um libertário, ainda é um músico que inspira muitas pessoas a lutar por mundo mais “Paz e Amor”. E por mais piegas que isso soe, ainda é uma das grandes recompensas que a Liberdade nos traz. Confesso que estou longe de ser um entendedor de toda a temática das questões raciais, sejam no Brasil ou nos EUA. Mas acredito que somente lutando pela Liberdade, todos os pássaros negros enfim poderão voar.

Resenha: The Wall – uma perspectiva liberal

Por Alexandre Solórzano, do projeto Versos de Cascavel.

A sede por liberdade costuma vir atrelada a uma série de crises existenciais comuns ao ser humano e, levando isso ao campo artístico-musical, não pode ser esquecido o icônico álbum de Rock Progressivo The Wal, da lendária banda inglesa Pink Floyd. O álbum teve a pesada responsabilidade de reproduzir o grito de uma geração aprisionada dentro um status quo do campo educacional, executando tal tarefa com exímia perfeição.

Fechando o ciclo musical do grupo britânico na década de 1970, o álbum lançado em 1979 satisfez àqueles que sentiram, dentro das homogeneidades propostas pelos seus respectivos sistemas educacionais, o desconforto resultante das limitações que lhes eram impostas de forma cotidiana. No caso da educação brasileira nas décadas de 1960 e 1970, há a influência militar nos meios educativos, o que não aproximou o que poderíamos chamar de liberdade de pensamento, tal como não havia nos demais países latino-americanos, como a Argentina sob regime militar, o Chile com o governo ditatorial de Pinochet e Cuba, com Fidel e cia.

A obra pode ser utilizada pelas mais diversas ideologias ou posicionamentos políticos, o que demonstra como certas iniciativas artísticas desvirtuam-se de seu foco ideológico “original”. É necessário ressaltar tal ponto, pois Roger Waters, responsável principal pela temática do álbum, possui tendências não muito liberais e, para evitar rótulos, pode-se dizer que sua apatia pelo Estado de Israel e suas constantes críticas ao sistema capitalista já demonstram alguma coisa sobre sua inclinação política. Deixando de lado a real intenção do grupo e focando na análise a partir de um ponto de vista liberal, vejamos o que nossos ideais podem concordar com um dos álbuns mais famosos do século XX.

 

1 – Liberdade, sistema educacional e Another Brick in the Wall

 

Tentar soltar-se de um sistema vigente ou simplesmente sentir-se alienado por um conjunto de normas sociais são coisas comuns na vida de qualquer liberal, libertário ou conservador. Falando pelo nosso lado (a dita “direita” política), temos traumas cotidianos com a forte interferência do Estado na economia, uma marcante privação de liberdades individuais e, por fim, distorções histórico-culturais demasiadamente fomentados pelo currículo escolar. Pode-se observar que o campo educacional, um dos principais temas abordados pela obra, é algo que faz despertar muita coisa naquele “liberaleco” do 1º ano do ensino médio – os três anos que um liberal passa nessa específica etapa escolar serve para revolta-lo tanto quanto as feministas servem para revoltar ao ilustre youtuber anarcocapitalista Paulo Kogos. Na faculdade, então…

Todas essas situações deixam de ser mero detalhe pois já se encontram normalizadas, o que torna a vontade por mais liberdade um sacrifício diário. Another Brick in the Wall, faixa dividida em três partes, resumiu e ainda resume os problemas intrínsecos do ensino convencional: a acomodação intelectual e a homogeneidade de ideias imposta dentro da sala de aula. Hoje, a velha imposição do professor para com o aluno foi trocada pela persistência de uma rotina que, além de ser desgastante, é limitante e voltada unicamente para o vestibular. Nascer, crescer e passar num concurso público, eles dizem.

 

2 – O caos individual de Hey You

 

Ei, você, aí fora na estrada, sempre fazendo o que te mandam, você pode me ajudar? – Eis uma das frases da canção Hey You, faixa que abra segunda parte do álbum. É perceptível o desespero presente na canção e como isso pode ser aplicado às realidades totalitárias mundo afora. No Brasil, desesperamo-nos por não conseguirmos abrir uma empresa pelo excesso de burocracia ou por não conseguirmos manter uma vida sadia devido ao alto estresse causado pela pressa da rotina, o preço exorbitante dos produtos e a corrupção ativa do governo. Isso cabe como um grau caótico gigantesco se atribuirmos a isso uma concretização logística – o problema não é o governo atual, nem o anterior e, tampouco, o próximo. O problema está no corpo do Estado, na maneira que ele está posto. Para quem possui tal percepção, isso gera dores de cabeça diárias, ainda mais tendo isso somado aos problemas pessoais oriundos das relações que fazemos no dia a dia, com nossos familiares, amigos e namoradas. Zygmunt Bauman, cientista social polonês, não errou ao apontar um dos grandes males do mundo pós-moderno: a solubilidade das relações humanas perante os caóticos cenários ocasionados pelos problemas sócio-econômicos de nossa atualidade. É um fato que Bauman não vai pela linha liberal, mas negar que o ex-membro do Partido Operário Unificado Polaco estava correto ao demonstrar que o ser humano criou certa necessidade de obter suas liberdades individuais pode desvirtuar toda a obra por causa de um mero detalhe ideológico. Bauman, assim como Pink Floyd, utilizou de seu pensamento socialista para alegar coisas que, num ponto de vista liberal, podem ser facilmente adequadas e concordadas, mas com um ponto de partida e uma resultante amplamente diferente. Ambos veem o sistema capitalista como um meio opressivo para com as liberdades humanas, o que, para nós, seria um Estado interventor e de viés, mesmo que velado, anticapitalista.

Com a pegada ativista contra as guerras e contra o autoritarismo, The Wall trabalha questão do indivíduo numa sociedade monstruosa capaz de sugar todo e qualquer tipo de pluralidade de ideias possíveis. Isso resumiria porcamente o foco do álbum e como ele foi entendido por mim, mas, ainda assim, resumiria. A faixa em questão é notória por forte apelo emocional demonstrado pela combinação letra – melodia. Os gritos de Waters, os solos de Gilmour, o teclado constante de Wright e a bateria inconfundível de Mason tornam a canção um símbolo para as questões existenciais de qualquer jovem-adulto cansado e molestado pelo que ele mais detesta: limitação normalizada, espoliação legal (buscar A Lei, de Bastiat) e os problemas sociais de sua era.

 

3 – Por que, enfim, escutar The Wall e entender o que está sendo dito

 

A obra sempre terá a sua importância, graças às poucas mudanças efetuadas no que criticava o álbum e graças à eterna angústia humana de buscar a liberdade e, quase sempre, não alcança-la efetivamente. Dispenso aqui as definições subjetivas de o que seria a tal liberdade, mas demonstro-a exemplificando o que nos deixa mais distante de uma liberdade, pelo menos, possível: nossas leis que favorecem aos que gozam do poder; nossa carga tributária abusiva que, por mais que tentem negar, prejudica a população carente e favorece o aumento da desigualdade social; a privação de liberdades individuais, dentre outros pontos que valem ser abordados no seu cotidiano, com aquele seu amigo que acha interessante taxar os ricos ou com o seu professor de sociologia que persiste em te dizer que deturparam Marx.

The Wall possui riqueza temática e artística. Dificilmente alguém irá produzir o que conseguiu o grupo do Pink Floyd, com uma tremenda postura libertária perante os problemas autoritários dos nossos tempos e uma inteligência musical reunida em quatro integrantes que demonstraram, em seus mais de vinte anos de trabalho, o potencial de uma banda que, mesmo com vieses ideológicos diferentes, apreciavam o mínimo necessário para se ter uma sociedade livre.